O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha, 1969)

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro

Meu primeiro Glauber. E, pelo jeito sera apenas o primeiro de muitos.

Durante todo o filme percebemos uma clara influência do western, seja nos cenários (onde o árido sertão nordestino é utilizado tal qual o Momument Valley por John Ford), ou ainda na temática abordada (onde temos inúmeros personagens perdidos no tempo, incapazes de se adaptar ou deter o avanço do tempo, afetados física e, principalmente, psicológicamente por ele). entretanto, Glauber aproveita essas influências e as pincela com uma linguagem estética e política muito contundente. Todos os personagens se sentem, de alguma forma, deslocados, com as mãos atadas, presos a um passado ou ainda a passagem inevitável do tempo. E, quando, num arroubo súbito de desespero, tentam se livrar das suas amarras, isso acontece de forma destruidora, registrado por uma câmera igualmente avassaladora.

Além disso, destaca-se o papel da música na história, guiando o telespectador e o introduzindo nesse mundo de pistoleiros, cangaçeiros; retirantes; esposas adúlteras; latifundiários inválidos estacionados no tempo; delegados subordinados; incapazes de exercer a sua função idôneamente; professores insatisfeitos que se rebelam contra os opressores, e outros persoangens menores, mas não menos importantes. A força narrativa da trilha sonora, impulsionada pelas modas de viola típicas do sertão, é de uma força estupenda, cortando a tela e chegando com o impacto de um terremoto ao telespectador, como um verdadeiro soco na cara.

“O Dragão da Maldade…” pode não ser a obra mais conhecida de Glauber, ou ainda incomodar em alguns momentos devido a alguns dos arroubos criativos do seu diretor, mas não se pode negar a força destruidora de sua narrativa, e que, passados quase 40 anos, muitos podem (assim como eu), graças a um trabalho primoroso de restauração (uma vez que os originais foram destruídos em um incêndio em um laboratório em Paris na década de 70) , conhecer finalmente esse capítulo do cinema nacional.

3/4

Adney Silva

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