Brandon Lee (Especial James Dean)

1965 – 1993

Muito de todo o sucesso e importância que o cinema proporciona se deve aos seus atores. Alçados como ídolos na mesma proporção que caem no ostracismo, pode-se dizer que eles são um dos alicerces da sétima arte. Nesses mais de 100 anos, muitos deles morreram sem que pudessem demonstrar ao seu público o quão maravilhosos poderiam ser.

Entretanto, dois atores, pai e filho, tiveram as suas vidas traçadas por linhas tão semelhantes que só mesmo a força do destino poderia explicar. Brandon Bruce Lee nasceu no dia 01 de fevereiro de 1965 em Oakland, California. Filho do grande ator e lutador de artes marciais Bruce Lee, começou a aprender os primeiros passos dessa luta desde cedo com seu pai que o ensinava, com apenas dois anos de idade, a dar pequenos chutes. Aos 6 anos, já participava de competições e era capaz de quebrar pesadas placas de madeira com os pequeninos pezinhos. Mas o destino quis que ele se separasse de seu adorado pai aos 9 anos de idade. Por conta disso, Brandon teve uma infância um pouco complicada, pois, além de todo o trauma, ainda teve que ouvir os rumores de que seu pai teria morrido por overdose. Arrumava briga na escola por causa disso, sendo expulso de dois colégios quando pequeno e uma terceira vez na adolescência.

Por influência também de seu pai, desde criança Brandon demonstrava grande vontade de se tornar um grande ator. Levou adiante seu desejo e ingressou na Faculdade de Emerson, em Boston, Massachusetts, juntando-se à companhia de teatro, conciliando-a com os seus treinos no Kung Fu. Mesmo com o peso do legado do seu sobrenome às suas costas, resultando em críticas por não ser como seu pai, Brandon lutou para ter sua própria imagem, totalmente desvinculada do sobrenome Lee, e criar um estilo proprio. Nas palavras dele: “Não quero e nem posso ser como meu pai. Admiro muito seu trabalho, mas eu e ele somos pessoas completamente diferentes”. Contudo, o jovem Lee (que gostaria de interpretar Hamlet) acabou tendo a sua carreira de ator iniciada em filmes de artes marciais.

Em 1985, conseguiu um papel em um filme feito para a TV chamado Kung Fu: O Filme, co-estrelado por David Carradine. Seu primeiro papel importante foi em Legacy of Race, de 1986. Em sua curta filmografia, predominaram os filmes de ação, ligados às artes marciais. Mesmo sabendo que estava atuando em filmes de menor grandeza (como “Massacre no Bairro Japonês” e “Rajadas de Fogo”), Brandon sabia que a oportunidade de mostrar o que ele poderia fazer chegaria. E chegou, no ano de 1993.

Quando recebeu a proposta para ser o protagonista do filme O Corvo, ele sabia que sua chance finalmente havia chegado. Leu tudo sobre seu personagem, e a medida que ia conhecendo mais sobre ele, mais se interressava e tinha a certeza de que essa era a sua grande chance. O interesse de Brandon pela obra era tanto que ele chegou ao ponto de ajudar no roteiro do filme, dando idéias, além de coordenar todas as coreografias do filme. Em uma de suas últimas entrevistas, Brandon expressou todo o seu contentamento com o personagem dizendo: “Não sei se estava predestinado a fazer este papel, mas estou muito feliz e honrado por fazê-lo.”

Sua vida pessoal também ia muito bem. Noivo da sua antiga namorada Eliza Hutton, pretendia se casar no dia 17 de abril, duas semanas após o término das filmagens. No convite do casamento, colocou a seguinte frase do livro “The Sheltering Sky” de Paul Bowle: “Por não sabermos quando iremos morrer, nós temos que pensar na vida como um inexaustivo bem.”

Mas o destino quis que o seu nome fosse imortalizado de uma maneira irreparável. O ator faleceu durante as filmagens. Uma morte tão estranha e cercada de conjecturas e suspeitas quanto a do seu pai. Quis o destino que o filho pródigo se juntasse ao pai quase 20 anos após à sua morte.

Uma das cenas rodadas para o filme requeria que uma arma fosse carregada, engatilhada e apontada para a câmera mas, por causa da curta distância do tiro, a munição carregada era de verdade mas sem pólvora. Após a realização desta cena, o assistente do armeiro (não o armeiro, que já havia deixado o set) limpou a arma para retirar as cápsulas, derrubando um dos projéteis no cano. A cena seguinte a ser filmada envolvendo aquela arma era o estupro de Shelly, sendo que a arma foi carregada com festim (que normalmente tem duas ou três vezes mais pólvora do que um projétil normal, para fazer um barulho alto). Lee entrou no set carregando uma sacola de supermercado contendo um saco de sangue explosivo. No roteiro constava que Funboy deveria atirar em Eric Draven quando ele entrasse na sala, estourando o saco de sangue. O projétil que estava preso no cano foi disparado em Lee através da sacola que ele carregava, matando-o. Os negativos com a filmagem de sua morte foram destruídos sem nunca terem sido revelados.

Após sua morte, várias vezes foi considerada a opção de arquivar o filme. Mas, graças ao empenho do diretor Alex Proyas, que desejava mostrar a atuação estupenda de Brandon para todos, as cenas restantes foram filmadas com o auxílio de dublês e efeitos especiais e o filme pôde, enfim, ser lançado. O diretor participou ativamente da divulgação do filme, pedindo ao público que fossem assistí-lo, não pela simples curiosidade de ver o último trabalho do filho de Bruce Lee, mas para ver a grande obra que ele fez com sua profunda interpretação no filme. Proyas dedicou o filme para Brandon e sua noiva Eliza.

Passados 14 anos após o seu último trabalho, Brandon Lee ainda é efusivamente lembrado pela sua interpretação como o rockeiro Eric Draven, que ressurge um ano depois para vingar sua própria morte e de sua esposa. Mais do que isso: ao ver o que ele consegue fazer com esse personagem, somos impelidos a imaginar como a carreira dele estaria hoje, ou ainda se o filme teria essa importância e destaque caso não ocorresse a sua morte. Será que Brandon finalmente se livraria do peso de carregar o sobrenome Lee?

Nunca saberemos. O que sabemos é que, Brandon, acima de qualquer linhagem sangüínea, possuía o talento que, infelizmente, foi interrompido pelas garras famintas da morte. E, se ele não dotava de um elo de ligação entre os dois mundos para irromper das trevas para o mundo real, ao menos ele sempre estará vivo no imaginário das pessoas.

O Corvo (Alex Proyas, 1994)

Uma fábula dark que versa sobre o amor

Véspera do Dia das Bruxas. Ou, na denominação dada no filme, Noite do Diabo. Incêndios, agressões, vandalismo e a chuva invandem a cidade na calada da noite, dando um ar sombrio e melancólico. Com a visão das chamas constratando com o frio da noite, irrompe a voz de uma garota, nos revelando que, em outros tempos, acreditava-se que quando alguém morria, um corvo carregava sua alma para a terra dos mortos, mas às vezes, algo tão vil acontece que a alma não consegue descansar, e este corvo pode trazer a alma de volta para corrigir o que estava errado. Junto a essa cena, temos a revelação de um duplo assassinato. De um casal. Que se casariam no Dia das Bruxas. O noivo, atirado do sexto andar, depois de levar um tiro. A noiva, violentada e espancada, morre, depois de ficar 30 horas no CTI. Um fim trágico para os dois numa noite trágica.

Um ano depois. A mesma cidade, a mesma Noite do Diabo, os mesmos incêndios, a mesma imagem decadente e sombria. Um corvo espreita um túmulo. O túmulo de Eric Draven. O noivo assassinado um ano atrás. De repente, o chão que adornava a sua sepultura se rompe. Eric volta do mundo dos mortos. Cambaleante, segue quase que instintivamente para o seru último lar. Lar que será a sua morada em sua estadia. Impelido pelas suas lembranças daquela noite, ele parte com um único desejo: vingança pelo assassinato dele e de sua noiva. Tendo o corvo como o seu elo de ligação, a sua extensão, os seus olhos, a sua consciência e, acima de tudo, a sua imortalidade.

Essas mal traçadas linhas resumem a sinopse do filme “O Corvo”, mais conhecido como o último trabalho de Brandon Lee, filho do lendário Bruce Lee. Morto durante as filmagens, Brandon Lee adquiriu status de lenda interpretando Eric Draven. Além disso, o filme, por conta da morte de seu ator principal, adquiriu status de cult. Mas, além dessa aura sombria que o permeia, “O Corvo” tem muito mais a oferecer.

Brandon Lee sabia disso. Mais do que isso, sabia que era a sua grande chance. Por isso, se dedicou de corpo e alma a esse projeto, sugerindo modificações no roteiro e até coreografando as cenas de ação. Como resultado, uma atuação brilhante e arrebatadora. Brandon soube captar muito bem a melancolia do personagem, seja nos momentos de embate com os seus algozes, seja na dor ao reviver as suas lembranças (ou ao viver as lembranças das pessoas que ele a toca), transmitindo os sentimentos através do gestual e, principalmente, do olhar (especialmente quando ele está com a maquiagem característica do personagem). Mais do que o seu legado sinistro, “O Corvo” deve ser lembrado sobretudo pelo trabalho magnífico de Brandon Lee na atuação.

Alex Proyas, o diretor do filme, também sabia do potencial do projeto. E, por conta disso, proporcionou o visual ideal para essa fábula. O filme é escuro, de atmosfera sombria, depressiva, gótica, expressionista. Chove o tempo inteiro (mais à frente, porém, temos palavras positivas de Eric Draven sobre isso). Isso foi obtido graças à cenografia estupenda, à fotografia dark e, sobretudo, às movimentações e posições de câmera ministradas por Proyas, muitas delas relembrando os clássicos alemães dos anos 20, quase que como uma honesta e singela homenagem a Lang, Wiene e outros mestres alemães. A trilha sonora, igualmente pesada e depressiva, contribuiu e muito para a atmosfera perfeita do filme.

Mais do que isso, mais do que as proezas técnicas, o filme tem o seu maior trunfo na sua mensagem. “O Corvo” é, assumidamente, uma fábula dark, gótica que, através do tema da vingança, versa, sobretudo, sobre o amor. Além do sentimento de vingança que move o personagem, vemos que o persongem principal é movido, principalmente, pelo amor que ele sentia pela sua amada. Isso fica bastante claro na cena final, quando, após cumprir a sua missão, Eric, ferido, volta para o cemitério onde ele e Shelly Webster (a noiva) foram enterrados. E, enquanto ele descansava deitado em frente à lápide de sua amada, surge, bela, luminosa e radiante, a sua amada. Ela se curva diante de seu devoto companheiro e, com um beijo, o leva para o seu merecido descanso. Nas palavras finais do filme, “Se roubarem aqueles que amamos, podemos fazer voltarem da morte se não deixarmos de amá-los. Os edifícios queimam. As pessoas morrem. Mas o verdadeiro amor é eterno”. Esse amor era o que motivava Eric a partir em sua cruzada. Era esse amor que o mantinha impelido a avançar, era esse amor que o mantinha, sobretudo, humano. E é esse combustível que nos permite também caminhar dia após dia, até o final da nossa existência física. É esse combustível que faz com que atores, como Brandon Lee, ao perceberem o potencial de uma obra, entreguem atuações que sejam lembradas até hoje, mesmo após suas mortes. E é essa, ao menos para os atores, a grande e almejada imortalidade.

Adney Silva

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