Guinea Pig 3: He Never Dies (Mazayuki Kuzumi, 1986)

Acredito que o objetivo último de um filme quando produzido seja interagir com o espectador, seja de que forma for, fazendo-o integrar-se emocionalmente com a estória através de seus múltiplos elementos constituintes e gerando inúmeras reações que se definem de acordo com seus objetivos intermediários (rir, chorar, ter medo, etc) e finalmente o retirar durante, pelo menos alguns minutos, de seu stress diário ou do universo real cujas regras são em parte definidas ou pouco mutáveis, projetar seus sonhos ou mesmo pesadelos, fazê-lo refletir ou propor uma realidade paralela e independente para elucidar um ponto de vista, por exemplo.

Esse conceito um tanto abrangente por vezes pode ser gerador de uma enorme diversidade de situações, uma vez que lidamos aqui com o elemento humano. E a controvérsia envolvida em muitas de nossas atitudes não pode ser explicada de forma racional. Uma vez que a mente se abre para o homem indivíduo como ele é (o cinema é capaz de atingir cada pessoa de forma diferente por suas perspectivas e experiências próprias mesmo sem conhecer pessoa por pessoa, um de seus trunfos), lidamos com possibilidades que advêm desse conceito que a princípio não conseguimos sequer imaginar. Descobrimos que muitas vezes o homem é imprevisível, não sabe explicar suas reações mas é consciente que as tem. E algumas vezes tais reações são execráveis, difíceis de aceitar por ferirem os princípios seja da lógica, da ética ou da moral. Elas permanecem latentes, adormecidas, intocadas no interior do ser. Em contrapartida, são esses mesmos princípios que impedem seus detentores de externá-las…entretanto, o cinema conhece o ser humano e alguns diretores tocam exatamente nos pontos mais difíceis de compreender, mas que compõem a natureza de pessoas normais (ou não, uma vez que pode potencialmente contemplar todos os tipos de indivíduo).

A série Guinea Pig escancara uma dessas vertentes complexas dos seres humanos (o tratamento da violência), visando atingir o âmago de nossos conceitos mais enraizados e testando sua força sobre nossa constituição psicológica, um alerta para que compreendamos porque simplesmente agimos como agimos diante de situações, propondo extremos que esclarecem os conceitos arraigados que perpetuam em nossa sociedade e mostrando que se assim não o fosse, seríamos meros (ou piores até que) animais. O público alvo ou que se aventura a participar de sua jornada, definitivamente se verá no centro da encruzilhada entre ser irracional ou racional e se questionará fatalmente porque assistira algo tão recriminável, chocante e horrível. Provavelmente não obterá uma resposta convincente.

E aqui é importante dizer que os dois primeiros filmes da série subvertem muitas idéias com as quais não estamos acostumados (exemplo: a existência de uma estória a qual seja a base da temática discutida em uma produção cinematográfica aqui é destroçada, a moral e ética não são contempladas – pensamentos “lógicos” são construídos de forma totalmente livre e assustadoramente desconectados de nossa realidade, etc). Considerados como “filmes extremos”, enquadrados como uma vertente do terror, definitivamente não são filmes para qualquer pessoa. A segunda parte, Flowers of Flesh and Blood, merece um texto à parte dadas suas peculiaridades (no pior sentido possível). Acrescento a essas duas obras o adjetivo  “sick” além do “extreme” que permeia quase todos os “Guinea Pigs”.

A coisa começa a mudar nesse terceiro. He Never Dies já apresenta um “protótipo” de estória, tão paupérrima quanto a tentativa de desenvolver algo coerente, assustador e cômico ao mesmo tempo. No filme, Nakamura, o protagonista, decide se matar por uma desilusão amorosa (fator que põe em evidência, naturalmente, uma série de outros problemas com os quais lida diariamente) mas simplesmente não consegue. No mais, um desfile de violência e do lado macabro do rapaz, que utiliza de tal arma para causar pânico no casal formado pelo objeto de seu desejo (uma garota do trabalho) e seu novo namorado.

Nada aqui funciona, embora seja sempre curioso como no Japão, características para nós vistas como infantis são agregadas ao comportamento normal adulto (parece algo natural). Acredito que essa impressão resulte da pouca importância dada no Ocidente às idades mais jovens. Nestes países, há a idéia comum de que a maior maturidade provém mesmo do final da adolescência/vida adulta (note como os pequenos jovens rejeitam o título de crianças e vêm tendendo a agir cada vez mais como adultos), perspectiva bastante diferente das pessoas de países de cultura distinta. É sempre necessário se abrir para um mundo novo ao ver um filme proveniente de um país como o Japão ou você jamais compreenderá porque o humor de lá (que de forma natural se integra ao terror, violência extrema) não tem em nenhuma hipótese a mesma conotação por vezes incoerente (ou de mau gosto mesmo) para as mesmas situações ocorridas e representadas no Ocidente.

O insucesso do filme não está, portanto, em se levar a sério demais, mesmo porque tudo soa extremamente ridículo o tempo todo (até um pouco ingênuo) e o filme trabalha o humor de forma até natural, mas na pobreza da estória, no desenvolvimento raso dos personagens e na superficialidade das reações . Entretanto, também não há aqui subversões fortes da moral ou excesso de violência, o tornando mais “deglutível” pelo público.

Enfim, é um filme simplesmente ruim, péssimo mesmo, mas não pela temática abordada como Flowers, e sim pelos fatores citados acima. A sequência, Guinea Pig 4: Mermaid in a Manhole, cristaliza os conceitos de estória novamente e aprimora a noção de violência, construindo um filme mais pesado, inteligente e sombrio, sem o mau gosto das duas primeiras partes ou a bobagem da terceira, sem perder o caráter de “extreme movie”. Falemos dele em um texto futuro, talvez seja o único exemplar de certa qualidade até aqui.

0/4

Sílvio Tavares

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