Operazione Paura (Mario Bava, 1966)

Bava apenas orquestra a mais poderosa opressão atmosférica da história do cinema. Não tem explicação. São 80 minutos do que há de mais puro, selvagem e sensorial; um cinema que se comunica pela cadência do coração e pela linguagem dos poros.

Logo que o sol se põe, o filme mergulha num deslumbrante pesadelo. Em Operazione Paura, há outro mundo por trás das coisas, um mundo irreal e alucinógeno que só se revela no escuro de uma meia-noite, e que só chegou perto de ser tão bem trabalhado quanto aqui em Depois de Horas, do Scorsese, e A Hora do Lobo, do Bergman. É esse ar feérico e macabro de dimensão paralela que é tão talentosamente usado como matéria-prima da atmosfera inacreditável construída por Mario Bava e que entorpece e confunde e dilacera os sentidos.

E cada plano é arquitetado pelo mestre como uma tela, porque via de regra o homem que começou como pintor posiciona a câmera em um canto obscuro do cenário e realiza a mágica da luz, do som e do movimento que seus ex-colegas nunca sonharam, dando vida (como Kubrick em Barry Lyndon, mas superior) a um universo que é claramente propriedade das tintas, das molduras e da imaginação, porque chega um dado momento em que você não distingue mais se o vento realmente sopra na cena ou se os seus ouvidos já interpretam como verdade o que é apenas sugerido pelo ambiente.

E as cores, apesar de menos carregadas que no trabalho sensacional feito em Seis Mulheres Para o Assassino, compõe-se de uma harmonia muito mais precisa e diabólica jogando o filme no ralo daquele redemoinho lisérgico operado nas escadarias, ou pelo labirinto entre as salas, ou por qualquer outra fenda que se abra para a fábula entre uma ou outra via da realidade, porque Operazione Paura é tudo isso, é completo a representação fantástica e saturada de um sonho/um surto/um estado orgásmico de loucura escrito no verso da madrugada sob a razão encantada de um feiticeiro e de sua câmera.

Um dos dez maiores do mundo inteiro.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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6 Responses to Operazione Paura (Mario Bava, 1966)

  1. Amigo, eu achei o trailer deste belíssimo filme de terror como “Kill, Bayb Kill” no Youtube.

    Realmente fantástico, seu artigo não deixa nada a desejar em relação a obra, é como você descreveu. Assustadoramente belo.

    O Pândego Endiabrado
    http://opandegoendiabrado.wordpress.com/

  2. Luis Henrique Boaventura

    Bah, achei ruinzão o trailer, hahaha. Composto basicamente do fiapo da trama, que é o que menos interessa no filme. E é interessante também como a dublagem americana altera umas coisas. Esses dias vi o Lisa e o Diabo alternando entre o inglês e o italiano, e pelo trailer do Operazione dá pra ver também que eles transformaram aquele risinho macabro da Melissa (que vinha acompanhado de uma caixinha de música) numa gargalhada histérica. Parece que tão matando a menina de cócegas, hahaha.

    Cara, massa o teu blog. Coloquei ali no blogroll, abraço!

  3. caraio! o texto me deixou com uma vontade enorme de ver o filme, como sempre.
    mas pqp! parece que o trailer e o texto não correspondem ao mesmo filme. o.o”

  4. Luis Henrique Boaventura

    Pode parecer meio arrogante e pretensioso e o caralho dizer a você que vá pelo meu texto e não pelo trailer…. mas faça isso. hahhahah

  5. Realmente,é um filme “alucionógeno”,uma viagem mais loca que essa só “Lisa and The Devil”,também do Bava.
    O texto ficou tresloucadamente a altura do filme,num “estado orgásmico de loucura”