Por Virgílio Souza

Em breve passagem pelo Festival do Rio, que segue até esta quarta-feira (14), deixamos impressões a respeito de filmes vistos no festival.

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Right Now, Wrong Then (2015), de Hong Sang-soo

Sang-soo é um artesão da forma a serviço do olhar e da imprevisibilidade narrativa que parte de esquemas muito simples. Aqui, ele não se vale da mesma manipulação temporal de Hill of Freedom, um filme muito mais entrecortado, mas trabalha diferentes perspectivas sobre o mesmo conjunto de eventos — ou ao menos o mesmo evento central, o encontro de um cineasta e uma aprendiz de pintora na cidade de Suwon, que ele visita pela primeira vez na carreira. Alterando a ordem das cenas, até repetindo uma porção delas, o filme produz sentidos diferentes, compilados em dois títulos, Right Then, Wrong Now e Right Now, Wrong Then. A forma como as distintas perspectivas são abordadas, porém, não estabelece um embate claro entre elas, apenas a ideia de que a mesma encenação pode indicar múltiplos olhares. É ainda interessante como o diretor segue enquadrando e reenquadrando planos na própria câmera, que se aproxima dos atores pelo zoom e sem cortes, não por capricho, mas porque se trata de uma forma de aproximar a lente, literal e figurativamente. A figura masculina, um sujeito beberrão e sem muitos filtros sociais, adepto fiel e incorrigível da sinceridade ilimitada, talvez seja o melhor sinal de que Sang-soo segue trabalhando os mesmos temas, explorando novas possibilidades estruturais. O naturalismo das interpretações e a relação construída entre o casal de personagens, neste contexto formal e de extremo apuro estético, é o que aproxima o filme da realidade, mas parece evitar tocá-la.

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11 Minutos (2015), de Jerzy Skolimowski

É inevitável pensar que o título poderia muito bem ser a duração do filme — e que ainda assim a fonte de tédio não se esgotaria. Como se buscasse criar uma versão mais cafona da trilogia de Iñárritu (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel), Skolimowski aposta na não-linearidade de roteiro e na mão pesada que controla a câmera para narrar, em fragmentos, as histórias de pessoas conectadas pelo acaso (ou por qualquer outra coisa do tipo). Trata-se de um exercício fútil, sustentado em truques como repetir o som escandaloso da passagem de um avião para pontuar o tempo, decisões absurdas e injustificáveis como adotar o ponto de vista de um cachorro, e caricaturas como o cineasta que grava suas relações com potenciais atrizes e que prefere ser chamado de “Dick”. A tensão é enganosa, sobretudo porque o desfecho catastrófico, explosivo e inexplicável é completamente deslocado do restante do filme, que se leva tão a sério.

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Maravilhoso Boccaccio (2015), de Paolo e Vittorio Taviani

A adaptação livre dos irmãos Taviani parte de um interesse bastante específico no registro oral de histórias. O refúgio de um grupo de amigos e casais em um casarão às margens de uma Florença tomada pela peste é o espaço para que sejam apresentados pequenos contos, relacionados ou não com a realidade vivida pelos contadores. Contudo, o filme se perde no limbo entre a literatura originária, a teatralidade das performances dos atores e seus aspectos cinematográficos. O que há de cinema, para além da estilização dos figurinos e cenários, é a música impositiva, que tenta guiar sensações pela via do humor leve, mais do que pela sexualização ou o romance, frequentes em outras versões da obra de Boccaccio. Ainda, o elo que liga os relatos parece desimportante e gera a sensação de que uma estrutura estritamente episódica poderia ser mais frutífera do que a tentativa de amarrar tantas partes em uma só linha.

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Em Jackson Heights (2015), de Frederick Wiseman

É curioso o movimento de Wiseman cada vez mais em direção à ideia de Anders Petersen, que vê a câmera como instrumento para que se chegue ao que interessa: pessoas e coisas. Em um panorama cheio de cineastas que abraçam a fotografia como último e único recurso e que sofrem aversão a museus, ele havia realizado National Gallery e Em Berkeley, um par de filmes sem medo de (outra) arte e da academia. Agora, seu olhar se volta para o multiculturalismo de uma das áreas mais diversas do planeta. O leque amplo gera trechos mais e menos interessantes, mas o retrato completo depende também desses últimos, porque o diretor é capaz de registrar tudo com admiração por aquelas lutas diárias sem jamais evitar o conflito.

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Mon Roi
(2015), de Maïween

O filme parte de uma boa ideia, fundamentada no acidente sofrido pela personagem de Emmanuelle Bercot, que a leva a uma lesão grave no joelho. Em recuperação, ela escuta de uma psicóloga que aquela é uma parte do corpo que só se movimenta para trás, sugerindo uma relação entre o problema físico e questões emocionais e transportando o espectador a uma segunda linha do tempo, focada no exaustivo drama de casal que a levou a tais complicações. De algum modo, é como se Maïween tivesse em mãos uma premissa razoável, mas que é interessante por si só, não como ponto de partida para o que aqui concentra as atenções. Das duas tramas, uma ascendente, de recuperação, outra de declínio em queda livre, apenas a primeira possui impacto — e a segunda, que deveria erguê-la, funciona mais como âncora. A diretora também não possui qualquer retração, pintando tudo com cores muito fortes, tentando extrair drama de absolutamente todo plano. As presenças da protagonista e de Vincent Cassel até levam a trama adiante, mas os recursos da diretora parecem muito limitados. O joelho se recupera e a personagem principal volta à vida. O caso do filme parece ser mais sério.