“É claro e evidente que o mal se insinua no homem mais profundamente do que supõem os médicos socialistas. Em nenhuma ordem social é possível escapar ao mal e mudar a alma humana.” A frase de Dostoiévski coloca o bem e o mal como dois impérios em constante batalha dentro do espírito humano. O mal, tanto quanto o bem, faz parte da nossa natureza e é despertado como um instinto natural do homem. Portanto, negar que ele exista em todo homem é negar ser humano. Se analisarmos o estado selvagem do próprio homem, veremos que o mal e a violência gerada por este fazem parte do nosso instinto de sobrevivência. Porém, desde que a civilização nasceu, juntamente com seus mitos fundadores que confrontavam bem e mal como dois seres distintos (por exemplo, as histórias de Caim e Abel ou Rômulo e Remo), ficou determinado por lei que um indivíduo é bom (certo) ou é mau (errado). Os dois lados já não poderiam coexistir dentro de um mesmo ser. O livre-arbítrio é o que permite ao homem escolher aquilo que ele quer ser. Mas e quando nossos instintos são mais fortes que a razão? É este o confronto que vemos retratado no novo filme de Roman Polanski, Carnage. Baseada em uma peça da escritora francesa Yasmina Reza, chamada Le dieu du carnage (em tradução literal, “o deus da carnificina”), a história se passa em tempo real, mostrando o encontro de dois casais reunidos para discutir a briga que seus filhos tiveram no parque.

A guerra de tribos

O filme começa mostrando o desentendimento entre os garotos. Assistimos tudo com a câmera colocada à distância. Ao fundo, uma trilha dá o tom de suspense. Em um canto dois garotos brincam e brigam pela posse de uma bola de basquete, quase nos distraindo da ação que se passa ao seu lado. É ali que ocorre o fato que vai motivar o enredo. Um grupo de meninos está conversando, de repente um deles é empurrado. Vemos o que parece uma discussão onde todo o grupo se coloca contra aquele garoto. Enquanto ele começa a se afastar, os outros o seguem. Eles caminham em linha reta se aproximando da câmera. A discussão continua. Um dos meninos do grupo se aproxima como quem vai atacar. O menino que havia sido empurrado segura um pau nas mãos e acaba o usando para se defender. Ele acerta o outro com um golpe no rosto. O menino que atacou vai embora. O menino que foi atacado é rodeado pelas outras crianças. Como em um documentário sobre a vida selvagem, Polanski narra assim a briga entre Zachary (vivido por seu filho Elvis) e Ethan. Corta para a próxima cena e vemos os pais dos garotos reunidos em frente a um computador, escrevendo uma espécie de boletim de ocorrência, onde relatam que Ethan, o garoto agredido, perdeu dois dentes e sofreu danos nos nervos do lado direito do rosto. Penelope (Jodie Foster) e Michael Longstreet (John C. Reilly), os pais de Ethan, recebem em casa o casal Cowan, Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), pais de Zachary, na tentativa de resolver o que se passou entre as crianças. Apesar de se tratarem com polidez, vemos desde já uma leve tensão entre eles enquanto cada um tenta defender o próprio filho.

O anjo exterminador

O assunto parece resolvido e, enquanto os Cowan se dirigem a porta para ir embora, falando sobre banalidades, Penelope retoma a questão das crianças dizendo que gostaria que Zachary pedisse desculpas a seu filho. Desde o figurino escolhido para a personagem, podemos ver que se trata de uma mulher controladora, sistemática, apegada a regras. Apesar de ela trabalhar em uma livraria, o marido diz que é escritora, porque já foi coautora de um livro. Agora, ela pesquisa sobre o genocídio de Darfur, na África. O marido, Michael, parece apenas obedecê-la. É um homem que, a princípio, concorda com tudo o que é dito, seja pela esposa ou pelos visitantes. Vendedor de artigos para casa, como descargas e maçanetas, ele é o típico boa-praça, pacificador. Ao contrário de Alan. Desde o início é ele quem discorda das posições tomadas por Penelope. Advogado, passa todo o tempo no celular falando sobre o caso de uma empresa farmacêutica que está sendo processada pelos efeitos colaterais apresentados por um de seus medicamentos. Ele orienta que seus assessores deem declarações manipulando a imprensa, negando todo o tipo de acusação, mesmo que estas se provem verdadeiras. Alan é cínico nas suas repostas, a ponto de ser insensível (chama o próprio filho de “maníaco”), e mostra que está tão ocupado com seu trabalho que não tem tempo de se importar com o problema dos garotos. Nancy, sua esposa, uma investidora da bolsa, já se mostra mais preocupada. Tenta responder as perguntas de Penelope e resolver a situação da maneira mais diplomática possível. Até aqui todos parecem adultos avaliando uma briga de crianças, porém, assim como a atitude das crianças se mostrou puro instinto, também os adultos deixarão os seus aflorarem com o decorrer da trama.

Em Carnage temos o encontro de O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, e Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman. Assim como no filme de Buñuel, há algo no apartamento que faz com os personagens fiquem presos ali. Nancy e Alan tentam ir embora três vezes, mas sempre tem algo que os faz voltar e continuar a conversa com os Longstreet. O eco de Bergman vem quando os quatro vão se despedaçando mediante o confronto que vai além da briga das crianças, coloca em xeque seus casamentos, a maneira como criam os filhos, seus princípios diante do mundo. A sala de estar vira um campo de batalha. Primeiro temos casal contra casal, depois homens se unem contra mulheres. Temos os adultos entregando-se a sua natureza cruel, deixando de lado a falsidade da cordialidade que eram obrigados a usar em nome da etiqueta social. Assim, vem à tona o lado infantil (ou seria humano?) de cada um deles. Para ilustrar isso, Polanski dá a cada um dos personagens um objeto de apego. Alan tem o celular, que o leva virtualmente para longe da sala e dos problemas de sua vida familiar; Penelope tem seus livros de arte, colocados impecavelmente sobre a mesa de centro; Nancy tem a bolsa onde guarda o batom e o espelho que consulta algumas vezes para arrumar o cabelo; Michael tem o uísque e o telefone onde sua mãe não para de ligar. Cada um deles perde suas coisas em algum momento da trama e suas reações mostram o quanto são ligados a elas, como crianças com seus brinquedos. Eles choram inconsoláveis diante da perda material. A relação de Michael com a mãe, por exemplo, é usada para infantilizá-lo todo vez que ele atende suas ligações. Se ele é rude com a esposa quando perde a paciência, e grita que “o casal e a família são os piores castigos de Deus!”, para a mãe não cansa de dizer “eu te amo” a cada vez que desliga o telefone. O que cada um dos pais defende em relação ao caso ocorrido entre seus filhos serve apenas como gatilho para confrontar suas personalidades humanas, demasiadamente humanas.

Penelope parece exigir desde o início uma punição para o “criminoso” que agrediu seu filho. Ela se mostra chocada quando Nancy revela que o motivo da briga, segundo Zachary, foi que Ethan não o deixou entrar em sua gangue. Ela, a mãe que sabe como criar seus filhos, é informada pela mãe de um menino que recorre à violência que seu filho tem uma gangue. Se Michael mostra até um certo orgulho, lembrando que ele tinha uma gangue e havia batido em um garoto em seus tempos de escola, ela fica chocada. Penelope quer impor ao mundo aquilo que ela acredita ser justiça. Ela estuda um conflito na África, não por compaixão às vítimas, mas porque, de acordo com sua moral, como americana, residente em Nova York, ela tem que se importar em levar seus “valores ocidentais” aos que ainda vivem de forma primitiva. Por isso ela não se permite gritar ou agir de qualquer forma impulsiva. Quando atinge a catarse, ela estoura exigindo que Nancy castigue o filho porque “eles não são livres!”. Ela chega a chamar o garoto de 11 anos de “ameaça à segurança nacional”. É a personagem que mais vai a extremos na história. Já Nancy nos entrega a cena clímax do filme: os personagens ainda se contêm quanto ao tratamento que dão uns aos outros, quando ela, que reclamava não estar se sentindo bem, acaba vomitando em cima da mesa de centro. É um discurso visual diante do qual as verdadeiras personalidades vão começar a aflorar. A partir dessa cena os personagens soltam-se das amarras sociais e entregam-se à “carnificina”.

Ao tentarem racionalizar uma atitude de crianças, os pais acabam tendo de se confrontar com seus próprios limites morais. Hannah Arendt diz que “a razão é o que torna o homem egoísta; ela impede a natureza ‘de se identificar com o sofredor infeliz’”. Vemos isso manifestado na mãe que não consegue enxergar que outra criança pode estar tão machucada quanto seu filho, ainda que esta ferida não seja física. Embora na atitude dela seja possível ver uma ação natural da mãe que protege o filho como uma leoa, ela ainda se mostra dominada por sua razão, que ordena que ela deve seguir o código de moral que rege sua sociedade. Penelope, apesar de ser uma estudiosa de civilizações e comunidades, também prefere ignorar o elemento do instinto que pode ter motivado Zachary a atacar seu filho, porque para ela a violência não é aceitável sob nenhuma circunstância. Alan a confronta com essa ideia ao dizer: “Eu acredito no deus da carnificina. Um deus cujas regras não foram desafiadas. (…) Eu acabei de voltar do Congo. Há crianças lá de 8 anos treinadas para matar, e durante sua infância talvez matem milhares de pessoas. Matam com um machado, uma arma de fogo… Então, obviamente, quando meu filho ataca outra criança, arrancando-lhe um dente, ou mesmo dois dentes, não me impressiona, nem me indigna tanto quanto a você”. Ele não está defendendo a atitude do filho, mas tenta explicar a Penelope que ser violento é algo compreensível enquanto atitude humana.

Cenas de um apartamento

Com humor, Polanski realiza em Carnage uma sátira da sociedade moderna, presa a seus códigos morais e suas leis, obrigada a dominar constantemente o seu lado selvagem. É interessante que Polanski tenha escolhido o texto exatamente no momento em que ele mesmo se via preso. Apesar de estar ambientado no Brooklyn, em Nova York, o filme foi todo rodado em um estúdio em Paris. Na época, Polanski estava proibido de sair de lá, ainda respondendo a acusação de estupro de uma garota de 13 anos, que teria ocorrido nos anos 1970, nos Estados Unidos. Toda a história se passa no apartamento do casal Longstreet, exceto pelas cenas do parque que abrem e encerram o filme. Ao contrário de clássicos, também ambientados em apenas uma locação, como Hitchcock o fez com Festim Diabólico, Disque M para Matar e Janela Indiscreta, Polanski quase não utiliza planos sequência. Sua câmera está mesmo interessada em mostrar os rostos dos personagens, suas reações e gestos. O elenco também foi escolha acertada, especialmente os personagens masculinos. Mesmo sendo difícil olhar para Christoph Waltz sem enxergar a sombra do oportunista sádico Hans Landa, de Bastardos Inglórios, ele parece ter nascido para viver tipos cínicos como Alan Cowan.

Em sua direção, Polanski mantém-se fiel à linguagem teatral, utilizando, além da fina trama textual do roteiro (escrito por ele e por Yasmina Reza), o “diálogo” dos atores com os objetos de cena. No fim, Carnage é um belo ensaio sobre a questão humana, sobre o que faz de nós animais civilizados, entregue com a assinatura de Roman Polanski e sua própria carga de erros e acertos como pai, como marido, como homem.