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Tudo que está em tela em Uma Garota Dividida em Dois parece um jogo de Claude Chabrol. Ao mesmo tempo que existe o paradoxo, existe a obviedade. Gabrielle das Neves (Ludivine Sagnier, a mulher mais hipnótica do cinema, atualmente) se apaixona, de um segundo para o outro, por um sedutor escritor mais velho e com ele começa uma relação de amor e ódio, submissão e veneração. Simultaneamente, Gabrielle vira objeto de desejo – também de supetão – de um playboy milionário que, por ironia do destino, odeia o tal escritor com toda a potência de sua existência. As relações são relativizadas e pontecializadas ao mesmo tempo, nos levando a questionar as relações sentimentais ao mesmo tempo que ele parece reafirmar a veracidade daqueles sentimentos, para depois voltar a colocá-los na berlinda e desprezá-los. Desse modo, o que é encenado é absolutamente importante para a narrativa e se prova verdade no campo da imagem, mas incerteza, no aspecto existencial dos personagens. Chabrol filma subvertendo expectativas, mesmo quando lança mão de coisas muito claras. Quando esperamos que ele faça um longo plano, revelando a dor de Gabrielle passeando de moto, vem um corte brusco e inesperado; quando imaginamos que ele humanizará o playboy Paul (Benôit Magimel, extraordinário, como em A Professora de Piano), nos deparamos com a direção mais objetiva possível, já que o está em tela é justamente o que Paul é, sem sutilezas ou metáforas.
E mesmo quando se vale de metáforas, Chabrol é pesado, lança mão descaradamente de circunstâncias evidentes, que leva o público até mesmo a questionar a própria esperteza ao acompanhar o romance, que vira suspense, que vira drama; no filme de Chabrol, ele é mais esperto que a gente, muito mais por não querer esconder nada. Algumas coisas não são importantes para a tela e é isso que ele parece assinar o tempo todo, ainda mais no truque da ilusão. No cinema, o mais importante pode ser o que se vê, não o que se quer entender.
4/4
Thiago Macêdo Correia