Rastros de Ódio (John Ford, 1956)

De todos os gêneros cinematográficos, nenhum remete tanto às raízes norte-americanas do que o Western. John Ford é uma das grandes instituições do cinema norte-americano. Nascido ainda no século XIX (1894 – 1973), ele captou como poucos, em vários dos seus mais de 100 filmes, o espírito, as características, a paisagem, enfim, todas as particularidades referentes a esse gênero. Mais do que isso: Ford foi, talvez, o maior representante dentro do meio cinematográfico daquela época tão icônica para o imaginário norte-americano. Mas foi apenas em 1956 que ele instituiu o que seria o filme-testamento daquela época.

Em Rastros de Ódio, temos John Wayne (em sua 13ª parceria com Ford) interpretando um veterano do exército confederado que volta para a casa de seu irmão após anos de luta no exército americano. Logo após sua chegada, a casa é atacada por índios, que matam seu irmão, cunhada, sobrinhos e raptaram raptam sua sobrinha. A partir daí ele e um sobrinho adotado começam uma caçada que dura anos à procura de sua sobrinha caçula, e dos índios que a seqüestraram.

Lendo o parágrafo anterior, pode parecer tratar do mais-que-batido enredo clichê do pistoleiro americano que enfrenta os índios-vilões de tantos filmes do gênero. Mas, por trás dessa camada áspera de roteiro-padrão do gênero, escondem-se finas e numerosas camadas de profundidade que dão uma aparência toda especial para esse filme. E algumas dessas camadas dizem respeito ao personagem principal.

Ethan Edwards, à primeira vista, lembra os típicos personagens principais fordianos: um herói solitário, marcado por perdas e sofrimento, com um senso do dever que beira ao fanatismo, quase messiânico e que, apesar dessa aura de solidão, possui fortes ligações com os princípios familiares, com as suas raízes. Contudo, essas ligações são, num dado momento, renegadas, pois se tornariam amarras do seu sentimento de liberdade e heroísmo que lhes são intrínsecos a sua natureza. E é esse sentimento de heroísmo que o impulsa durante vários anos para resgatar a sua sobrinha.

Por outro lado, Ethan Edwards pode ser visto também como um homem amargurado, sério, misterioso (não se sabe porquê ele voltou tanto tempo depois das guerra ter acabado), derrotado na guerra civil, que nutre um ódio mortal pelos índios; ódio esse que provoca o total desprezo dele por Martin, o filho adotado (e mestiço) do irmão de Ethan, que foi salvo justamente por ele muitos anos atrás. Entretanto, Martin é que parece mais interessado em resgatar Debbie, enquanto que Ethan parece mais interessado em simplesmente matar o maior número possível de índios, inclusive insinuando que mataria a sua própria sobrinha, caso ela se assimilasse à cultura indígena e se tornasse como eles. Essa dualidade do personagem principal é uma das características mais interessantes desse filme.

Outro aspecto importante retratado no filme é a questão racial envolvendo brancos e índios. Especialmente do primeiro perante o segundo. E isso fica bem claro em Ethan. No seu relacionamento com Martin, no olhar de desprezo para as mulheres que foram “convertidas” em índias no forte; na maneira como profere a palavra “comanches”; no fato dele falar que não hesitará em matar a sua sobrinha; enfim, o seu racismo é convertido em ódio extremo pelos peles-vermelhas. E esse conflito racial encontra ecos também em outros personagens da trama, como Laurie, o interesse amoroso de Martin. Ao ver que Martin não desistirá de acompanhar Ethan na jornada para salvar Debbie, Laurie diz a ele que isso não adiantará, que Ethan não só matará Debbie na primeira chance que tiver, mas que a mãe dela permitiria isso.

Há ainda outros aspectos bastantes peculiares que são retratados maravilhosamente por Ford: as inúmeras referências à religião e ao catolicismo (os diálogos inciais entre Ethan e o reverendo Clayton, quando ele o chama de o “filho pródigo”; o próprio fato do reverendo ser também o capitão, sendo talvez uma representação da faca de dois gumes); a relação entre Martin e Laurie, quase como crianças; a espera de Laurie por Martin para finalmente se casar (até o momento que ela se cansa de esperar e quase se casa com outro); todos esses aspectos secundários ajudam a enriquecer ainda mais a trama.

Entretanto, nada disso seria grandioso se não houvesse uma grande direção por trás. E John Ford mostra que é o homem perfeito para coordenar esse mosaico: sua direção é focada em longos planos e planos médios, quase sem closes, valorizando assim os cenários e as atuações (ajudado também pelo processo Vistavision). Mas o maior mérito mostrado nas quase duas horas de filme está na sua meia hora final, onde podemos entender mais profundamente o objetivo da obstinação de Ethan e de Martin no regaste de Debbie. Ethan, ao decidir no último instante em trazê-la viva, consegue finalmente o que seria o seu objetivo principal: resgatar a sua humanidade, que, por algum motivo, estava perdida em algum lugar. Além disso, isso representou uma redenção a Ethan, que, de alguma forma, parecia não aceitar a derrota na guerra civil. Portanto, a jornada para resgatar Debbie, era, na verdade, um resgate da sua honra, que foi manchada anteriormente. E, para isso, mesmo contra a sua vontade, ele teve a ajuda de Martin, justamente um mestiço. E, mesmo após essa vitória pessoal, ele percebe que não conseguirá se livrar totalmente de seus fantasmas, ou ainda se ajustar a sociedade. É o arquétipo do herói romântico castigado pelo destino, pela derrota na Guerra Civil que jamais aceitou, e que, por isso, segue o seu solitário caminho.

John Ford iniciou a sua carreira junto com o cinema, por isso foi um dos melhores a retratar o Velho Oeste. Ele, assim como Hawks, foram os diretores com ligações mais profundas com o Oeste americano e, por conta disso, seus filmes pareciam retratar com fidelidade impressionante todos os aspectos daquela época. Ford canalizou tudo isso em “Rastros de Ódio”, fazendo desse filme uma espécie de “testamento” dessa época. Além disso, conseguiu, nesse filme, retratar vários aspectos relacionados também às raízes e fundamentos do ser humano. E, por tudo isso, a obra de Ford possui o mesmo poder enfeitiçador de 50 anos atrás.

4/4

Adney Silva

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One Response to Rastros de Ódio (John Ford, 1956)

  1. franc1968

    Os atuais diretores de cinema deveriam ter “The searchers” como uma cartilha. John Ford conseguiu fazer um filme profundo usando a gramática básica do cinema. Por exemplo, durante o filme, só há um zoom, e é magnificamente bem colocado, ou seja, tem uma função definida na compreensão da trama. O roteiro é cheio de detalhes, mas o diretor os apresenta de modo elegante, sem jamais subestimar a inteligência do espectador. Por exemplo, fica claro que Ethan Edwards era apaixonado por sua cunhada, mas em nenhum momento isso é dito na trama. Os olhares e gestos se encarregam de mostrar esse fato. Há muitas elipses no decorrer da trama, mas nenhuma delas fica obscura. John Ford era um mestre na narrativa. Portanto jamais será esquecido!