[Rec] (Jaume Balagueró, 2007)

Qual a condição real do homem? Seríamos seres constantemente vigiados por Deus, que nos dita seus ensinamentos para sermos dotados de felicidade e façamos as pessoas felizes? Por outro lado, estaríamos sob a supervisão de um demônio latente, que cuidadosamente aguarda à espreita, pronto para nos atacar na medida em que nos distanciamos mais do primeiro? Ou seríamos simples indivíduos à mercê do caos imposto por duas entidades sobrenaturais que nos impõem suas características “preferidas” de acordo com nossas alternâncias psicológicas?

Em [Rec] a resposta para essas perguntas é única e assustadora: somos nós mesmos, dependendo do ponto de vista, a unificação das três idéias acima representadas. Quando nos deparamos com a intensidade da cena onde avistamos as sombras tênues dos humanos por trás do isolamento do prédio onde todos os eventos importantes do filme ocorrem, a visão das roupas brancas dos trajes protetores nos remete a uma espécie incoerente de “Deus maligno”, aquele com poder de salvar, resgatar as almas, criaturas, mas que não se importa, não faz nada diante do abismo que se encontram em seu microcosmo porque está externo à ele.

E parece que ele, nesse momento, os isolara conforme um deus antigo e temido, como se fossem o resultado de algo que deu terrivelmente errado, servindo de janela para os não afetados pelos erros e pecados. O prédio contém a soberania do caos, a ditadura do horror, o resultado dos erros cometidos dos outros. “Dê graças a Deus por você estar fora do prédio…eles morrerão para que “aquilo” não venha até você.”

Por outro lado, a face demoníaca do caos ataca livremente, em um mundo sem regras, onde pode demonstrar sua fúria sem restrições, sem obstáculos. Um vírus, uma ameaça biológica ou uma possessão direta e terrível. E toma tudo, um por um, destrói tudo que vive nesse microcosmo (que em determinado momento do filme parece o único universo existente, pela importância) a seu belprazer.

Mas seriam essas pessoas vítimas? Criaturas escolhidas para experimentar a ira de seres infinitamente mais poderosos servindo de espelho para outros seres em decadência fora de tal universo?

Na verdade, os humanos possuem todos estes atributos. São intrinsecamente vítimas, deuses e demônios, ao mesmo tempo. Balagueró e Plaza convidam você para participar desse banquete do caos, da materialização do inferno na Terra.

O cenário: Uma reportagem feita por uma tv local que objetiva fazer um documentário sobre o corpo de bombeiros, relatando suas atividades noturnas. Ao investigar um chamado ocorrido em um prédio sobre um acontecimento relacionado aos gritos de uma senhora em um dos apartamentos, eles jamais imaginariam que o mundo se restringiria a tal prédio, que os seres viventes se transformariam nessa partição do universo físico e que o terror assolaria e provocaria uma destruição tão grande.

Filmado em primeira pessoa (com um dos personagens portando uma câmera), [Rec] lembra bastante o recente Cloverfield e Witch Blair Project, filmes cuja origem parecem advir do sucesso de um filme de 1980 (que possivelmente se inspirou em outro e assim por diante) chamado Cannibal Holocaust… mas isso é outra história.

4/4

Silvio Tavares

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No Silêncio das Trevas (The Spiral Staircase – Robert Siodmak, 1945)

Uma porção de momentos geniais girando em torno de um miolo que consome boa parte dos 80 minutos só pra construir um whodonit redondinho e imbecil. Eu não vou me conformar. Os primeiros 15 minutos são intocáveis, e só pelo resto da noite se seguir no meio de um temporal cheio de personagens pitorescos dividindo uma casa enorme com um assassino espreitando cada um dos inúmeros cantos escuros cuja vítima escolhida é uma mulher que não pode gritar ou chamar por socorro pelo fato de ser muda eu não posso deixar de ficar completamente puto por No Silêncio das Trevas ter perdido a chance de ser obra-prima.

É deslumbrante, cada plano meticulosamente bem composto, movimentos de câmera dignos de um De Palma ou Argento (em certo momento ele encarna a subjetiva de um jeito que me lembrou de cara Prelúdio Para Matar, e estamos na década de 40 aqui porra), e o modo como o filho da mãe ilumina a velha mansão cheia de detalhes, portas, cantos e reentrâncias sugerem que a qualquer momento um vulto vai pular do meio da escuridao. E os parcos dois assassinatos são as coisas mais lindas do mundo, em especial o segundo quando ele “censura” a imagem preenchendo de sombras a tela enquanto deixa apenas as mãos da vítima iluminadas e se contorcendo de desespero. É de fato uma poesia das variações de claro e escuro, da fotografia, das luzes e das sombras e dos relâmpagos e ranger de portas e passos invisíveis circulando nas trevas.

Não tem como não odiar esse filme.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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É início de noite e um temporal se arma no horizonte quando o serial killer do vilarejo ataca novamente, em uma casa onde no andar de baixo boa parte do povoado assiste a The Sands of Dee (D. W. Griffith, 1912). Entre eles está uma jovem muda. Na cena abaixo, ela volta sozinha para casa, enquanto alguém a segue. No escuro. Silenciosamente.

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Black Dynamite (Scott Sanders, 2009)

Sei que ainda faltam seis dias para o Festival acabar, mas foda-se: esse é o melhor filme do Festival do Rio desse ano!

Black Dynamite é uma homenagem deliciosa e fodástica aos blaxploitation dos anos 70, com tudo o que o gênero tem direito (trilha sonora espetacular, ação, peitos, gírias a granel, ghetto style, etc..), com um fabuloso tom de paródia (mas sempre respeitando o legado blaxploitation) temperando o filme. Como é de praxe no gênero, temos a clássica trama “O sistema (The Man!!!) distribui entorpencentes para os negros e Black Dynamite vai consertar as coisas”, mas essa linha de história vem recheada com as coisas mais absurdas e genias que se possa imaginar. Só para ter uma idéia, o alvo principal é justamente umas características mais icônicas dos Black guys, e temos até o Watergate (sim, aquele escândalo mesmo!) sendo parte da história (e de uma maneira como você nunca imaginou), gerando os 90 minutos mais divertidos desse Festival. E Michael Jay White (para quem não sabe, é o cara que fez Spawn) faz do seu Black Dynamite um motherfucker nigga capaz de honrar a longa linhagem que tem, entre outros, Shaft, Sweetback e Superfly, só para ficar nos mais icônicos.

Enfim, um filme que me faz ter orgulho do meu black power!

4/4

Adney Silva

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Amantes (Two Lovers – James Gray, 2008)

E se amar significasse tudo? E se as irracionalidades inerentes à beleza desse sentimento pudesse nos sustentar diante de todas as adversidades que a vida nos traz?

Two Lovers se inicia com uma tentativa de suicídio de um rapaz que sofre de transtorno bipolar. Não fora a primeira vez, mas fica evidente que ele deseja mais que tudo VIVER e isso nem sua instabilidade psicológica conseguiu destruir. É como se a vida fosse uma chama incandescente residente em seu peito e perdesse a força vez ou outra, mas é intensa demais para se apagar completamente.

Com o futuro delineado por uma relação familiar complexa (e aqui cabe destacar a magnífica atuação de Isabella Rosselini como mãe, que, apesar de pouco conhecermos de seu histórico – como todos os personagens do filme – transmite sensações, desejos e emoções com suas expressões delicadas e que remetem a um profundo conhecimento das atitudes do filho). Leonard desenvolve métodos de escape da realidade, sem fugir de sua natureza humana – dotado de sexualidade, em busca da felicidade, buscando superar os problemas que fatalmente surgem simplesmente por existirmos. E nessa busca, James Gray nos faz conhecer um homem diferente, que não se comporta de forma coerente com um ser tomado pela doença. Leonard consegue ser divertido, conquistador, malandro e, principalmente é capaz de amar. E amar intensamente. Quando sua trajetória cruza com a de duas mulheres também de natureza inexplicavelmente dúbia (e esse inexplicavelmente tem a função de mostrar o quanto nossos comportamentos são misteriosos e não podemos ser enquadrados em padrões racionais) a estória se complica. A mistura do certo com o errado, do normal versus o anormal, do típico rivalizando com o atípico gera no final um furor absurdo, inexplicável, poderoso e cinematograficamente falando, beirando a perfeição.

Para lembrar de dois primores – e há muitos :

Spoilers

Há uma cena de criação de suspense no final do filme com um caminhar da personagem de Gwyneth Paltrow em sombra empalidecida, até revelar seu rosto, enquanto Joaquin Phoenix espera ansioso até receber a triste notícia de que ela o deixaria, que é uma coisa do outro mundo. Denuncia o contraste do mundo de delírio apaixonado de um homem que ama, mas ama tanto que esqueceu de perceber que a outra parte poderia não sofrer da mesma “doença” do morrer de amor, ou pelo menos não por ele. Assim também se fazem as cenas dos encontros lá em cima, especialmente a da explosão psicológica de Leonard que se esgota em um “não quero mais te ver novamente”, enquanto durante todo o diálogo observamos as tomadas fragmentadas por causa das pilastras, mostrando ora um personagem ora outro, em um surto de nervosismo pálido, estranho e triste.

Fim do Spoiler

Belíssimo filme, dos melhores do ano. Atuação magnífica do excepcional Joaquim Phoenix e de Paltrow (que sempre adorei), sem contar Mama Rossellini, que dispensa comentários.

4/4

Silvio Tavares

ou: Amantes (James Gray, 2008) – Thiago Macêdo Correia – 4/4

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Bellini e o Demônio (Marcelo Silva Galvão, 2009)

O primeiro da série, “Bellini e a Esfinge”, lançado em 2001, apesar de suas falhas, foi uma das grandes supresas daquele ano, especialmente pelo clima noir que permeava durante todo o filme, pela direção e a fotografia, que mostra que a noite paulistana é o cenário ideal para detetives cínicos e tramas rocambolescas.

Enquanto que o primeiro é todo o climão noir que predomina (com todas as regras da cartilha do gênero), “Bellini e o Demônio” apenas se utiliza da capa noir para mergulhar fundo na psique atormentada do protagonista, com direito a referência a Aliester Crowley, no melhor estilo “Coração Satânico”. A mistura até que acabou dando certo, com uma atuação surpreendentemente boa de Fábio Assunção, apesar de uma edição um tanto comfusa às vezes, além de personagens secundários que só seriam conhecidos para quem tivesse visto o primeiro filme (ou lido o livro), o que pode dificultar a compreensão do filme para alguns. Os delírios de Remo Bellini foram também bem apresentados no filme, apesar de algumas alternativas óbvias para a sua representação (como a utilização clássica do espelho).

Mas esses detalhes não chegam a provocar uma grande mancha em “Bellini e o Demônio” que, apesar de ter o maior apelo comercial daqueles que concorrem na Premiere Brasil, em momento algum pareceu ser um mainstream. Ponto para o Marcelo Galvão.

3/4

Adney Silva

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Giallo (Dario Argento, 2009)

*spoiler no 3º parágrafo

É preciso cuidado. Desde os 5 minutos de filme, quando o primeiro clímax é um rapto ao invés de um assassinato, qualquer fã de cinema fantástico vai notar que Giallo NÃO É um giallo, e principalmente que precisará reorganizar suas expectativas ao longo da sessão. Isso por que, antes de mais nada, não se trata de um trabalho explícito, daqueles onde se sente a mão de Argento como fogos de artifício na tela. Câmera subjetiva, travellings, cores, uma atmosfera qualquer meticulosamente preparada, etc… Nada disso. Os assassinatos pontuando a trama – sempre pretextos para que os italianos exercessem cada qual o seu estilo – são coisa de um ‘gênero’ que ficou para trás, cristalizado entre anos 70 e 80, e cuja última menção honrosa é o já distante Sleepless.

Giallo é um thriller policial cuja estrutura se molda a dos filmes de serial killer contemporâneos (e que de todo modo não deixaram de beber da fonte inaugurada por Mario Bava). A ação principal é a do detetive em busca da solução do caso, enquanto que os momentos de corte do ritmo são exatamente os do assassino no esconderijo torturando sua vítima (ao invés de sair à noite por vielas soturnas em busca de outras). A tensão então se daria simplesmente através do resgate da vítima, de o detetive chegar a tempo, etc… Mas é quando ameaça decepcionar, quando você pensa que mataram Argento, esconderam o corpo e puseram a câmera na mão do sobrinho do produtor, que Giallo se mostra narrativamente brilhante.

Desde o primeiro momento, Argento estabelece uma conexão entre o detetive e o assassino, fazendo-nos crer que se tratam da mesma pessoa assim que Adrien Broody surge com lentes de contato no retrovisor do táxi. Em seguida são as memórias do detetive que colocam em jogo todos aqueles elementos-base do universo argenteano pra construção de uma mente psicótica. Logo depois, Argento tira o “Yellow” das sombras, e o que temos é um Broody coberto de maquiagem. Não existem outros personagens dividindo a atenção, não existem suspeitos possíveis, não existem dúvidas. Mesmo com as ações transcorrendo em aparente simultaneidade, o espectador não desconfia, ele SABE a solução para o whodonit. E toma no cu bonito.

O “giallo” do título está subvertido. Subvertem-se as expectativas, subverte-se o estilo do seu autor, subvertem-se os elementos que o compõem. O whodonit está do avesso, a câmera está presa, aquela velha lâmina reluzindo no ar é agora substituída por seringas, martelos e alicates. Mas o giallo está subvertido pelo próprio cinema, não por Argento, e Giallo nada mais é que uma representação do contemporâneo em relação ao passado, não em tom nostálgico ou de réquiem, mas de passagem. De alguém que reconhece que o fôlego acabou, que o cinema e tampouco o público são o que costumavam ser.

Argento então faz dos flashbacks a sua fuga. É através das lembranças do detetive que ele acessa esse mundo perdido pelos amantes do velho giallo ao pintar a tela de laranja e trazer de volta a câmera ao status de personagem, movimentando-a como se boiasse à deriva na água. Se dispostos um ao lado do outro e linearmente, os flashbacks montam um giallo fechado, independente do resto do filme; com início, meio e fim próprios. Com apresentação de personagens, testemunho do crime e vingança, tudo concebido a facadas. Em Giallo, é apenas na memória que as coisas continuam belas. O tempo presente é apenas seco (compare os finais de Giallo e Profondo Rosso).

E o filme permite esse respiro. Te convida a fugir dessa opressão do convencional para viajar trinta anos no tempo e voltar pra um mundo que parece desconhecer o fato de simplesmente não existir mais. Desde Terror na Ópera.

Giallo é o filme mais lúcido de todo o cinema fantástico italiano.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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RIP!: A Remix Manifesto (Brett Gaylor, 2009)

O primeiro filme que assisti no Festival do Rio é na verdade um manifesto disfarçado de documentário onde há uma discussão acerca da questão dos direitos autorais, além de toda a polêmica em cima da questão dos downloads ilegais, remixes ilegais e tudo relacionado a isso.

Claro que foi oferecido uma visão quase que unilateral (exceto por uma entrevista rápida com uma das representantes do Conselho de Direitos Autorais dos EUA), e também há uma certa dose de sensacionalismo a lá Michael Moore, mas não há como negar que há momentos interessantes e divertidos, especialmente nos créditos finais.

Claro que concordo com muito do que foi apresentado, mas estamos avaliando o filme, e não somente as propostas apresentadas nele.

2/4

Adney Silva

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Ascensor Para o Cadafalso (Ascenseur Pour L’Echafaud – Louis Malle, 1958)

Ascensor Para o Cadafalso é um noir de acidentes. Não (apenas) na superfície dos fatos, mas na estrutura. Se partirmos da matriz americana, ele começa no terceiro ato; é quebrado, interrompido e invadido pelo espírito inconsequente da juventude francesa naquela mistura irresistível de infância e tragédia como que prelúdio do fim de um capítulo e do início de outro / introdução à nouvelle vague e epílogo do film noir.

O anti-herói típico comete um erro patético que o mantém preso no elevador da cena do crime quase o filme inteiro; a femme fatale vaga sem rumo pelos bares madrugada afora à procura de seu amante. Enquanto isso, os jovens roubam o filme para si e tecem uma subtrama que, pelos ‘imprevistos planejados’ por Malle, ascende ao status de ação dominante. O desenvolvimento do noir é lento, lamentado, obscuro (sempre revestido pela trilha de Miles Davis que parece conferir uma classe melancólica às coisas); enquanto que a aventura do jovem casal transcorre impulsiva e cheia, contaminada, atingida fatalmente pela paixão.

O último terço é uma trégua entre os gêneros. O dia amanhece, a resolução dos fatos entra em cena (na pele do invariavelmente marcante inspetor da polícia, nesse caso vivido pelo fodástico Lino Ventura) e os “sub-filmes” que antes seguiam paralelos, cruzando um a frente do outro, agora convergem para o que parece ser um acordo elegante proposto por Malle (e seguido/perseguido na mesma época por Jean-Pierre Melville), cujo final coloca na mesa uma regra entre cavalheiros: no cinema, os autores mudam, as eras passam, mas a verdade (enquanto instituição) seguirá propriedade irrevogável da imagem.

Encenação do nascimento do neo-noir.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Assassinatos do Expresso da Meia-Noite (L’Ultimo Treno Della Notte / Night Train Murders – Aldo Lado, 1975)

Assassinatos do Expresso da Meia-Noite, apesar de estar um pouco longe das obras-primas do terror setentista, é absolutamente único em sua proposta: na teoria, um longa. Na prática, 3 filmes em 1, com três partes de 30 minutos cada que, embora (óbvio) sigam uma ordem cronológica típica, são travestidos de tons absolutamente diferentes. O primeiro terço é um princípio de road movie/aventura, com umas inserções cômico-sexuais bem divertidas. A segunda meia hora desbanca pra um suspense que vai se convertendo lentamente ao horror puro e violentíssimo; e a 3ª é quase um western moderno.

O melhor é que o Aldo Lado (que é um velho muito do sem-vergonha) não tem qualquer intenção de conectar de forma orgânica estas três partes, nem tentativa de fazer a salada funcionar como um todo, muito pelo contrário. É como se mudassem os filmes mas permanecessem os personagens, pulando de gênero em gênero.

3/4

Luis Henrique Boaventura

Screenshots!

Hehe, esses italianos depravados, quem deixou eles saírem? Aqui uma virgem é estuprada por dois vagabundos tarados e uma ninfomaníaca. Com uma faca.

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A Órfã (Ophan – Jaume Collet-Serra, 2009)

Entrando no embalo do terror psicológico, assisti a essa pequena porcaria ontem e decidi escrever um pouco a respeito porque vi comentários bastante positivos e não consigo entender por quê.

As falhas começam logo de início. Vera Farmiga está péssima no papel, ela não transmite as emoções da personagem de forma a envolvê-lo com a personagem. Aí fica ela lá e você aqui.

O início que era para ser de fato impactante, surge como algo tão bobo e superficial que já anuncia as besteiras subsequentes.

E o filme não caminha bem em NENHUMA parte, é impressionante como o diretor parece querer fazer um filme absolutamente encaixadinho e inteligente e como o resultado é uma sequência forçada de fatos, personagens incrivelmente estúpidos (qualquer idiota veria que há algo “diferente” com a menina – se aquela mulher é formada em psiquiatria, eu sou doutor sem fazer o curso, porque as estratégias de manipulação dela chegam a ser imbecis) e uma sucessão de eventos tolos.

E, naturalmente que, pela falta de criatividade para uma estória realmente aterrorizante, são criados personagens que parecem estúpidos. Eles são o sustentáculo e precisam ser estúpidos para se situarem nas situações igualmente estúpidas.

Tudo é então encaixadinho e acontece uma série de coincidências que enfatizam e ampliam o poder da garota sobre a família. Mas é forçado DEMAIS. Sabe aquela plausibilidade que ocorre estranhamente NO MOMENTO CERTO? Tipo, em determinado momento a personagem de Vera Farmiga compra duas garrafas de vinho – é plausível para o pesadelo psicológico que ela está vivendo – mas absolutamente forçado ocorrer no exato instante que aquilo iria ser usado contra ela.

Há um problema gravíssimo com alguns filmes de manipulação. A intenção é deixar o espectador puto com a ação da pessoa manipuladora e suas conquistas enquanto todos parecem não enxergar o que é óbvio. É uma estratégia perigosíssima quando o filme é levado à sério demais pelos próprios personagens.

Primeiro porque se a manipulação não for muito inteligente ela pode soar estúpida e forçar os personagens a serem estúpidos para suportá-la, criando um ciclo, como o caso desse aqui. Segundo é o “levar a sério”. Você pode manipular o espectador a ficar morrendo de raiva de personagens estúpidos de forma consciente.

O melhor exemplo para mim é aquele filme maravilhoso do samba do crioulo doido indicado pelo Luis – com zumbis, criaturas fantásticas, inferno, portões dimensionais, paranormais, etc (me esqueci o nome) – onde o personagem principal tem um número limitado de balas, atira nos zumbis, percebe que eles só morrem instantaneamente quando atingidos na cabeça e CONTINUA insistentemente ATIRANDO EM OUTRAS PARTES DO CORPO deles e gastando as balas inutilmente. Fica explícito que essa peculiaridade do personagem, essa falta de raciocínio simples foi pré-fabricada com intenção explícita e funciona incrivelmente bem, você quase morre querendo entrar na tela, pegar a arma e matar os zumbis você mesmo.

Para concluir, um exemplo de filme onde a manipulação funciona muito bem nos moldes supracitados, com uma estória inteligente, personagens racionais e plausíveis, tornando tudo surpreendente é o magnífico “The Usual Suspects”.

0/4

Silvio Tavares

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