A Ceia dos Acusados (W. S. Van Dyke, 1934)

A Ceia dos Acusados

O primeiro dos filmes do casal de detetives Nick (William Powell) e Nora (Myrna Loy) Charles – e mais bem sucedido de todos, com indicações ao Oscar de filme e diretor -, A Ceia dos Acusados introduz a relação entre os dois e o mundo da investigação criminal de maneira cômica, baseando-se na série de livros escrita por Dashiell Hamett (o autor de O Falcão Maltês), numa investigação ao sumiço de um senhor e uma série de assassinatos na cidade de NY. A filha do senhor, Dorothy Winan, recorre a Nick, conhecido de casos anteriores ligados a seu pai, mas distante das páginas policiais há 4 anos (desde o casamento com Nora), mas este reluta em assumir o cargo, pretendo voltar à Califórnia após as férias de inverno na cidade nova-iorquina; enquanto cresce o interesse de sua mulher em ver o “velho homem” com que ela se casou, ou seja, tê-lo em ação como nos velhos tempos, acompanhando-o em busca de diversão. Basicamente, esta obra, portanto, sintetiza a dualidade do casal e a busca deles por diversão em cada manchete policial, colocando vítimas e culpados como meros coadjuvantes no processo principal pretendido pelo filme – o que faz com que este filme nada mais seja que uma aventura descomprossimada e sem muitos talentos coletivos a serem relatados, já prevendo uma série com o casal, e funcionando como argumento unificador de ambos nas caçadas detetivescas.

A Ceia dos Acusados poderia funcionar muito bem sem precisar de grandes questões filosóficas ou um plot mais interessante se apresentasse algo mais no aspecto individual que tenta trazer: o casal e a charada a ser matada. As duas personagens são apenas regulares e, talvez por conta de um desgaste temporal, as tiradas cômicas (como as do cachorro e a ‘descoberta’ de uma mulher com mais adrenalina e menos medo) não funcionam em boa parte do filme, com raros requintes qualitativos. Powell e Loy também pouco apresentam ou oferecem às suas personagens, não as tornando, de fato, marcantes e icônicas na história cinematográfica; seja pela pouca química que manifestam em cena (muitas vezes que os dois falam unicamente para a câmera e não numa troca mútua de idéias e sentimentos, à exceção da cena em que um dos suspeitos entra na casa deles e dá um tiro em Nick), seja por individualmente não darem ar da graça, com diálogos mais construtivos. Por fim, o diretor W. S. Van Dyke pouco faz à frente do processo de investigação da dupla, tornando a resolução um tanto quanto fácil de ser descoberta e sem dar contornos mais dramáticos ou de suspense naquela que poderia ser a grande jogada do filme: a idéia de reunir todos os suspeitos para jantar até a descoberta do culpado.

Ainda assim, este filme de 1934 (muito atrás do vencedor do Oscar do ano seguinte, que também trabalha com uma dupla romântica…) não é extremamente dispensável. É bom observar como foram as primeiras obras a tratarem um temática “mais série”, como a investigação não só de crimes como de homicídios mais fortes, com jargões da comédia (e, a bem da verdade, o último assassinato funciona muito bem: ao ser descoberto a verdadeira vítima, que poderia gerar num abalo total, o roteiro sai-se muito bem na forma como a dupla trata a personagem e também as demais que a cercam). Ao desprezar, de certo modo, toda uma justificativa mais construída de um plano para achar o culpado, tornando as coisas mais “ocasionais”, A Ceia, portanto, tenta fazer valer o espírito da narrativa policial, sem dar muitas atenções para os porquês dos fatos, mas sim aos porquês da dupla seguir os fatos. Com isso, estabelece-se uma louvável introdução – no limite que tal termo oferece à produção cinematográfica em série – de características em comum de Nick e Nora para formarem um trio com o cão, Asta, que investiga(rá) diversas ocasionalidades: “it’s just for fun!”.

2/4

Cassius Abreu

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