Providence (Alain Resnais, 1977)

O andar compassado, evanescendo vagarosamente para dentro daquela velha propriedade como que para um organismo – porque tudo ali é extensão do corpo e da mente de Clive – , na primeira cena, é um prelúdio fúnebre de reverência. Atravessando o portão com a inscrição “Providence”, Resnais nos convida para entrar num santuário, e o respeito que ele demonstra, passeando contemplativo pelo bosque, mantendo a câmera de baixo para cima, distinguindo um discreto azul celeste entre as árvores, subindo lentamente as escadas e observando muros riscados pela vegetação como varizes de um sangue parado pelo tempo, é coisa de quem sabe e nos avisa que, a partir daí, estamos acessando de alguém o íntimo mais profundo já alcançado no cinema. Memória, imaginação, medos, angústias, mágoas, desejos reprimidos e só manifestados livremente através de sua arte. Somos turistas, visitantes de um Clive Langham totalmente descarnado pela câmera deste francês; um voyeur da alma.

Antes de mais nada é preciso deixar claro que, apesar de inicialmente não parecer, Providence é um filme muito, muito divertido, de um humor jocoso e cruel o bastante até mesmo para os padrões ingleses. Quando aquele percurso descrito acima, aquela trajetória de quase resignação do diretor perante o seu grande personagem, é bruscamente interrompida pelo próprio Clive Langham com um indignado “merda! merda! merda! MERDA!”, Resnais apenas posiciona a câmera dentro da mente do escritor, e ele é quem conduz seu filme, sua história (que começa e termina, aliás, no respaldo clássico de uma ficção: a transformação de alguém num lobisomem).

Toda a evolução do processo criativo de Langham é inspecionada em detalhes por Resnais (e mesmo que seja um escritor, a experiência pode ser estendida a qualquer forma de arte). Logo no início, numa conversa profissional consigo mesmo – e a narração inteira em off é um diálogo interior -, Langham se questiona sobre o que fazer com os personagens. E é maravilhoso, porque a criação autoral é toda um produto das experiências, dos conceitos e das emoções de seu criador. Daí que utilizando sua família como personagens de seu romance, Clive se vê constantemente submetendo-os a algo que secretamente deseja, porque é escrevendo que ele se liberta numa dolorosa noite de insônia, e todas as pequenas peças do seu trabalho são pinçadas e ampliadas por Resnais, como a difícil relação com a morte, incluindo aí seu médico que aparece como um pensamento intruso, e que Clive tenta descartar, mas que termina voltando de vez em quando numa cena crua e repulsiva, cuja identificação atingida com um espectador encarnado no próprio Clive pela visão incômoda é própria do apuro e da sensibilidade de Alain Resnais.

Idéias recorrentes e indesejáveis, aliás – grande merda de quem usa a criatividade como matéria-prima do seu trabalho – aparecem representadas de um jeito bem divertido pelo francês (o que é aquele jogador de futebol? Hahaha), que são os olhos do espectador dentro da imaginação desse velho doido. Porque é exatamente assim que alguém se sente vendo claramente quando Clive não está satisfeito, quando volta atrás e reescreve, ou outras em que adorou o que escreveu. Há inclusive um trecho em que ele se diverte com a sonoridade da palavra “fornicar” e ri sozinho, num nível inviolável de intimidade e introspecção nunca antes acessado.

É onde aparecem principalmente as confissões, onde se nota todo o peso e a dor de coisas feitas e não feitas entremeadas na garganta. A todo momento Clive está punindo seus filhos, punindo sua nora, sua mulher morta por ter lhe deixado muito cedo (e que ele ressuscita e faz amante do próprio filho), mas acima de tudo, está se punindo, se atacando sem a mais ínfima piedade. É triste e assustador quando ele coloca seu filho Claude (um Bogarde que ninguém explica) do outro lado da tela e chora do lado de cá enquanto é desmontado numa inquisição, ou quando o mesmo lhe redige uma carta cheia de ódio (que é a face encontrada pra um desprezo por si mesmo) convertido num remorso que aparece muito através da esposa Molly/Helen Wiener quando ela conta coisas das quais ele não se permitiria arrepender sozinho. Porque Clive é indefeso, é carente, e pede socorro à sua arte pra enfrentar um mundo do qual morre de medo.

Escritor: o onipotente deus do seu mundo. Imperativo no seu silêncio e absoluto na amplitude deste seu universo que tem o tamanho da imaginação. Longe dele, no entanto, as coisas perdem o controle. Talvez o simples fato de que o poder de matar alguém está a mais de uma frase de distância o apavora profundamente. O escritor é um eterno inconformado, arquiteto de uma realidade como ela devia ser. A meia hora final de Providence se passa na tarde do dia seguinte à noite de insônia e epifania de Clive Langham, e é uma tarde pálida e maçante, em que tudo ocorre como se tivesse sido planejado. Seus filhos, seus criados, sua nora e a própria tarde que ele respira têm o cheiro aversivo de uma antevéspera de funeral. Tudo parece minuciosamente armado, pintado, escrito como uma encenação de encontro e agrado ao pobre velho moribundo, e o dia termina com uma realidade muito mais artificial que o seu romance.

O melhor filme do Resnais e um dos dez maiores do cinema. A inventividade, o escárnio, a materialização irretocável do imaginário, o Dirk Bogarde inacreditável, a narrativa de descoberta do real através do irreal muito antes de Cidade dos Sonhos, e ao fim de tudo, o socorro à arte e sua consagração sobre o mormaço inodoro da realidade; Providence não é apenas uma homenagem à 7ª, mas a todas as outras.

4/4

Luis Henrique Boaventura

2 Comments

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2 Responses to Providence (Alain Resnais, 1977)

  1. Nçao tinha ouvido muito sobre este filme e seu diretor.. mas seu texto me deixou curioso.. vou acrescentar a minha lista hehe

    vlws

  2. Luis Henrique Boaventura

    Sérgio, sério, veja o mais rápido possível. Tanto Providence como os outros do Resnais. Muitos falam de um elitismo e uma pretensão exacerbada, mas Alain Resnais É efetivamente o que metade dos pretensos gênios apenas aspiram ser.