Por Daniel Dalpizzolo

Embora seja um grande estudioso do classicismo cinematográfico, é bem verdade que as narrativas de John Carpenter são estruturas das mais hardcores que podemos encontrar no cinema narrativo contemporâneo — seu mais recente filme, Aterrorizada, está aí e não me deixa mentir sozinho. Exemplos não faltam: o jogo de ponto-de-vista subjetivo da câmera de Halloween, ou toda uma noção de mundo ruíndo agressivamente aos olhos do espectador em Eles Vivem, ou a releitura surtada da história de nosso século XX feita em Fuga de Los Angeles, ou então o ambiente tipicamente urbano e norte-americanizado sendo sugado pelo poder da mitologia oriental em Os Aventureiros do Bairro Proibido — enfim, praticamente todos os seus projetos guardam fragmentos de uma ousada visão de cinema que, se mal interpretada, pode despertar reações equivocadas aos filmes em questão.

É provável que nenhum de seus filmes tenha sofrido tanto com isso quanto Fantasmas de Marte, seja pela inevitável comparação com trabalhos melhores do diretor (afinal não se trata de um filme do nível de O Enigma de Outro Mundo ou Fuga de Nova York, pra citar duas obras-primas) ou pela mera dificuldade que se tem de aceitar uma proposta tão radical — dificuldade que é ironizada pelo próprio filme em um de seus momentos finais, quando com aquele sarcasmo típico de Carpenter certa personagem reage ao desfecho do relato da Tenente Melanie, nossa narradora, com algo parecido com “e vamos justificar o que aconteceu dizendo que existem fantasmas em Marte, é isso?”.

Se já não bastasse a história fantasiosa, sobre membros de uma expedição por uma cidade devastada de Marte lutando contra nativos ensandecidos e fantasmas desencavados, a narrativa construída por Carpenter resvala no próprio conceito de bom roteiro que se tem por aí, e que é amparado pela noção de “bom gosto” da apreciação cinematográfica mais rasteira. A começar pelo respeito absoluto que Fantasmas de Marte mantém com o ponto de vista que veste narrativamente, através do qual, em um longo flashback, assume-se como um resgate das memórias de Melanie sobre os fatos ocorridos e trazidos pelo filme, sem se esforçar em momento algum em buscar a compreensão desses fatos para além daquilo que ela conhece.

Ao agarrar-se à sua personagem, uma proposta de retorno ao passado se abre em diversos sentidos. Na história, diegeticamente, desbravamos as memórias de Melanie e fazemos junto dela uma releitura de um mistério pouco crível e aparentemente insolucionável, uma história onde pouca coisa parece realmente parece fazer sentido fora da fantasia da qual o filme se mune para existir — o que, em se tratando de cinema, não poderia ser mais coerente. Já em sua acepção artística, Fantasmas de Marte vai ao futuro para reviver o passado cinematográfico e histórico, utilizando-se de um uma série de características reunidas por Carpenter dos mais diversos filmes de faroeste que viu durante sua longa vida cinéfila.

Seria este, portanto, um western futurista vivido através das memórias de uma mulher e passado em Marte, com fantasmas, nativos doidos que fazem um cemitério a céu aberto com cabeças cravadas em estacas, gente quebrando tudo e o Ice Cube indo de vilão a herói por mera necessidade de uma narrativa que, a partir de certo ponto, abdica de qualquer outra possibilidade pelo simples prazer da ação boçal — um conceito, diga-se, também remetente à antiguidade do cinema e de seu preceito básico de entretenimento, onde o extra-campo perde valor para amplificar e tornar pleno aquilo que existe na imagem, pura e simplesmente, uma postura que nos dias de hoje certamente não deve funcionar com cineastas ruins, mas que com Carpenter ou com James Cameron pode virar ouro.

A viagem de Fantasmas de Marte é encerrada com muita porrada, sangue e violência gráfica rechaçando na tela em cenas belissimamente filmadas, e termina praticamente no momento em que seu filme inicia. Ao final de tudo, e ao contrário do que habitualmente se vê, não encontramos respostas (nem mesmo a intenção delas) para muitas coisas — com exceção de alguns elementos básicos e essenciais para a própria existência de um filme ali. Carpenter preserva grande parte do mistério e desvia da possibilidade de construir soluções “cabeçudas” para dar a seu filme uma proposta, um conceito narrativo — que vai além de meramente contar uma história com início, meio e fim, ou de buscar surpreender e agradar o espectador. Inegavelmente, é pra quem tem colhões.