Por Virgilio Souza

Uma das mais tradicionais mostras de cinema brasileiro, o Festival de Brasília, teve início no último dia 15 apresentando curtas e longas que representam um importante recorte da produção cinematográfica do país. Acompanhe nossa cobertura, que inicia com breves comentários sobre três dos filmes da programação e seguirá nos próximos dias.

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Command Action (2015), de João Paulo Miranda Maria

É interessante como o curta sustenta seu microuniverso, uma feira no interior de São Paulo, em dois aspectos básicos: close-ups e um poderoso trabalho sonoro. Os planos fechados, somados a vozes, canções e ruídos de toda sorte, revelam detalhes tão particulares daquele contexto quanto as figuras em cena — os próprios feirantes, transeuntes, a gangue mirim etc. O garoto que centraliza a ação se insere nisso tudo, a princípio, pelo silêncio. Ele precisa fazer compras para a mãe e se distrai pelas coisas ao redor, mas fala pouco, usa duas ou três expressões e mantém a mão junto ao dinheiro contado no bolso. Por sua vez, o robô de brinquedo que o atrai e altera essa dinâmica, provocando uma mudança de rumo, chama a atenção justamente por não pertencer àquele espaço. É o objeto dos chinglings, tem som e aparência muito distintas. Os arredores importam para que a relação entre duas figuras alheias se estabeleça, e o filme reproduz essa ideia em sua estrutura: começa também absorto, coletando elementos do cenário aqui e ali, para somente aí se render à interação.

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À Parte do Inferno (2015), de Raul Arthuso

O filme coloca dispositivos tradicionais do horror a serviço de uma narrativa tipicamente brasileira, que vê o interno e o externo em lados opostos, separados por uma barreira física bastante artificial. A mancha que aparece na parede do quarto do garoto é ponto de partida para um confronto inevitável entre os moradores de rua e essa família de classe média de São Paulo. Eles, alienígenas, querem ter acesso àquele portal que flerta com Poltergeist; a dona da casa, por sua vez, busca o isolamento sem perceber que a invasão já ocorreu por meio dos sons que atrapalham seu sono e das imagens da câmera de vigilância que a hipnotizam. Os elementos de fora que são aceitos (o rapaz com quem ela transa, o vizinho que vai até sua casa pedir ajuda) vivem a mesma realidade. Um plano, em especial, remete à sequência do pesadelo de O Som ao Redor, também mergulhada nesse imaginário classista de opressão e distanciamento. À sua maneira, Arthuso vai além e encerra seu curta aproximando a câmera do monitor de segurança, símbolo infernal de toda essa alienação, até que qualquer distinção se torne impossível.

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           A Família Dionti (2015), de Alan Minas

O que resta desta fábula no imediato pós-sessão não vai muito além de um punhado de imagens que traduzem suas principais ideias. A premissa — um garotinho que aos poucos vira chuva quando se apaixona e seu irmão mais velho, que seca e chora areia após a partida da mãe — possui fundamento poético suficiente, mas o filme parece se dedicar mais a construir um sem-número de (outras) metáforas do que a aprofundar suas bases. Ao longo de 97 minutos, Minas trabalha contrastes óbvios (terra x água, sol x chuva, duradouro x passageiro) sem incorporar a poesia ao texto. Ditas em voz alta, as associações infantis não oferecem suporte à trama e acabam servindo como âncora, levando abaixo a questão central. São os casos, principalmente, das ligações feitas em sala de aula, que relacionam equações matemáticas a conflitos pessoais (“primeiro você resolve o que está dentro para depois resolver o que está fora”) e uma aula de ciências às paixões da puberdade (a metamorfose da borboleta é utilizada como paralelo ao amadurecimento do personagem principal). A proposta é muito doce e inofensiva, é verdade, mas não serve de escudo para certa fragilidade narrativa. Quando resolve investir no visual, porém, o filme se acerta, construindo símbolos definitivamente mais frutíferos, como o plano da garota tomando banho com o menino-nuvem.