Rabid Dogs (Mario Bava, 1974)

Caso você se interesse pelo giallo (e espero que os filmes do gênero que comentamos aqui, aqui, aqui e aqui tenham contribuído para isso), e comece procurando a filmografia do Mario Bava, provavelmente não encontrará esse filme. Explica-se: na verdade existem não uma, muito menos duas, mas TRÊS versões desse filme. Isso porquê, em virtude de uma série de contratempos (ator principal adoecendo, cronogramas apertadíssimos, o finaciador do filme falecendo, briga entre a esposa de Bava e a produtora), Bava não consegui terminar o filme (faltando apenas alguns takes), além das partes filmadas serem arquivadas em virtude do processo judicial. Os rolos de filme só viram a luz do sol nos anos 90, quando a atriz principal do filme, Lea Lender, conseguiu os direitos sobre o filme. A partir daí, foi feita a primeira versão (que não chegou a ser disponibilizada para o público), com o filho do homem na montagem e na direção das cenas restantes (incluindo o take inicial, de uam mulher chorando), beseando-se no workprint do Bava pai. Na virada do século o filme foi adquirido por Alfred Leone, que foi produtor de Bava e está providenciando o relançamento da obra completa dele em DVD. Achando a obra inadequada para os dias de hoje, ele providenciou a segunda versão, com 20 minutos de novas cenas além de uma trilha sonora totalmente nova (esta com o nome já de Kidnapped, que você encontra na filmografia linkada no início do post). Por fim, na virada do século, veio a terceira versão, a “versão do diretor”, sendo quase uma cópia xerox da primeira, apenas com créditos diferentes (solarizados em verde e vermelho) e sem o take inicial.

Depois de resumida a história dessa “obra quase perdida”, vamos ao que interessa: o filme (mais precisamente a versão do diretor). Apesar de não ser um giallo, possui alguns elementos vindos dele (para destacar um principal, as luvas). E ele é muito bom, apesar de algumas ressalvas. Passados os dispensáveis primeiros 15 minutos (onde temos uma infinidade de clichês e maneirismos da época, tornando-se datadas, e quase nenhuma tensão provocada), temos um meio absolutamente fantástico e um final que, se não chega a ser um desastre, faz com que o filme perca um pouco o seu brilho. A grande qualidade dele é a sensação claustrofóbica que Bava consegue a partir do sequestro, com os personagens se espremendo num carro durante a maior parte do filme. Os assaltantes/sequestradores do filme são, no linguagar popular, uns “três filhos da puta como poucas vezes o cinema viu”, não perdendo nenhuma oportunidade de enervar e traumatizar as suas vítimas, fazendo um violento jogo de gato e rato psicológico. A câmera de Bava é realística, e confabula com esse clima claustrofóbico, causando uma experiência brutal para o telespectador.

O filme vai crescendo em suspense até ficarmos angustiados para saber que final terá aquele pesadelo, e na conclusão o que temos é uma supresa que, na minha opinião, apesar de parecer chocante a princípio, parte para uma saída unm tanto quanto amenizadora. Sim, porque, caso Bava tivesse parado o filme um minuto antes, teríamos uma explosão final de sentimentos muito mais impactante e, por que não dizer, redentora. Quase como o que é provocado em Sob o Domínio do Medo, quando o ator principal executa aquele ato. Me pareceu até uma saída um pouco mais cômoda, como se Bava quisesse justificar áquele ato, ou ainda uam tentativa de evocar o tão famigerado “trust no one“. Seja qual for a intenção do diretor, poderia ter resultados melhores.

Enfim, resumindo a minha primeira experiência com o cinema de Bava: Rabid Dogs tinha como matéria-prima um diamante bruto da mais alta qualidade, mas, ao lapidá-lo, surgiram algumas imperfeições na obra. Ainda assim, consegue ser interessantíssimo, tenso em quase a sua totalidade e alcançar um bom nível de qualidade, ainda que os deslizes ditos acima o impeçam de alcançar a nota máxima.

3/4

Adney SIlva

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2 Responses to Rabid Dogs (Mario Bava, 1974)

  1. Hal

    Eu curto pra caramba aquele comecinho com os cortes rápidos, a trilha bacaninha percorrendo aquele universo do assalto que ninguém sabe direito o que tá havendo e tudo mais. O miolo não me pega muito, justamente pelo clima claustrofóbico (fico torcendo o tempo inteiro pra turma sair do carro e chegar uma cena externa bacanona)… é curioso mas vai cansando a beleza, tanto que as tomadas mais memoráveis ficam sendo as que aconte ao ar livre, etc.
    O final também não gosto, mas a piadinha final-final é obra-prima.
    E os personagens, pqp.

    Liberdade que o Bava tinha, báh… é por aí.