A pulsão lúdica do matinê spielberiano combinada ao paradigma mistério-espetáculo de J. J. Abrams faz de Super 8 um filme com duas esferas referenciais bem distintas: a primeira e mais clara aos hoje romantizados anos 80, a segunda a esta ainda muito presente década de Lost (mas que já não é o presente, que se frise). Imanente nessa liga vêm a alma do filme B americano, paixão de que Abrams e Spielberg partilham, e a própria fascinação pelo misterioso cosmos da infância, que, não importando sob que perspectiva (anos 50, 80 ou 00), parece sempre inflamado pelo mesmo ritmo do pedalar de bicicletas, estranho signo absoluto. É deste elemento angular, essa centelha, que Abrams corre atrás em Super 8.

É muito da matéria inespecífica dos 12 anos que Super 8 se compõe. Abrams não poderia jamais se apoiar em um único ponto de referência como se apenas este pudesse representar a febre própria da idade, do agir inconsequente e do encantamento diante do desconhecido. Tais componentes não são privilégio de uma época/um ciclo exclusivo. Super 8 não é um mero filme-monumento a um tempo passado, uma daquelas obras estéreis que buscam tolamente reanimar o que já está morto. Há sim o componente referencial à aventura oitentista, a Steven Spielberg, ao clima de escapismo barato de uma tarde de sábado, mas não é este o ponto dominante. Super 8 não é um subproduto, mimese vazia que não sobrevive se não inflada pelo sopro da obra à que faz referência. Abrams inscreve em Super 8 (sem soar autoindulgente, o que também é digno de nota) sua própria versão do que um matinê deveria ser, lúcido de seu lugar na cultura pop e de que dificilmente, assim como após Spielberg há 30 anos (guardadas algumas proporções), um filme de verão americano será o mesmo depois tanto dessa nova sede que foi presenteada ao público (da charada, do enlevo coletivo em torno de algo) quanto da manutenção de uma velha sede: a de ser fascinado por alguma coisa, a de desconhecer e saborear dessa ignorância numa época como esta, em um contexto e em um mundo sem surpresas como este.

Se Spielberg devolveu ao cinema comercial um ímpeto que Hollywood perdera junto de Howard Hawks, J. J. Abrams devolveu ao olhar do espectador uma abertura e uma reencontrada sensibilidade ao porvir do tempo narrativo, algo inato e que a incansável repetição da máquina americana vem há tempos dizimando. O fascínio diante do que não se conhece (mas que se tenta e se imagina descobrir), mola não por acaso das mais ingênuas trucagens circenses — de performances de mágica a shows de transformação com espelhos —, é o aspecto mais remoto e provecto do cinema; não bem este cinema de agora, mas aquele da novidade, do inacreditável, aquele que fazia as pessoas fugirem de um trem na tela porque parecia vir em sua direção (entre outras lendas do tipo). Não por acaso, foi Spielberg quem fez um filme inteiro a respeito, falando, em Contatos Imediatos de Terceiro Grau, da irrecuperável capacidade de feitiço e cativação que uma imagem (ou que a sugestão de uma imagem) poderia conter. Como o monstro de Abrams (nada mais que uma recuperação do velho monstro), os ETs e dinossauros de Spielberg são mero veículo da fascinação, o objeto (e objetivo) mais rudimentar do cinema.

Sendo a perda de sensibilidade algo próprio da maturação (tanto da arte quanto do público), parece natural que se trace um caminho de volta. Spielberg “volta” a fontes perdidas do cinema durante toda a sua carreira (inclusive nos mais recentes, como Guerra dos Mundos e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal). Abrams não faz nada diferente. Em Lost, em Star Trek, em Cloverfield (dirigido por Matt Reeves), há sempre o ponto de contato com o que, em outros tempos, encantou o público. Super 8 é um cinema de resgate desse encantamento, daí o segredo tão bem guardado em torno da produção do filme não ter qualquer razão aparente senão a de evocar este componente inapartável da linguagem de J. J. Abrams: o mistério renovado, o que faz do seu cinema (ainda primitivo, arriscado de se definir) um estranho composto de juventude com arcaísmo.

É bonito que Abrams conceba esse encantamento do público com o que um dia encantou a ele próprio, buscando enquanto cineasta o que lhe fora dado enquanto simples espectador: a excitação por uma aventura, a ilusão do perigo (a cena do trem, em especial, é um desenho desse efeito: a ficção invadida pelo risco da realidade, pela sensação de consequência), e acima de tudo, a curiosidade, a vontade de descobrir, velhos ímpetos de criança e que apenas o cinema é capaz de devolver. Joe Dante é um cineasta símbolo dessa ânsia pelo retorno não apenas a tempos mais simples do cinema, mas do próprio olhar do espectador. Em Meus Vizinhos São um Terror há a encenação definitiva dessa lógica da descoberta, do suspense, do desejo inextinguível do “saber” apenas, como se nada mais importasse no mundo além do que há para ser investigado. É esse prurido que nunca se acalma por saber o que vai acontecer em seguida, saber o que há detrás daquela porta, atrás daqueles muros, do outro lado daquela cerca, que J. J. Abrams restituiu a seu devido lugar.

Essa é a tônica de Super 8, não a nostalgia — Abrams apenas aparenta referenciar um ciclo específico de tempo. Seu ímpeto verdadeiro não é pelos 12 anos-em-1979, mas pelos 12 anos, entidade independente de tempo e de espaço. Mais que isso, são os 12 anos no cinema, idade que todo cineasta carrega (ou deveria) em um nível mais íntimo de sua mise-en-scène, propulsora de uma capacidade rara para encantar-se com o próprio narrar (Spielberg), para deslumbrar-se com a própria história; daí a óbvia energia mimética que se institui entre Abrams e Charles, o garoto que dirige “The Case” (filme que os moleques produzem dentro de Super 8), como se fosse a câmera este olho mágico que desvela (ou confere?) o fabular em cada amorfo pedaço de realidade.

Super 8 parte do matinê oitentista como ponto de ligação somente, e desenha na tela uma espécie de progressão (ou mesmo transição) daquela aventura leve e minimalista de outrora até o espetacular recente, passando aí pela instância do enigma e por essa poeira universal do olhar infante como substância de cada cena. Se Super 8 começa inclinado ao mínimo, ao grão das relações, seu universo se expande gradativamente até que o corre-corre de garotos rua acima e rua abaixo ganha ares de filme-catástrofe, e o monstro, ser impresente que antes servia de guardião desse fascínio e sintetizador de um suspense leve que sobressaltava em Super 8 o que havia no mais trivial dos gestos, agora revela-se para a câmera: passa do monstro de E.T. e de Os Goonies, aquele inofensivo e que só se teme porque é natural temer o desconhecido, para o monstro de Cloverfield, arauto da desordem e da extinção humana. O círculo de ação sofre uma expansão violenta, centrífuga, evoluindo do interior daquela roda de garotos para a dimensão de toda uma cidade que gira em pleno colapso. A leveza do oitentismo de Spielberg se oblitera e a atmosfera densa dos filmes-catástrofe de todo arrouba Super 8 como se o próprio Abrams tomasse o filme para si. Rompe-se o equilíbrio entre a ação delicada e a comédia, velha dinâmica regente dos círculos intimistas de amizade das aventuras dos anos 80, e pela primeira vez se sente a ameaça da consequência que se levanta sobre os personagens.

Mas o final não pressupõe uma seta ascendente, aguda e contínua. Abrams não pretende um olhar panorâmico sobre o processo, pelo contrário: inclui a si mesmo em suas curvas e ciladas. O final é um fechar circunscrito (um começo também, portanto), quando o eco spielberiano é restaurado e o monstro se humaniza: há o espelhamento com o protagonista, o remontar a Frankenstein e King Kong, a despedida e o regresso: enlace eterno do cinema da old Hollywood e do blockbuster 70/80 com o de hoje e o de amanhã. É assim no filme americano, grande demais para conter-se em sua própria época, prevendo sempre essa vibrante compulsão de retorno. De Spielberg a Hawks e a John Ford, então de Abrams a Spielberg, e enfim de Super 8 a E.T.: estamos sempre voltando para casa.