No modelo de sociedade em que vivemos, seja no país que for, talvez não exista item de sobrevivência mais importante que o dinheiro. É, afinal, o motivo pelo qual as pessoas acordam diariamente às cinco horas da manhã, pegam três linhas de metrô, dois ônibus e uma carona na caçamba de um caminhão para trabalhar. Compra a água, o alimento, e até mesmo a dignidade. No cinema, muitos autores já abordaram este símbolo de nosso sistema econômico-social, em certos casos de forma até mesmo vilanesca, forçando o homem à ganância (O Tesouro de Sierra Madre) ou ao vício (Wall Street) ou à violência bruta em seu estado mais puro (Onde os Fracos Não Têm Vez — mas qualquer filme de gângster/máfia caberia perfeitamente aqui).

Todos os esforços retratados em Lola, do cineasta filipino Brillante Mendoza, giram em torno dessa coisinha que chamamos de dinheiro. No primeiro plano do filme, vemos as mãos de uma senhora retirarem alguns trocados da bolsa para pagarem por uma vela para rezar (a religião, vejam só, é um fenômeno como giro capital). Compreendemos, alguns minutos depois, enquanto ela discute preços de caixões em uma funerária (e sim, precisamos do dinheiro para morrer também), o real motivo da vela e dessa discussão. Ao contrário do que pode-se pensar, não é para ela que a família escolhe um caixão, mas para seu recém-falecido neto, morto num assalto. Assassinado por um jovem que, bem, só queria um celular para trocar por algumas cédulas.

Mendoza acompanha, em Lola, os passos incansáveis de duas senhoras unidas por uma tragédia banal, típica deste mundo habitado por reféns do capital. Durante Lola (termo que significa avó), vemos duas senhoras percorrerem as mazelas sociais da capital das Filipinas, no bairro paupérrimo em que vivem, em meio à sujeira e à água que inundam suas casas, para juntarem trocados para lutar pela dignidade de suas famílias e das pessoas que amam — uma delas desejando dar ao seu falecido neto um fim digno; a outra, procurando livrar seu pequeno errante das grades da degradante prisão em que foi colocado, ou ao menos confortá-lo em suas visitas para levar comida e um abraço de avó. Não poderia ser uma história mais banal, mais cotidiana; praticamente os bastidores daquilo que vemos diariamente nos telejornais.

Na discussão que propõe para tratar destas duas idosas e da sua luta de amor às famílias que originaram, Mendoza, assim como em outros de seus filmes (como o soturno pesadelo de Kinatay), investiga a dura realidade da capital filipina, Manila, rechaçada pela violência urbana, pela miséria, pela luta diária por sobrevivência e para driblar problemas que, embora seja retratos específicos daquela cidade, são bastante banais, e portanto dialogam em perfeita sintonia com o mundo. Ex-diretor de arte, o cineasta faz de seu cenário praticamente um terceiro protagonista, ocupando boa parte do quadro com as residências decadentes e as ruas caóticas de lá. Segue suas personagens com sua já conhecida  (e por vezes irritante) estética semi-documental de câmera-na-mão, muitas vezes excessivamente suja e desenquadrada — mas que se torna funcional devido às escolhas feitas, e rende alguns planos bem interessantes, especialmente nas cenas noturnas e na do funeral.

E se existe uma diferença determinante no cinema de Mendoza, em relação a outros diretores que se colocam com essa postura de porta-vozes da realidade e de cineastas de choque, é justamente na maneira como observa esta realidade nas entrelinhas, nos cenários e nos pequenos gestos de seus atores, e não exatamente no plano central (ação de trama, diálogos, etc). Os filmes não se tornam um conglomerado de ideias e de discursos pretensamente complexos sobre o comportamento humano (embora alguns planos possam derrapar em ideias toscas). A câmera se porta como um olho oculto, que é claro, observa o que o diretor quer, mas nos convida a veladamente observar junto, através de um ponto de vista que pode ser confundido como desleixo, como falta de foco, mas que me parece um diferencial de um cineasta que tem sim algo a dizer sobre o mundo, mas sem precisar gritar. E isso, nesses nossos tempos, já é algo.