
Banho de Sangue é um dos filmes mais sarcásticos e filhos da puta de todo o cinema, brincando com o espectador num jogo ilimitado que estreita as relações do que ocorre dentro e fora da tela até um nível de quase interação para finalmente se mostrar como uma tomada de poder irrefutável do cineasta sobre seu filme e seu público. O início dá o tom perfeito, porque logo depois que o Bava assassina o assassino com cinco minutos de filme você sabe que não está diante de qualquer coisa.
Os personagens de Banho de Sangue são todos pedras em falso de um caminho que não leva para frente, mas para baixo, para o abismo de um pesadelo onde o espectador não tem a quem recorrer. Os centros de gravidade de uma história comum são desintegrados sobre o fundo de uma mensagem clara: você está amarrado e forçado a curtir apenas e nada mais que uma dúzia de miolos e tripas se esparramando – como a vítima em Terror na Ópera – portanto pare de chiar e aproveite.
Os pólos de sentimento despertados usualmente, o ódio e a empatia, são chacoalhados e confundidos do início ao fim. Primeiro que já não podemos odiar um assassino que morre na mesma seqüência em que matou, depois que todo personagem pelo qual começamos quase a simpatizar ou morre de forma espetacular antes de qualquer coisa ou se revela um filho da puta, o que até poderia incitar também um princípio de simpatia, é claro, caso não fosse espicaçado por algum outro assassino logo em seguida.
O resultado é absurdo, é inédito. Banho de Sangue é algo como o teste de fogo, a porta da frente desse cinema fantástico italiano. Os 80 minutos formam um trajeto de ‘purificação’ (ou maculação, como queiram) sobre o público, do qual é extirpado qualquer poder, qualquer influência, qualquer peso minimamente significativo dentro do filme, restringido apenas a assistir o que ocorre e se deleitar com o sadismo maravilhoso de Mario Bava. O espectador nunca foi tão impotente como em Banho de Sangue, que é ao mesmo tempo um manifesto em favor deste mesmo espectador, do ato de assistir a um filme. O material mais convincente possível de como é bom parar de se preocupar com o mundo e curtir uns corpos estraçalhados. Além de ter aquele que é provavelmente um dos 5 melhores finais de todos os tempos…
4/4
Luis Henrique Boaventura
5 Responses to Banho de Sangue (Reazione a Catena / Bay of Blood – Mario Bava, 1971)