Por Virgilio Souza

Uma das mais tradicionais mostras de cinema brasileiro, o Festival de Brasília, segue apresentando até esta terça-feira (22) curtas e longas que compõem um importante recorte da produção cinematográfica do país.

Leia também a primeira e a segunda parte da nossa cobertura.

 

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Cidade Nova (2015), de Diego Hoefel

A curtíssima duração, o caminhar apressado das coisas e o desfecho vazio parecem sinais da incompletude do filme, que mais lembra um teaser do que um produto concluído. A premissa é interessante, construída pelo diálogo inaugural em um longo plano, o único que parece manifestar mais ideias do que sensações. Contudo, estabelecida a questão central — o fato de a cidade natal do rapaz não existir mais, que o deixa sem lugar no mundo — há pouco o que extrair. Entre goles de cachaça, abordagens sexuais forçadas e banhos solitários, o protagonista cumpre sua jornada de desilusão e deslocamento em momentos nada autênticos, estilizados e insípidos em medidas semelhantes.

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Copyleft (2015), de Rodrigo Carneiro

O que se destaca como momento mais marcante do sábado no festival é o belo discurso a favor da diversidade proferido pelo diretor do curta antes da sessão. O problema é que sua manifestação, aplaudida de pé e digna de elogios posteriores, permanece apenas no extra-filme. Há alguns sinais positivos nos instantes iniciais de projeção, os quais transportam o protagonista da beleza da autodescoberta à frustração pela intolerância no Centro de Belo Horizonte, palco de seguidos crimes de homofobia e transfobia. O que se segue, porém, é a sensação de que Carneiro utiliza o cinema como mero receptáculo de ideias, não como meio e ferramenta que se retroalimenta delas, ou seja, como espaço capaz de engrandecer tais valores, não apenas reproduzi-los. Copyleft é profundamente discursivo, mas seu texto se perde em meio a uma narrativa errática e pouco esclarecedora, que reúne uma variedade de questões sem qualquer senso de organização estética ou ordenamento na montagem. Ainda, faz pouco sentido que o filme busque essa desordem a todo momento, mas se mantenha preso a uma trama mais convencional, que acaba sufocada pelo desarranjo geral.


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Para Minha Amada Morta (2015), de Aly Muritiba

O longa é eficiente ao construir suspense ao redor de seus dois personagens principais, Fernando e Salvador, o marido e o amante da moça morta do título. O primeiro, pela relação com o filho e a falecida esposa, marcada por hábitos nada saudáveis, mas que demonstram haver alguma sensibilidade por detrás do silêncio. O segundo, porque ele se torna o foco de atenção de todo o filme, alterando mesmo a percepção sobre o homem traído e fazendo pairar no ar a expectativa sobre como/quando um deles vai agir e qual será a medida da reação. A trama se desdobra como um misto de Villeneuve e Fincher: de um lado, com uma composição muito zelosa dos planos, que capturam vestígios e olhares à distância, e de outro, com uma câmera que se move sem deixar rastros, transbordando impessoalidade como se fosse mero registro de imagem. O filme segue pistas (os vídeos antigos, a convivência na igreja, as conversas atravessadas sobre o passado) que conduzem à ocupação de novos espaços (a casa dos fundos, o carro, a casa da frente). Ocorre, porém, que os recursos dramáticos escolhidos embrutecem a narrativa, engessam as coisas pela tentativa de imprimir tensão em cada cena. São os casos das insinuações de Fernando para a mulher e a filha de Salvador e do par de sequências em que os dois se confrontam de maneira mais direta. Muritiba constrói ameaças que se intensificam, ganham corpo na forma de objetos (a pá, o martelo, a faca), mas nunca explodem. É uma pena, pois seus melhores momentos surgem nas pequenas catarses, quando o olhar do diretor se volta para as reações horrorizadas dos personagens à morte (simbólica ou literal) da esposa: a de um deles, assistindo ao tal vídeo; a do outro, recebendo um envelope.