O Bom Pastor (The Good Shepherd – Robert De Niro, 2006)

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Boas surpresas ainda podem provir do cinema megalomaníaco e previsível da atualidade, e O Bom Pastor é um alento desses de que eu precisava para voltar a encarar a prateleira de lançamentos com menos temor. Robert DeNiro dirige esse drama confundido com suspense, que prima pelo interior de sua personagem-foco, assim como desmantela coisas interessantes da CIA – projeto típico de um roteiro de Eric Roth (Munique – por mais que seja vendido como algo a que dá pouca atenção (feliz ou infelizmente): a preocupação familiar e as relações extra-profissionais. Como fizera em Munique, Roth enche o filme de subtramas, mas que têm um peso tanto para o jogo curvo de espionagem, como para o psicológico do personagem de um Matt Damon cada vez mais eficiente, sério e que corre numa linha oposta à de Nicolas Cage, por exemplo (aparecer num mesmo estilo de filmes, porém, sem cansar o espectador com a sua aparência). Até porque a direção de Robert DeNiro serve as idas e vindas, nos tempos de II WW / Guerra Fria, sem dar muita velocidade ou suspense às cenas, bem como Edward Wilson encarou a sua situação: calado e atento ao que lhe circundava (não creio que cai tanto num jeito do Scorsese, não chega a ser uma direção “oh”, porém tem jogadas bem legais como a quando ele filma o professor inglês do Michael Gambon narrando a poesia copiada). Sendo assim, o maior acerto de O Bom Pastor é dar o valor devido a essas sub-tramas, nunca alargando-as exageradamente (tanto que as aparições de Jolie, fracas, são poucas de choradeira), nem as desprezando facilmente (a paixonite inicial e o arrependimento futuro de Edward no romance com a surdinha).

O diálogo do italiano com Edward Wilson e a cena do Natal são dois dos melhores momentos de um ator que vem caindo em descrédito e tenta ressurgir detrás das câmeras. Robert DeNiro pode fazer um filme parado (e a trilha sonora da dupla Zavos & Bruce Fowler prejudica a visão que se tem deste termo), mas jamais desinteressante, por resgatar a valorização do auto-entendimento do espectador e sua atenção presa aos tempos mais importantes do filme (entretanto, ele não precisa colocar o esquemático “pisque e perca” de Stephen Gaghans da vida). O aspecto positivo do roteiro, logo, está associado à direção, o que mostra uma leitura habilidosa de DeNiro. Há, entretanto, levantamentos negativos, principalmente no encontro de tempo esperado – o momento de 1961 ao qual o filme tanto se lançava e as gravações audiovisuais num hotel africano -, deixando em dúvida a real necessidade das interferências nos momentos inicias do episódio. Bem como a veia familiar de Edward Wilson; Angelina Jolie dá os esperneios e Eddie Redmave tem lances imaturos demais – eu queria socá-lo a todo momento, sem saber o porquê -, a evolução temporal é mal distribuída até pelas características técnicas do filme (a maquiagem só presta na cena em que o verdadeiro russo refugiado aparece) e fiquei com uma sensação um tanto quanto esquisita enquanto corriam os créditos (mais uma vez, sob uma péssima colocação inicial de trilha, desfazendo qualquer vontade de continuar a meditar diante a tela).

Resumidamente, O Bom Pastor não traz toda a velha vontade em correr aos cinemas para assistir a um novo suspense envolvendo sociedades secretas e afins, mas revela que, apesar de poucas, há ainda iniciativas valorizáveis nesse gênero na contemporaneidade.

3/4

Cassius Abreu 

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