Mãe das Lágrimas (Dario Argento, 2007)

La Terza Madre é uma brincadeira que não deu certo. Desde a quase ausência da clássica extrema sofisticação visual e de criação de atmosfera daquele Argento de Profondo Rosso e Suspiria, quanto do deboche, do modo insano na condução de Tenebre e do próprio Prelúdio como proclamação fanática e religiosa do som e da imagem acima de tudo; La Terza Madre aparece movediço, desmembrado dos dois grandes pilares do estilo argenteano, seja pela inexplicável falta de imaginação no uso da câmera e da trilha que numa comparação direta é pulverizada pelas do Goblin (ou até do gênio Morriconi em O Pássaro das Plumas de Cristal, apesar da simbiose irrepetível entre Goblin e Argento continuar como catalisadora absoluta de sensações, cuja força semelhante apenas o próprio Morriconi encontrou ao lado de Sergio Leone), ou pela esquizofrenia do habitual quase anti-roteiro ter sido tristemente ineficiente, o que pode parecer um paradoxo, já que a ‘ineficiência’ (pensando em termos de ‘trama’, ‘história’) é precisamente sua característica mais marcante.

O que pega é que o grande caos comumente reproduzido por Dario Argento (devem até usar o cara em exemplos de “como não fazer…” em certos cursos de cinema…) e que sempre deu tão certo, aqui não funcionou. Porque era pra ter sido uma obra-prima. Todo o gore e o explicitismo celebrados no terceiro terço de Tenebre pulsam eletrizantes pelos 90 minutos de La Terza Madre, mas sem suporte, sem o toque e a inventividade que separariam o sangue, que percorre borbulhando toda a filmografia de Dario Argento, em duas distinções: cinema, e curiosidade.

O ataque de riso no final embasa a sábia decisão do italiano de não se levar a sério (até pelo tema imbecil, que se por um lado rendeu o excelente Suspiria, por outro, não dá pra esquecer que este não se utiliza dos elementos quase cômicos da dita mitologia das três bruxas ao longo de quase toda a trama – que na verdade não existe -, e que perde a força exatamente no didatismo e na inclinação trash dos últimos 10 minutos. Nada contra a inclinação trash, que poderia ter sido utilizada maravilhosamente).

Enfim, com o perdão dos parênteses gigantes e dos parágrafos sem pontos, La Terza Madre não funciona como aquele torvelinho de tensão sufocante, tampouco como brincadeira com o cinema promovida na última potência em Tenebre (e tinha como, o novelo de plots e situações pressupunha mil possibilidades). Enfim, pena, bem abaixo dos outros dois capítulos da trilogia.

1/4

Luis Henrique Boaventura

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