Matar ou Morrer (High Noon – Fred Zinnemann, 1952)

Na crônica que abre seu livro Banquete com os Deuses, Luis Fernando Verissimo descreve os personagens de Meu Ódio Será sua Herança, de Sam Peckinpah, como “protagonistas conscientes da derrocada”, referindo-se ao fim do período de expansão e colonização do território da América do Norte. Sob a ótica de Peckinpah, chegara o momento de a aventura terminar, e o acerto de contas começar. Tudo isso é verdade, mas dezessete anos antes do lançamento de Meu Ódio Será sua Herança, um outro filme já tratara, e muito bem, do fim da “mentalidade do Velho Oeste” e das conseqüências de tal mudança.

O filme em questão é Matar ou Morrer (High Noon, 1952), dirigido por Fred Zinnemann. Gary Cooper interpreta o xerife Will Kane, e tudo se passa no dia de seu casamento com a bela Amy (uma jovem Grace Kelly, apenas em seu segundo papel no cinema), após o que ele deveria abdicar do posto de xerife e dedicar-se à tranqüila vida familiar, administrando um armazém. Os planos mudam quando chega à cidade a notícia de que um assassino preso por Kane cinco anos atrás foi libertado, e se dirige à cidade. Ele deve chegar a bordo do trem do meio-dia. Frente aos sentimentos conflitantes da população, ao desamparo por parte de seus antigos colaboradores e, especialmente, às súplicas de sua esposa, o xerife enfrenta um dilema praticamente sem solução.

Esse é o pano de fundo que Zinnemann utiliza para desenhar um painel do fim anunciado da época das conquistas. Aqui os personagens são protagonistas inconscientes de seu próprio papel. Will Kane representa o desbravador, o precursor, o próprio espírito da colonização. Não por acaso ele está velho e prestes a se aposentar. Seu adversário, Frank Miller, não é um dos tradicionais vilões do velho oeste, cujo único fim era a morte, em combate ou na forca. Ele foi preso, julgado, sentenciado a passar a vida na cadeia, e então libertado. Não se sabe porque ele foi solto, nem o filme se presta a dar um motivo concreto. Só se sabe que, em algum lugar longe dali, uma espécie diferente de justiça se fez, e essa justiça colocou em liberdade um homem cuja primeira atitude é juntar-se aos seus capangas e buscar vingança.

É nos personagens secundários, habitantes da cidade, entretanto, que se encontra a parte mais interessante da metáfora elaborada aqui. Observando com atenção, percebe-se que neles a coragem foi substituída por precaução e o espírito aventureiro deu lugar ao desejo de estabilidade. Por mais que se envergonhem disso, os homens do povoado não reúnem em si a força para ajudar o xerife, entregando-o ao que todos consideram sua morte certa – ou seu suicídio, como descrevem alguns, o que seria uma forma de eximir-se da culpa por manter os braços cruzados. Um dos moradores chega a dizer (em outras palavras): “Nós pagamos um bom salário ao xerife e seu ajudante. Eles que resolvam”. A função do novo cidadão urbano, seria, portanto, a de pagar seus impostos e esperar que os problemas desapareçam. Nada mais de iniciativa, nada de participação direta. Eles que resolvam.

A ganância também aparece aqui modificada pela nova ordem. Não são mais terras ou gado que interessam, os desejos da população da cidade são mais, digamos, atuais. O hoteleiro diz não gostar do xerife pois antes da chegada da lei e da ordem havia mais movimento em seu hotel. Eis uma boa crítica ao capitalismo selvagem, ao qual não importa que todos se matem, contanto que isso traga lucros. Já o assistente do xerife recusa-se a ajudá-lo por não ter sido indicado para substituí-lo (um novo xerife chegaria à cidade no dia seguinte). Nesse caso a cobiça é pelo cargo, e aqui, melhor do que em qualquer outro ponto, percebe-se que os tempos não são mais de força e coragem, mas de política e barganha. Eis que, como resultado de tudo isso, Will Kane é abandonado.

Para que não se diga que os aspectos artísticos da obra não foram citados, vale lembrar que tanto a trilha sonora quanto a música tema cabem perfeitamente no filme, colaborando bastante para criar a atmosfera de conflito interno do protagonista. Gary Cooper oferece uma atuação na medida certa, sem exageros, mas que passa ao espectador a angústia de encontrar-se na situação em que se encontra.

Há ainda algo de revigorante no papel da mulher em Matar ou Morrer. Também aqui se poderia dizer que o filme é precursor, mas seria difícil fazê-lo sem explicitar demasiadamente a conclusão da estória. O mais importante é que a cena final representa o ocaso de uma era. É verdade que a colonização não termina com o desfecho do personagem de Gary Cooper. Seu fim, porém, havia sido anunciado. O tempo de coragem, da marcha ao desconhecido, da vida e da morte pela força e pelas armas estava agonizando. A aventura do velho oeste chegava ao fim.

3/4

Marcelo Dillenburg

ou: Matar ou Morrer (Fred Zinnemann, 1952) – Adney Silva – 4/4

4 Comments

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4 Responses to Matar ou Morrer (High Noon – Fred Zinnemann, 1952)

  1. ltrhpsm

    Muito legal o seu texto, Marcelo. Mesmo com sete parágrafos, foi direto ao ponto e todos os aspectos que você citou vieram em forma de cenas à minha cabeça imediatamente, o que mostra que o principal do filme foi (bem e devidamente) valorizado no texto.

  2. Valeu pelo comentário, Sopa. Escrevi a resenha logo após assistir ao filme, então tava com tudo aquilo ainda bem vivo na cabeça. Foi um filme que me empolgou muito, intelectualmente falando.

  3. Edivaldo Martins

    Marcelo:
    Bom texto
    Apenas uma ressalva: Gary Cooper neste excelente western não é Xerife e sim Marshal – Marshal Will Kane! Nós fãs de western não podemos confundir, posto que xerife é uma coisa e Marshal(delegado) é outra coisa. É, mais ou menos, salvaguardadas a proporções, chamar o Presidente da República de Governador.
    Já que você não citou os vilões são: Ian MacDonald(Frank Miller);Lee Van Cleef(Jack Colby);Robert J. Wilke Jim Pirce;e, Sheb Wooley(Ben Miller).

  4. Edivaldo, obrigado pelo elogio. Sobre a questão do “marshal”, não há uma tradução exata para o termo em português, por ser um termo atrelado à cultura e história de outro país. Cada um tem suas prioridades, claro, e não digo que estejas errado em fazer o comentário, mas dado o contexto da resenha, isso me parece apenas preciosismo. E a comparação com os cargos políticos não procede.

    Abraço.