A Liberdade é Azul (Krzysztof Kieslowski, 1994)

Galera, estréia do nosso amigo de longa data Thiago Duarte no Multiplot!, que não pôde estar com a gente no início mas antes tarde do que etc. E já começa falando de Kieslowski, o maldito.

A Liberdade é Azul (Krzysztof Kieslowski, 1994)

Quando a personagem da Juliette Binoche acorda na cama, é como se começássemos a fazer um tour pela expressão humana. O nosso guia obviamente é a câmera, e é um guia bem indiscreto. Ele circula pelos poros a procura do maior encadeamento da dor, e nós somos turistas segurando máquinas fotográficas à procura do melhor ângulo. “Aqui vemos uma sutil tremida de queixo. Não vai durar muito, viu? Parou. Não me perguntem por que, mas isso sempre acontece. Agora se me acompanharem até aqui… Observem esse olhar. Conseguem acreditar que existe um ser vivo esmagado por ele? Ah, e não se aproximem muito para não serem sugados para o oco infinito que ele carrega. E nada de alimentar os animais”. Kieslowzski vai além de filmar a carne como simples carne, ele praticamente usa a câmera como uma seringa enfiada na medula. Ao em vez de puxar qualquer líquido dela, ele traz qualquer coisa que não seja física. É a melancolia ganhando contornos.

Ao sair do quarto do hospital ela minimiza sua vida a um estado de conta-gotas. “Menos um dia. Menos dois dias. Menos dois dias e 6 horas”, e isso fica bem evidente em uma cena especial, quando ela está sentada em um banco na rua e olha uma senhora, muito velha, com o corpo inclinado, se arrastando pela rua, fazendo um esforço descomunal apenas para largar uma garrafa no lixo reciclável. Ela não a observa com pena, mas sim com inveja. Com uma nostalgia inversa, em saber que ainda resta esperança “eu ainda vou envelhecer e morrer, pena que falta tanto”. Ela praticamente renuncia todos os sentimentos e espera a hora chegar.

É uma pessoa que sente uma dor constante, que não da trégua, que é capaz de fazer uma espécie de “pacto” com a dor física se automutilando “eu deixo você entrar em cena, desde que consiga monopolizar meu corpo. Nem que seja por míseros segundos, por favor”.

Não tem como resumir o filme de outra forma, ele é um tratado sobre a dor, sobre a perda, sobre a incapacidade de viver mesmo sobrevivendo. E uma atuação monstruosa da Juliette Binoche. Um dos filmes mais sufocantes que já assisti.

4/4

Thiago Duarte

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One Response to A Liberdade é Azul (Krzysztof Kieslowski, 1994)

  1. Muito bom o teu comentário, Thiago. Gosto bem mais de A Fraternidade é Vermelha, mas A Liberdade é Azul é um grande filme.