Por Vlademir Lazo

Assistir Que Horas ela Volta? traz à tona a lembrança da Vera Cruz a rondar como um espectro o cinema brasileiro décadas depois de sua precoce extinção.  A Vera Cruz, na verdade, nunca deixou de existir, com os nossos filmes que se pretendem neo-realistas, mas conseguem ser pouco mais que um melodrama barato com pano de fundo social. Assim foi com a maioria dos que conciliaram sucesso popular e de crítica e êxito internacional que tivemos desde O Cangaceiro (que espelhava uma realidade relativamente recente à época, a do terror do banditismo do sertão envolto em lendas), passando por O Pagador de Promessas, Pixote, Central do Brasil, Cidade de Deus, O Som ao Redor até chegar ao filme de Anna Muylaert.

Um sucesso condenado a se repetir a cada dez ou vinte anos (e, pelo visto, com um intervalo cada vez menor), assimilando as modas estéticas de seu tempo e refletindo na tela as contradições sociais de um país, ganhando prêmios e colhendo elogios aqui e no exterior.  Filmes que não ajudaram na evolução de uma cinematografia, mas na sua estagnação; pois nenhum deles rendeu frutos na influência de obras relevantes feitas posteriormente (o movimento do Cinema Novo, por exemplo, seria muito mais uma reação a filmes como O Cangaceiro e O Pagador, ainda que parcialmente incorporado depois ao cinema oficialesco), tampouco a carreira de seus realizadores (com a exceção de Babenco, que mantém uma filmografia mais ou menos consistente). Pode-se dizer que ainda é cedo para se prever o legado de um O Som ao Redor e Que Horas Ela Volta?, mas não é um pecado, e sim um dever, pensar no que ficará de uma obra daqui a dez ou cinquenta anos.

Um dos desafios de Que Horas ela Volta? é o de convencer que Regina Casé pode estrelar um melodrama, acostumado que estamos a vê-la em comédias escrachadas e programas de auditório na TV. Encaixa-se, então, o seu tipo um tanto exótico, fora dos padrões de beleza, no papel da empregada doméstica, uma das obsessões temáticas do novo cinema brasileiro, que permite tornar o cinema um campo para debates sociológicos e empatia fácil. O que Muylaert se esmera em conseguir através de uma dramaturgia mal-ajambrada, especialmente por uma série de vinhetas no começo apresentando a personagem em meio à casa dos patrões, onde ela mora, de forma a provocar comiseração e constrangimento em torno de sua figura.

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O que deflagra uma arejada na narrativa é a entrada em cena da filha Jéssica (Camila Márdila), que de Pernambuco chega em São Paulo para prestar vestibular, e provoca um curto a desestabilizar um ambiente carregado por demais de estereótipos. Em que muito é sublinhado em excesso, explicitado desde cedo, de modo que a maioria dos espectadores pode adivinhar facilmente que é Jéssica, e não o filho do patrão, que vai passar no vestibular, e despertar o desejo tanto do filho quanto do homem mais velho da casa, e o ódio da esposa, simbolizado com muitas caras e bocas. O filme dada a sua previsibilidade faz com que estas revelações passem longe de serem spoilers.

Estivéssemos num Pasolini dos anos sessenta um elemento intruso como Jéssica deflagraria a destruição da família devorando um por um de seus membros. Não se trata de defender como o filme deveria ser feito ou não, porém o de mostrar o quanto Que Horas ela Volta? é conformista e com um olhar a partir da Casa Grande. O filho mimado terá a compensação da viagem para a Austrália, e o patrão ao ser rejeitado pela menina, na patética cena do pedido de casamento (que se levada a sério só o poderá com, mais do que cumplicidade, a condescendência do público), se safa da situação dizendo, com gaguejos, que só estava de brincadeira. O que é uma entre outras resoluções de roteiro simplistas demais, que inclui facilidades como o gesto final de libertação da protagonista-empregada, cuja atitude não se desenvolve paulatinamente desde um certo ponto da narrativa, e sem preparação nenhuma irrompe como catarse no desfecho. De resto, ideias ficam pela metade, precisando serem preenchidas na mente do espectador, não por uma ambiguidade ou mistério estimulados pelo filme, mas pela incompletude de seus alicerces.

O filme de Muylaert é a representação de uma nação conservadora, mas não há espírito crítico, apenas uma aceitação por os mais pobres romperem barreiras como a falta de inclusão na universidade (em O Som ao Redor era a inclusão pelo consumo, sintetizada pela compra dos modernos e grandes aparelhos de TV). Se não há secura existencial em sua escolha pelo melodrama, tampouco existe subversão na suposta crítica social pelo qual tem sido louvado, e que serviu para alimentar debates, pois nas assimilações de costume, concretizadas de tempos em tempos numa sociedade, nem sempre mudanças acontecem para impedir que as coisas continuem como sempre foram. Que Horas Ela Volta?, nos seus riscos calculados, funciona como um exercício para a consciência culpada do espectador frente ao país em que nos encontramos, enquanto é entretido num melodrama beirando o novelesco e supostamente bem-filmado. Se depender dos filmes, de Central do Brasil até Que Horas Ela Volta?, em termos cinematográficos o país não mudou muito.