Stalker (Andrei Tarkovsky, 1979)

“Quando o homem nasce, é fraco e flexível; quando morre é impassível e duro. Quando uma árvore nasce, é tenra e flexível; quando se torna seca e dura, ela morre. A dureza e a força são atributos da morte; a flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser. Por isso, quem endurece, nunca vencerá…”

Esta é talvez a maior desconstrução de um lugar comum para revelar o que pode ser uma verdade absoluta. É um diálogo que sai da boca de um dos protagonistas, o único “crente” que, diante de uma força que ele não compreende totalmente, embora acredite nela, leva-o a respeitar a autoridade, a imponência desta força, a famosa “Zona”, acompanhado de um escritor e um cientista, ambos incrédulos, mas admitidos de suas encucações existenciais, buscando o verdadeiro sentido de suas existências.

Tarkovski dirige como nunca vi ninguém dirigir um filme antes. Aqueles que acham que Kubrick é “lento demais” em seus filmes, irão vê-lo como um Michael Bay após assistir um Tarkovski. Stalker tem 163 minutos de duração onde ocorrem poucos acontecimentos, mas nesses poucos acontecimentos, Tarkovski desnuda a forma como o ser humano enxerga o mundo e seus mistérios, sejam eles físicos ou espirituais não deixando pedra sobre pedra. Para o diretor, só é possível o ser humano compreender a sua existência quando ele assume a sua impotência diante do mundo e de tudo o que ele significa e acredita que há algo mais do que os olhos podem ver. Neste sentido, Tarkovski é especialmente cruel com os “incrédulos”, aqueles que não conseguem compreender que há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia. Tarkovski trabalha com a infelicidade tanto de crentes como com a de descrentes. Mas é direto: mesmo num quadro geral de infelicidade e miséria, os descrentes são mais infelizes do que os crentes. Num mundo cada vez mais cético, Stalker poderia representar um “despertamento” não para o misticismo, não para o sobrenatural irracional, mas para a espiritualidade intrínseca a todo ser humano, que, se estimulada corretamente, o ensina a negar a si mesmo em prol do outro, contribuindo para uma harmonização do indivíduo não só para com o seu próximo, mas para com o mundo que o cerca, onde para Tarkovski (e para o cristianismo, a fé do diretor) está a verdadeira felicidade, o sentido da vida, mesmo em um mundo sépia, desolado, com uma sociedade desesperançosa e cética.

4/4

Daniel Costa

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3 Responses to Stalker (Andrei Tarkovsky, 1979)

  1. wilma

    Incrivel resenha
    ~Onde poderia encontrar a pelicula?

  2. Sandra Sampaio

    Amei o comentário acima sobre Stalker do Tarkovsky, porque ele traduziu muito do que eu senti e observei – e também acresentou alguns detalhes – qdo vi o filme pela segunda vez. É o meu preferido desse diretor. Eu o acho imperdível. E acabei de ler sobre a Russia(cultura, política, idiomas, localização e afins) e notei – e fiquei indignada – porque na parte relacionada a cinema
    não consta o nome TARKOVSKY, mencionam apenas ofilme SOLARIS dele, mas apenas o de Serguei Mikhailovitch Eisenstein.
    Muito interessante.
    Sansam

  3. ótima resenha. acabei de assistir o filme. pra quem gostaria de baixar, aqui tem um ótimo site: http://cinemacultura.blogspot.com/2008/11/stalker-1979.html