Expresso Para Bordeaux (Jean-Pierre Melville, 1972)

A dor, pra Melville, não tem cheiro, não tem textura, não tem expressão; não se manifesta no nível emocional da superfície, capaz de ser captado pelos sentidos humanos. É muda, subterrânea e deixa no seu rastro apenas e nada mais que uma única cor: o azul. Porque é o que acontece com o film noir quando passa pelo filtro de Jean-Pierre Melville, e pelos olhos de Alain Delon.

Expresso Para Bordeaux é antes de mais nada um dos filmes mais bonitos do mundo. Visualmente mesmo, na tela, e tem aquele mesmo caráter frio e limpo de O Samurai, com homens polidos ao invés de filmados, e que dão sempre a impressão de serem incapazes de transpirar, de sangrar e de sorrir. E apesar de os paralelos com a obra-prima de 67 serem quase inevitáveis, Expresso potencializa aquela mecânica da simetria (cultuada religiosamente até o final para ser estilhaçada nos últimos cinco segundos) e vai além, porque ao contrário de O Samurai, apesar da semelhança dos destinos, Melville mantém a estrutura laminada e inquebrantável que alicerça seu filme, seus personagens e as ruas nebulosas de Paris, elementos que sob a lente do francês são irreversivelmente nivelados no timbre afônico da dor e do remorso, porque os homens de Melville são profissionais, acima de tudo, e é por isso que parecem inexistir como seres humanos.

Os sentimentos estão extintos nesta Paris azulada de 72. Eles não aparecem, nunca, ao longo dos 98 minutos de filme, mas acredite (ou não): estão todos ali. E o último plano é um exemplo brilhante de como se mostra algo sem nem sugerir mostrar.

Obra-Prima, e ainda que não seja maior que O Samurai, sustém a mesma linha de hipnotismo visual por aquela forma metódica e detalhista no limiar da compulsão com que Melville filma e reconstrói cenários, ruas, paisagens e pessoas ao passarem pela lente da câmera e caírem no mundo de metal inventado pelo diretor. Porque é esta a identidade do noir europeu pro francês, escrita em Expresso Para Bordeaux através de três personagens, dois olhos e uma cor. Film bleu.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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