Logo que O Artista começou a ganhar as páginas de jornal, celebrado pela audácia de ressuscitar o cinema mudo e o preto e branco, uma crítica paralela, nada elogiosa apareceu gerando polêmica. O motivo: a música que Bernard Herrmann compôs para Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock, e que agora aparecia como parte da trilha do filme de Michel Hazanavicius. O que era para ser uma homenagem do diretor francês acabou por incomodar a atriz Kim Novak, protagonista do filme de Hitch. Novak, de quem nunca mais se tinha ouvido falar, veio a público declarar que o filme de Hazanavicius “poderia e deveria ter sido capaz de se apoiar sozinho” sem ter de depender da trilha composta por Herrmann para “adicionar mais drama”. O diretor limitou-se a responder que seu objetivo era criar uma “carta de amor ao cinema” e prestar um tributo à sua história. Depois de assistirmos aos 100 minutos de duração do filme antigo mais novo em cartaz, não há como negar essa intenção. Mas, se por um lado a reclamação de Novak soa como resmungo de uma mocinha esquecida pelas telas, por outro, o tributo de Hazanavicius recai na forma de um kitsch da História do cinema norte-americano.

O Artista conta a história de um astro do cinema mudo que se recusa a aceitar a passagem para o cinema falado. Enquanto a indústria evolui, ele tem de enfrentar decadência, falência e o esquecimento do público, que o levam a depressão. Porém, uma jovem talentosa o ajuda a se reerguer e retomar a carreira. É como termos os plots de Cantando na Chuva; Nasce uma estrela; Crepúsculo dos Deuses e Luzes da Ribalta todas juntas em um liquidificador. Seu protagonista, George Valentin (Jean Dujardin), é um típico personagem do cinema mudo (que não precisa de “fala”, por ter “cara”, como diria Norma Desmond). Ele sozinho já é uma carga de homenagens à história da velha Hollywood. O nome de Valentin vem do italiano Rodolfo Valentino. Um dos primeiros atores europeus importados por Hollywood, Valentino foi ícone do cinema dos anos 1920, e sua morte repentina, aos 31 anos, ficou marcada como a primeira demonstração em massa de histeria de fãs por um ator de cinema. O bigode e o sorriso canastrão são emprestados de Douglas Fairbanks. Também ícone do cinema mudo, e um dos sócios da United Artists, Fairbanks era famoso tanto por seus filmes como por sua vida pessoal, e acabou se aposentando forçadamente por não conseguir se encaixar no novo cinema. A referência a ele vai ainda além da composição física do “artista”. Em uma das cenas, quando Valentin falido assiste sozinho a um de seus filmes antigos, Hazanavicius usa imagens originais de um dos filmes de Zorro de Fairbanks, substituindo apenas as sequências em close up com Dujardin. Mas isso é só o começo da grande colagem de memorabília da “velha Hollywood” que desfila em O Artista.

A história começa com um filme dentro do filme. Nele, George Valentin é torturado em uma espécie de cadeira elétrica por um grupo de cientistas russos que querem fazê-lo falar a todo custo. Quanto mais ele se nega, mais descargas elétricas são aplicadas a seu corpo, em um efeito que remete a Metropolis, de Fritz Lang. Após o filme, Valentin vai ao tapete vermelho atender fãs desesperadas e jornalistas ávidos por fotos e declarações. No meio do público, está uma aspirante a atriz. Tentando ver melhor o ator, ela derruba sua bolsa no meio do tapete vermelho. Para recuperá-la, a garota se esgueira entre seguranças e mais fãs. Quando consegue pegá-la, sem perceber, está ao lado de George Valentin, sendo alvo dos flashes. Neste início já temos a sensação de déjà-vu, voltando às cenas iniciais de Cantando na Chuva. E ela não para por aí. No dia seguinte, a capa do jornal traz uma foto de Valentin e da garota da bolsa com a manchete: “Quem é a garota?”. Porém, ela não fica anônima por muito tempo. Os quinze minutos de fama ao lado de Valentin a ajudam a ganhar um papel de figurante. Assim, finalmente, Peppy Miller faz sua entrada no mundo dos estúdios de Hollywood. Logo em seu primeiro dia, ela reencontra Valentin. Assim como os personagens de Debbie Reynolds e Gene Kelly, os dois se reencontram em um pequeno número de dança usando como cenário um céu com nuvens pintadas. Apesar de parecerem apaixonados, os dois seguem caminhos diferentes. Valentin, dispensado pelos estúdios por não querer fazer cinema falado, se lança em uma produção independente. A falta de diálogo também coloca seu casamento em crise. Peppy, por sua vez, começa uma carreira de sucesso, mostrada através da ascensão de seu nome nos créditos — mesma técnica narrativa vista em Nasce uma estrela. Com a chegada dos filmes falados, ela se torna a “queridinha da América”. Valentin, no entanto, enfrenta o fracasso de seu último filme, a falência vinda com a crise de 1929, o fim de seu casamento e o esquecimento total. Suas únicas companhias são o cachorrinho Uggie e o motorista Clifton (James Cromwell). Quando Valentin o dispensa, por não ter como pagá-lo, mesmo contra a vontade do fiel funcionário, acaba sozinho. Sem saída, o ator encara seu fim duas vezes. Nas duas será salvo por Peppy, que nunca deixou de acompanhá-lo mesmo a distância, e que irá trazê-lo de volta ao seu lugar: as telas. O número final, a ligação entre o cinema velho e o novo, traz os dois em um número de jazz, em uma referência a Al Jonson e o filme que mudaria os rumos da sétima arte em 1929, mas também as produções de Freddie Astaire e Ginger Rogers. Enquanto todo o cinema falava, os dois só precisavam sapatear.

Com uma história carregada de drama e otimismo, o filme de Hazanavicius tem roteiro redondo, feito sob medida para agradar o público. Mesmo a opção pelo cinema mudo é apenas uma forma de narrativa, não uma escolha artística ousada.  Em alguns momentos, parece que iremos sair do déjà-vu e encontrar algo diferente. Como o que acontece com a sequência do sonho de Valentin. Depois de se reunir com os produtores do estúdio, de ter se deparado com um futuro no cinema onde não existirá lugar para quem não falar, o ator está sentado em seu camarim. Ele se olha no espelho e bebe um copo d’água. Ao colocá-lo novamente na mesa, o som do copo na madeira surge. Com ele, o mundo de Valentin, antes preenchido pela trilha sonora, ganha sons reais. O telefone toca. Seu cachorro late. Um grupo de showgirls passa rindo. Só Valentin não consegue emitir som nenhum neste mundo. Por mais que tente e se esforce é como se ele fosse destinado a ser mudo. Só quando uma pena cai no chão é que descobrimos ser apenas sonho do personagem. Porém, a promessa de uma virada no roteiro acaba por aqui e o diretor retoma outra vez o caminho do óbvio, tanto na estética quanto no roteiro. A queda de Valentin, por exemplo, que começa pelo fracasso de seu filme independente, é ilustrada na tela ao acompanharmos o personagem vivido por ele afundar e desaparecer em areia movediça, tentando alcançar a mão da mocinha. O duplo sentido nas conversas com a esposa que tenta convencê-lo a fazer filmes falados e a discutir a crise do casamento, tenta ser singelo em frases como: “temos que falar”, “precisamos falar”. O título do filme de Peppy que Valentin assiste em um cinema, pouco antes de ter seu primeiro acidente, entrega o papel dela: “Guardian angel” (Anjo da guarda). Tudo acaba recaindo para um roteiro previsível, que perde a chance de ser uma homenagem e se torna um pastiche de Wilder, Lang, Murnau, Chaplin e tantos outros que fizeram cinema antes de Hazanavicius. Sim, O Artista tem momentos emocionantes, bela trilha sonora e o cachorrinho Uggie para roubar a cena. Mas, no fim, ele acaba sendo apenas mais um dos filmes produzidos no ano que o cinema resolveu sentir saudade dele mesmo.