Por Virgilio Souza

Uma das mais tradicionais mostras de cinema brasileiro, o Festival de Brasília, segue apresentando até esta terça-feira (22) curtas e longas que compõem um importante recorte da produção cinematográfica do país.

Leia também as partes I, II e III da cobertura.

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Quintal (2015), de André Novais Oliveira

O expediente é simples: André Novais adiciona o fantástico ao costumeiro realismo. Não se trata de um processo de ruptura, mas de uma experiência nova que se desdobra sobre as bases já muito sólidas de seu trabalho na Filmes de Plástico. Mais uma vez, estão em cena seus pais, Maria José e Norberto, em cenários caseiros e sobre temáticas que refletem uma realidade outrora esquecida pelo cinema brasileiro. A atenção aos diálogos segue inspirada, com a lente da câmera trazendo para a tela interpretações confortáveis, que desta vez mais do que celebram a beleza da banalidade do cotidiano da periferia, a cercam de elementos singulares capazes de realçá-la. O portal interdimensional a que o homem tem acesso é encarado com uma forma diferente de estranheza (que ele trata naturalmente como “um barulho lá fora”), assim como a mulher parece não reagir, focando-se em seus assuntos particulares (marido fora de casa, ela não se importa e segue para a academia de ginástica, flertando com a possibilidade de um empreendimento pessoal). A um só tempo, é símbolo de escapismo e adequação, como revela o retorno dele à noite, rotineiramente abrindo a porta pela janela para, no plano seguinte, conquistar o impensável. A surpresa e o encantamento se estabelecem pelo ordinário.

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Afonso é uma Brazza (2015), de Naji Sidki e James Gama

Dono de estrutura curiosa, entre o making-of de um longa e o documental de cabeças falantes, o curta mapeia algumas das ideias centrais de cinema de seu objeto, o cineasta-título. Quando se debruça sobre a rodagem de Tortura Selvagem – A Grade, finalizado no início dos anos 2000, o documentário captura um método de trabalho especial, não voltado para ensaios repetitivos e muito preocupado com a ação, em si. Sidki e Gama compreendem que tudo se organiza em torno dela e apresentam os elementos atrás das câmeras (a ideia de organização espacial, a receita de sangue falso, as orientações dadas a equipe e elenco) para, em seguida, reproduzirem sequências do filme original. Por outro lado, nos momentos em que o diretor é entrevistado, emergem percepções breves, mas cheias de sentimento, sobre sua personalidade. A paixão por Claudete Joubert, o encontro com a turma da Boca do Lixo e a relação com a película são os destaques. Sobram, aqui e ali, algumas questões pouco exploradas, cujos pontos de partida são oferecidos e logo abandonados, mas a junção decisiva entre riso e emoção, própria desse vínculo indissociável entre profissional e pessoal, levam o filme adiante como Brazza faria.

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Big Jato (2015), de Cláudio Assis

Em meio às vaias ao diretor, que antecederam a exibição do filme, uma senhora ao meu lado parecia contrariada: “tem que separar a obra do artista”. Sua afirmação me parece adequada em princípio, mas equivocada quando trata de um cineasta que mergulha seu trabalho em discurso retrógrado disfarçado de poesia nua e crua, esse exibicionismo visceral e transgressor que no fim das contas é apenas conservadorismo estilizado. É verdade que o texto, baseado em livro de Xico Sá, não subscreve as posturas de seus principais personagens, cuja composição encontra méritos na performance de Matheus Nachtergaele, capaz de criar nuances em figuras um tanto rasas, mais prosa que conteúdo. Acontece, porém, que o escritor troca a habitual filoginia, assinatura de suas colunas de jornais, por um machismo puro e simples, que só faz rir de mulheres, homossexuais e prostitutas. Continua muito fácil fazer piada com o oprimido, sobretudo quando a investida é menos obtusa e gráfica e mais lúdica e infantil. Ainda, as demais ferramentas a serviço da reflexão central — do menino que quer ser poeta, mas é preso pelo pai e pelo mundo em um serviço mundano de limpar fossas — não vão muito além do pedestre. Big Jato concentra sua atenção nos pequenos rompantes poéticos de suas criaturas, mas não se mostra capaz de orientar a ação, direcionar a trama para um clímax ou simplesmente não direcioná-la, o que gera problemas graves de ritmo, principalmente nas longas cenas na boleia do caminhão que percorre estradas de terra batida. Os segmentos de maior meditação sobre os sonhos do garoto viram apenas prévias para uma reflexão que nunca ocorre plenamente. O olhar do filme sobre a poesia, de alguma maneira, é tão quadrado quanto todo o resto.