Premonição (Sette Note in Nero / The Psychic – Lucio Fulci, 1977)

A obsessão como matéria-prima daquele suspense catalogado por Alfred Hitchcock se encontra quase sempre nas vias do desespero como a manifestação mais pura e brutal de um aparentemente simples sentimento de vazio, uma necessidade que só pode ser alimentada com o próprio corpo, entregue à rede da determinada investigação até que ele mesmo se torne o objeto investigado ou se confunda irreversivelmente com a substância, e embora os exemplos partam do film noir, Vertigo, Blow Up até o próprio Profondo Rosso, nunca o círculo se fechou num desenho tão irônico e simétrico como em Sette Note in Nero.
 
Por pouco o filme do Fulci nem é um giallo, estando mais para o suspense inglês do que para horror italiano, começando pela trama atipicamente valorizada dentro do fluxo incontido de imaginação que os velhos sádicos cultuam. E ela é conduzida quase que com minimalismo por um Lucio Fulci que embora não enlouqueça completamente como em Terror nas Trevas ou Pavor na Cidade dos Zumbis, demonstra uma elegância com a câmera que eu simplesmente não conhecia no cara, tido sempre como o mais grossão (e não menos espetacular) do triunvirato italiano.
 
Mas o filme é lindo… Apesar de essa beleza emergir livremente apenas durante a meia hora final, que talvez até por isso seja inteira um clímax (e a hora anterior, inteira um prelúdio). Não havia ainda encontrado no Fulci uma confluência de som e imagem tão plástica e perfeccionista como no Sette Note, o que o aproximou demais do Bava e do Argento no modo religioso e fanático de tratar esta imagem, mesmo que as proporções neste sentido ainda devam ser guardadas.
 
Sette Note só não é candidato a obra-prima porque a inversão na dosagem de distribuição da história ao longo dos noventa minutos resultam em dois terços de puro desenvolvimento quase desprovido de estilo, ou de criação autoral do diretor, descarregada no entanto intensamente durante a extraordinária meia hora final. Não em forma de surto como nos trabalhos posteriores, mas na embalagem vermelha de um verdadeiro artista visual, movimentando a câmera com uma leveza e uma doçura infernais, unindo a isso a trilha absolutamente fora de série que como se não bastasse tem importância narrativa explícita e acabou virando título do filme (ah propósito, ignorei o título nacional porque, primeiro, é pouquíssimo conhecido, segundo que é um spoiler e terceiro que é uma bosta).

Sette Note in Nero (ou Seven Notes in Black, ou The Psychic, ou Premonição, etc) é tão especial exatamente porque a heroína em questão não assimila um acontecimento externo como bandeira própria e parte numa cruzada para resolvê-lo e ao mesmo tempo resolver a si mesma. Ela é o tempo inteiro o próprio material de estudo, mesmo sem perceber. Não como em Blow Up onde o fotógrafo captura uma imagem alheia a sua vida e a toma para si, como também ocorre em Vertigo, Janela Indiscreta, Blow Out, Veludo Azul, etc… O labirinto percorrido por todos estes personagens, no caso de Virgínia, é interno, e ela não pode encontrar no seu final outra solução que não ela mesma, e neste sentido, Sette Note é mais como Peeping Tom. Não pode haver melhor exemplo de que a sede da obsessão só é saciada por um copo do próprio sangue.

4/4

Luis Henrique Boaventura

2 Comments

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2 Responses to Premonição (Sette Note in Nero / The Psychic – Lucio Fulci, 1977)

  1. Jerome Tarantino

    Ótimo! sou fã de Fulci, irei conferir este em breve.

  2. Jerome Tarantino

    Obra-prima… É incrível como Lucio Fulci vai muito bem ao optar por um estilo mais Mario Bava de ser, o filme mais diferente dele e é perfeito como………SPOILER ABAIXO:

    Jogar um verdadeiro banho de agua fria no espectador.