Olhos Abertos (M. Night Shyamalan, 1998)

Pouco antes de obter o sucesso definitivo com o seu melhor exemplar, O Sexto Sentido, Shyamalan lançou o, ainda obscuro, Olhos Abertos, em 1998. O filme é mais do que meramente subestimado (até porque, acho, estou começando a vulgarizar demais essa expresão) pelo fato de seu conhecimento passar alheio; é um filme que simboliza praticamente todos os temas abordados por ele, em especial a crença e a fé, nos seus outro cinco filmes lançados. O roteiro começa guiando a vida de um menino, Joshua, que estuda num colégio católico, estritamente separando o lado feminino do masculino (já aqui entra uma relação direta com A Vila), porém com mais tons humorísticos e sem muito suspense. A bem da verdade, a trilha sonora reforça o clima de aproximação a um conto infantil, e Shyamalan jamais se embrenha pelo suspense que o consagraria dali em diante como o “novo Alfred Hitch” – algo que, para mim, jamais existirá, é um conceito estapafúrdio, tanto pela ligação a Hitch, quanto ao estilo de cada diretor (e Shy especificamente, pela cobrança tal que parece ter sido feita diante dele) -, tornando-se difícil a própria crença de extração de uma história convincente a partir dali, com um efeito sessão-da-tarde, e essa é uma das ligações que vejo a A Dama Na Água: trazer o público para um espírito mais pueril, dubitável até, mas valoroso sensorialmente para quem persistir. É quando Shyamalan, com muita perspicácia para o que viria a seguir, sem cobrar ou mudar o tom de seu protagonista, insere a grande caminhada do filme: a procura de Deus.

Na paixão que ele trouxera do avô falecido, que sempre se sustentara sobre a fé e o futebol americano, e motivado pelo círculo religioso ao seu redor, Joshua, após a fracassada tentativa de se aproximar ao antepassado pelo esporte, começa a sua missão, que não é menos possível que a própria existência d’Ele. Shyamalan não assume um discurso partidário quanto ao parentesco e ao meio que rodeia o garoto (tanto os pais, quanto a insituição religiosa), não são fontes de 100% de aprovação, mas também não signifcam dor (a importância do início do filme é clara agora: “meu pai é um ótimo homem, mas vive repetindo as coisas para mim”; e as variadas frases sobre “colégios católicos”), apenas deixando-os ali, secundariamente, como pequenos moldes não-definitivos que traçariam o destino de seu protagonista, mais movido pela fé inicial em sua jornada. Há o grande flerte com as dúvidas que a fé lhe impõem e, coincidentemente ou não, o capítulo deste momento do filme chama-se Sinais, quando, após tanto esforço vão (o garoto jejua, tenta rituais muçulmanos, judeus, além da própria presença católica e o pedido de auxílio a um cardeal), ele se depara com o pedido de desistência diante de um padre – entretanto, este, confessando ao invés de acolher o confesso do menino, diz que se deve persistir mesmo diante das dúvidas. E Joshua apóia-se nas lembranças do avô, para uma mudança, mais notável, de ocorrências ao seu redor. Escorando-se em seus coadjuvantes, Shyamalan tece perfeitamente a mudança de atitude não daqueles que nos cercam, mas sim da forma com a qual os encaramos. É compreensível o gesto débil de um garoto bizarro, e Joshua apóia seu colega gordo, tão desprezado, visto como uma inútil e insatisfatória presença-cobrança de suas brincadeiras. O próprio amor (”reação biológica”) dele pela garota ganha e dá força quando ela mostra confiança nele, e ele se vê confiante.

O milagre acontece ao salvar seu melhor amigo, epiléptico, de uma morte fatal e, ao fim do ano letivo, eis que Deus se faz presente diante dele. O outro menino loiro, que Joshua sempre via rondando os corredores e aparecendo em momentos em que cometia atitudes “erradas” para tentar se ajudar ou ajudar ao próximo. Deus está diante de nós, diz Shyamalan, Deus comunica-se com nós. Porém, poucos verdadeiramente o ouvem e o procuram e o inocente Joshua é quem pode trocar uma palavra com ele, não por ser dotado de algum poder ou ter salvado meio-mundo. Como em A Última Tentação de Cristo, em que Scorsese coloca o ser divino como um humano, Shyamalan reitera essa aproximação, desta vez não pela própria transformação, mas pela “descoberta” divina. Foi assim que passou a olhar ao redor e enxegar importância nos seus colegas, que Joshua o descobriu. Talvez sem querer, porém com a grande força exercida pela sua fé e pela sua crença, resistentes a todas as dúvidas do caminho. Esta, portanto, é uma mensagem de tanto valor quanto a procura pela reconciliação psicológica de Bruce Willis em O Sexto Sentido.

4/4

Cassius Abreu

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