Festival do Rio 2015 – Comentários (Parte I)

Por Virgílio Souza

Em breve passagem pelo Festival do Rio, que segue até esta quarta-feira (14), deixamos impressões a respeito de filmes vistos no festival.

20151005-right-now-wrong-then-papo-de-cinema-03

Right Now, Wrong Then (2015), de Hong Sang-soo

Sang-soo é um artesão da forma a serviço do olhar e da imprevisibilidade narrativa que parte de esquemas muito simples. Aqui, ele não se vale da mesma manipulação temporal de Hill of Freedom, um filme muito mais entrecortado, mas trabalha diferentes perspectivas sobre o mesmo conjunto de eventos — ou ao menos o mesmo evento central, o encontro de um cineasta e uma aprendiz de pintora na cidade de Suwon, que ele visita pela primeira vez na carreira. Alterando a ordem das cenas, até repetindo uma porção delas, o filme produz sentidos diferentes, compilados em dois títulos, Right Then, Wrong Now e Right Now, Wrong Then. A forma como as distintas perspectivas são abordadas, porém, não estabelece um embate claro entre elas, apenas a ideia de que a mesma encenação pode indicar múltiplos olhares. É ainda interessante como o diretor segue enquadrando e reenquadrando planos na própria câmera, que se aproxima dos atores pelo zoom e sem cortes, não por capricho, mas porque se trata de uma forma de aproximar a lente, literal e figurativamente. A figura masculina, um sujeito beberrão e sem muitos filtros sociais, adepto fiel e incorrigível da sinceridade ilimitada, talvez seja o melhor sinal de que Sang-soo segue trabalhando os mesmos temas, explorando novas possibilidades estruturais. O naturalismo das interpretações e a relação construída entre o casal de personagens, neste contexto formal e de extremo apuro estético, é o que aproxima o filme da realidade, mas parece evitar tocá-la.

11minutes
11 Minutos (2015), de Jerzy Skolimowski

É inevitável pensar que o título poderia muito bem ser a duração do filme — e que ainda assim a fonte de tédio não se esgotaria. Como se buscasse criar uma versão mais cafona da trilogia de Iñárritu (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel), Skolimowski aposta na não-linearidade de roteiro e na mão pesada que controla a câmera para narrar, em fragmentos, as histórias de pessoas conectadas pelo acaso (ou por qualquer outra coisa do tipo). Trata-se de um exercício fútil, sustentado em truques como repetir o som escandaloso da passagem de um avião para pontuar o tempo, decisões absurdas e injustificáveis como adotar o ponto de vista de um cachorro, e caricaturas como o cineasta que grava suas relações com potenciais atrizes e que prefere ser chamado de “Dick”. A tensão é enganosa, sobretudo porque o desfecho catastrófico, explosivo e inexplicável é completamente deslocado do restante do filme, que se leva tão a sério.

maravigli_f04cor_2015110441
Maravilhoso Boccaccio (2015), de Paolo e Vittorio Taviani

A adaptação livre dos irmãos Taviani parte de um interesse bastante específico no registro oral de histórias. O refúgio de um grupo de amigos e casais em um casarão às margens de uma Florença tomada pela peste é o espaço para que sejam apresentados pequenos contos, relacionados ou não com a realidade vivida pelos contadores. Contudo, o filme se perde no limbo entre a literatura originária, a teatralidade das performances dos atores e seus aspectos cinematográficos. O que há de cinema, para além da estilização dos figurinos e cenários, é a música impositiva, que tenta guiar sensações pela via do humor leve, mais do que pela sexualização ou o romance, frequentes em outras versões da obra de Boccaccio. Ainda, o elo que liga os relatos parece desimportante e gera a sensação de que uma estrutura estritamente episódica poderia ser mais frutífera do que a tentativa de amarrar tantas partes em uma só linha.

festivals_injacksonheights__article-house-780x440
Em Jackson Heights (2015), de Frederick Wiseman

É curioso o movimento de Wiseman cada vez mais em direção à ideia de Anders Petersen, que vê a câmera como instrumento para que se chegue ao que interessa: pessoas e coisas. Em um panorama cheio de cineastas que abraçam a fotografia como último e único recurso e que sofrem aversão a museus, ele havia realizado National Gallery e Em Berkeley, um par de filmes sem medo de (outra) arte e da academia. Agora, seu olhar se volta para o multiculturalismo de uma das áreas mais diversas do planeta. O leque amplo gera trechos mais e menos interessantes, mas o retrato completo depende também desses últimos, porque o diretor é capaz de registrar tudo com admiração por aquelas lutas diárias sem jamais evitar o conflito.

mon-roi-cannes-film-festival-2
Mon Roi
(2015), de Maïween

O filme parte de uma boa ideia, fundamentada no acidente sofrido pela personagem de Emmanuelle Bercot, que a leva a uma lesão grave no joelho. Em recuperação, ela escuta de uma psicóloga que aquela é uma parte do corpo que só se movimenta para trás, sugerindo uma relação entre o problema físico e questões emocionais e transportando o espectador a uma segunda linha do tempo, focada no exaustivo drama de casal que a levou a tais complicações. De algum modo, é como se Maïween tivesse em mãos uma premissa razoável, mas que é interessante por si só, não como ponto de partida para o que aqui concentra as atenções. Das duas tramas, uma ascendente, de recuperação, outra de declínio em queda livre, apenas a primeira possui impacto — e a segunda, que deveria erguê-la, funciona mais como âncora. A diretora também não possui qualquer retração, pintando tudo com cores muito fortes, tentando extrair drama de absolutamente todo plano. As presenças da protagonista e de Vincent Cassel até levam a trama adiante, mas os recursos da diretora parecem muito limitados. O joelho se recupera e a personagem principal volta à vida. O caso do filme parece ser mais sério.

Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015)

Por Vlademir Lazo

Assistir Que Horas ela Volta? traz à tona a lembrança da Vera Cruz a rondar como um espectro o cinema brasileiro décadas depois de sua precoce extinção.  A Vera Cruz, na verdade, nunca deixou de existir, com os nossos filmes que se pretendem neo-realistas, mas conseguem ser pouco mais que um melodrama barato com pano de fundo social. Assim foi com a maioria dos que conciliaram sucesso popular e de crítica e êxito internacional que tivemos desde O Cangaceiro (que espelhava uma realidade relativamente recente à época, a do terror do banditismo do sertão envolto em lendas), passando por O Pagador de Promessas, Pixote, Central do Brasil, Cidade de Deus, O Som ao Redor até chegar ao filme de Anna Muylaert.

Um sucesso condenado a se repetir a cada dez ou vinte anos (e, pelo visto, com um intervalo cada vez menor), assimilando as modas estéticas de seu tempo e refletindo na tela as contradições sociais de um país, ganhando prêmios e colhendo elogios aqui e no exterior.  Filmes que não ajudaram na evolução de uma cinematografia, mas na sua estagnação; pois nenhum deles rendeu frutos na influência de obras relevantes feitas posteriormente (o movimento do Cinema Novo, por exemplo, seria muito mais uma reação a filmes como O Cangaceiro e O Pagador, ainda que parcialmente incorporado depois ao cinema oficialesco), tampouco a carreira de seus realizadores (com a exceção de Babenco, que mantém uma filmografia mais ou menos consistente). Pode-se dizer que ainda é cedo para se prever o legado de um O Som ao Redor e Que Horas Ela Volta?, mas não é um pecado, e sim um dever, pensar no que ficará de uma obra daqui a dez ou cinquenta anos.

Um dos desafios de Que Horas ela Volta? é o de convencer que Regina Casé pode estrelar um melodrama, acostumado que estamos a vê-la em comédias escrachadas e programas de auditório na TV. Encaixa-se, então, o seu tipo um tanto exótico, fora dos padrões de beleza, no papel da empregada doméstica, uma das obsessões temáticas do novo cinema brasileiro, que permite tornar o cinema um campo para debates sociológicos e empatia fácil. O que Muylaert se esmera em conseguir através de uma dramaturgia mal-ajambrada, especialmente por uma série de vinhetas no começo apresentando a personagem em meio à casa dos patrões, onde ela mora, de forma a provocar comiseração e constrangimento em torno de sua figura.

500267

O que deflagra uma arejada na narrativa é a entrada em cena da filha Jéssica (Camila Márdila), que de Pernambuco chega em São Paulo para prestar vestibular, e provoca um curto a desestabilizar um ambiente carregado por demais de estereótipos. Em que muito é sublinhado em excesso, explicitado desde cedo, de modo que a maioria dos espectadores pode adivinhar facilmente que é Jéssica, e não o filho do patrão, que vai passar no vestibular, e despertar o desejo tanto do filho quanto do homem mais velho da casa, e o ódio da esposa, simbolizado com muitas caras e bocas. O filme dada a sua previsibilidade faz com que estas revelações passem longe de serem spoilers.

Estivéssemos num Pasolini dos anos sessenta um elemento intruso como Jéssica deflagraria a destruição da família devorando um por um de seus membros. Não se trata de defender como o filme deveria ser feito ou não, porém o de mostrar o quanto Que Horas ela Volta? é conformista e com um olhar a partir da Casa Grande. O filho mimado terá a compensação da viagem para a Austrália, e o patrão ao ser rejeitado pela menina, na patética cena do pedido de casamento (que se levada a sério só o poderá com, mais do que cumplicidade, a condescendência do público), se safa da situação dizendo, com gaguejos, que só estava de brincadeira. O que é uma entre outras resoluções de roteiro simplistas demais, que inclui facilidades como o gesto final de libertação da protagonista-empregada, cuja atitude não se desenvolve paulatinamente desde um certo ponto da narrativa, e sem preparação nenhuma irrompe como catarse no desfecho. De resto, ideias ficam pela metade, precisando serem preenchidas na mente do espectador, não por uma ambiguidade ou mistério estimulados pelo filme, mas pela incompletude de seus alicerces.

O filme de Muylaert é a representação de uma nação conservadora, mas não há espírito crítico, apenas uma aceitação por os mais pobres romperem barreiras como a falta de inclusão na universidade (em O Som ao Redor era a inclusão pelo consumo, sintetizada pela compra dos modernos e grandes aparelhos de TV). Se não há secura existencial em sua escolha pelo melodrama, tampouco existe subversão na suposta crítica social pelo qual tem sido louvado, e que serviu para alimentar debates, pois nas assimilações de costume, concretizadas de tempos em tempos numa sociedade, nem sempre mudanças acontecem para impedir que as coisas continuem como sempre foram. Que Horas Ela Volta?, nos seus riscos calculados, funciona como um exercício para a consciência culpada do espectador frente ao país em que nos encontramos, enquanto é entretido num melodrama beirando o novelesco e supostamente bem-filmado. Se depender dos filmes, de Central do Brasil até Que Horas Ela Volta?, em termos cinematográficos o país não mudou muito.

Chantal Akerman e o cinema das vacas magras

Por Fabio Ramalho

No episódio da série Cinéma de notre temps: Chantal Akerman par Chantal Akerman (1997), a diretora recorre a uma anedota para articular a sua relação com o cinema. Um homem, conta-nos Akerman, passava por sérias dificuldades financeiras e resolve vender sua última vaca. Ele a leva para uma feira livre onde a deixa exposta e começa a anunciar de maneira muito simples, “aqui está minha vaca; minha vaca é uma vaca é uma vaca é uma vaca”.[i] Mas todos estão oferecendo suas vacas com muito entusiasmo e ressaltando suas muitas qualidades, de modo que ao fim do dia todas já foram vendidas, exceto a sua. Um dos vendedores então se aproxima e observa, “mas você não vendeu ainda sua vaca?”, ao que o homem responde: “minha vaca não é lá grande coisa, ela é muito magra”. O vendedor então toma para si a tarefa e se coloca a anunciar: “vejam esta vaca, ela é muito boa, ela faz filmes, ela não tem medo de nada etc.” O vendedor atribui tantas e tão variadas qualidades à vaca, com o objetivo de seduzir os passantes, que o dono por fim hesita: se ela é tão boa assim, por que ele deveria vendê-la? Por sorte, diz Akerman, a essa altura o negócio já havia sido fechado.

Akerman diz que ama o cinema quando são os outros que falam. Resulta-lhe difícil interessar-se por si mesma, daí a dificuldade que encontra, ela nos diz, em cumprir a tarefa que lhe foi designada pelos produtores da série: a de fazer o seu autorretrato. Mais que isso, é em grande parte pelas pessoas amigas, parceiros, colaboradoras e críticos, através daqueles e daquelas que depositam um olhar sobre a obra, que ela ama seus filmes. A semelhança com o processo de constituição de si como sujeito através de um outro que nos devolve nossa imagem como num espelho não é, evidentemente, casual. Aqueles que falam sobre o seu cinema seriam como o vendedor que lhe acrescenta múltiplos atributos. Esse olhar que retorna, que dá forma e consistência ao corpo da obra, é o que renova a convicção no seu ofício. Temos aí uma bela inflexão da compreensão do cinema como exercício coletivo. Ele é coletivo também porque depende do gesto de abertura que permite que uma juntura se forme entre obra e espectador/a. O que se estabelece é, então, uma relação de cumplicidade.

É por isso que, afinal, Akerman pode dizer que gosta de sua vaca mesmo que ela seja magra, ou melhor, sobretudo porque ela é magra. Temos aí, talvez, uma das maneiras mais eficazes de sintetizar o seu “cinema menor”, como foi algumas vezes definido, em referência ao conceito de literatura menor de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Um cinema de vagas magras, que se constitui na precariedade, austero – num possível desdobramento da austeridade que a realizadora afirmou ter desde sempre vivenciado e conhecido no seio de sua família judia, atravessada pelo trauma histórico da perseguição e dos campos de concentração.

Durante algum tempo eu me interroguei sobre os motivos pelos quais esse depoimento de Akerman para Cinéma de notre temps me comove cada vez que o revejo. Em primeiro lugar, sem dúvida, está o lugar que a voz da cineasta ocupa nos seus filmes. A voz atua como veículo para expressar as afecções daquela que fala e também para criar um vínculo com as pessoas que a ouvem. O cinema de Akerman explorou essa potência da fala intensamente. E ainda semana passada, quando lia uma entrevista dada a Nicole Brenez para a revista Lola,[ii] eu pensava em como poderia passar horas ouvindo-a falar, e como ler suas entrevistas era quase como escutá-la.

Chantal Akerman foi uma cineasta que muitas vezes me fez ignorar as salutares suspeitas pós-estruturalistas e me lançar ao exercício (sempre falho) de tentar traçar os liames entre corpo em cena, autoria e sujeito biográfico. Talvez porque seu passado e o de sua família sejam tão fortemente figurados nos filmes; talvez porque sua trajetória entre Bruxelas, Nova York e Paris seja tão fascinante. É mesmo difícil não cair no risco de correlacionar vida e obra; não acabar sucumbindo, vez por outra, à atração do anedótico: os relatos se espelham e se multiplicam entre filmes, textos e entrevistas. Um exemplo dentre muitos possíveis: a leitura do diário da avó, com as passagens sobre a solidão decorrente de sua condição de mulher que apenas encontra conforto na escrita íntima, é figurada numa cena tocante de Demain on déménage (2004), quando Sylvie Testud e Aurore Clément lêem o que parece ser uma transcrição quase literal do texto do diário real e permanecem um tempo paradas, fumando, partilhando esse momento de enlace entre gerações, gestado no silêncio da madrugada.

Outro vínculo incontornável: a relação obsessiva entre mãe e filha, que desponta na sua filmografia com toda força em News from home (1977) – as cartas da mãe lidas naquele tom monocórdio e meio debochado de filha insolente – e encontra sua variação mais bem-humorada em Tout une nuit (1982). Neste, há um breve plano em que uma senhora sai à frente de sua residência para fumar, absorta, e uma voz vinda do interior da casa a interpela insistentemente, perturbando o momento furtivo de pausa para o cigarro – momento este, como sabemos todos que alguma vez cultivamos esse hábito, de valioso recolhimento e introspecção. A mulher é a mãe de Akerman, e a voz que a chama uma e outra vez é a da própria diretora.

De fato, sua voz se multiplica por toda a sua filmografia: é a inscrição derradeira e mais contundente de seu corpo e de sua singularidade. É dela a voz da vizinha que aparece à porta, mas que não podemos ver, e pede à protagonista em Jeanne Dielman, 23, quai du commerce,1080 Bruxelles (1975) que cuide de seu filho, entre comentários banais sobre o cotidiano. É dela também a voz da madre superiora em La folie Almayer (2011). Sempre fora de campo, como que atravessando cada filme e, gosto também de pensar, lançando uma piscadela em direção a nós: eu estou aqui.

Mas se a própria diretora tantas vezes sugeriu, ela mesma, linhas capazes de inscrever certas contingências e fazer aderir algo de seus trajetos pessoais à materialidade das imagens que criava, ela deixou claro também que a fratura é incontornável e que os esforços de reconstituição dos percursos de uma vida se deparam numa proliferação de pontos cegos. Ela não apenas desautorizava qualquer transposição ingênua, mas desafiava a fixação de qualquer dado factual. Veja-se a esse respeito De l’autre côté (2002), seu documentário sobre os latinos – mexicanos e centro-americanos – que cruzam a fronteira para os Estados Unidos, o qual termina com o belo relato sobre os rastros de uma mulher, mãe e migrante que desaparece. O relato nos fala dessa figura evanescente cujos traços de gestos e hábitos efêmeros conduzem afinal a uma interrogação sem resposta: onde estará? A busca dos vestígios termina na apreensão de uma fantasmagoria. A voz da cineasta – uma vez mais sua voz – nos diz, concluindo: “deve ter sido uma alucinação”.

Temos aí uma variação insuspeita de Albertine/Ariane, a mulher desaparecida em La captive (2000), adaptação da obra de Proust realizada dois anos antes. Chama a atenção, aliás, que a cineasta tenha decidido terminar o documentário sobre o problema político da fronteira com uma mudança tão acentuada de tonalidade, centrando os últimos minutos do longa-metragem em palavras que assumem um teor tão fortemente elaborado, como uma espécie de requinte que escolhe dotar aquela vida migrante de um registro marcado pelo afastamento de qualquer resquício de abordagem sociologizante.

Mesmo nos casos em que a presença em cena remonta à própria realizadora, a visibilidade do corpo não se presta ao estabelecimento confortável de um fio capaz de unir realidade e ficção. O corpo se encontra sempre, pelo contrário, mobilizado como recurso expressivo mediante um borramento de fronteiras: é e não é. Como observou Ivone Margulies[iii], o seu modo de filmar favorece uma oscilação constante entre figuração e literalidade, entre a materialidade do corpo da performer e a personagem da representação. Esse “registro dual” se estende ainda à disjunção entre roteiro e fala, ou seja, ao estatuto da voz, objeto da minha própria obsessão.

Há ponto de ancoragem possível? É justamente esse problema que a demanda do autorretrato postula. A esse respeito, torna-se especialmente eloqüente o final do seu depoimento em Cinéma de notre temps. Se no inicio a cineasta havia alertado que era uma “narradora pouco confiável” e chamado a atenção para o fato de que, afinal, “a sinceridade é um artifício”, depois de muitas tentativas, bem como de uma longa sequência de planos de filmes reeditados em conjunto, ela volta ao centro da câmera e os termos do seu autorretrato são enfim estabelecidos: “Eu me chamo Chantal Akerman e nasci em Bruxelas. E isso é verdade. Isso é verdade.” Depois de tantas hesitações e incertezas, a realizadora se reencontra no retorno aos dados mais simples: seu nome e sua designação de origem.

E não é isso que o seu cinema sempre fez? Da mulher deitada na cama de seu quarto no curta-metragem La chambre (1972), à mulher reclusa no espaço de outro quarto com apenas um colchão, algumas folhas de papel rabiscadas e um saco de açúcar, em Je tu il elle (1976), passando pela mulher entrincheirada num quarto repleto de móveis e objetos amontoados em L’homme à la valise (1983) – e uma variação dessa mesma imagem, décadas depois, com Sylvie Testud tentando escrever em meio ao caos em Demain on déménage –, chegando à mulher que observa Israel da janela em Là-bas (2006), Akerman refez sempre o mesmo movimento de voltar ao mínimo, aos elementos mais básicos da realidade e a partir daí tentar delinear um território próprio onde seria possível existir.

Neste dia que marca a notícia de sua própria desaparição, o ímpeto de retornar à sua imagem, à sua fala e aos seus vestígios se mostra um exercício de certo modo inescapável. Volto ao depoimento pelo qual tenho especial apreço: “Eu gosto da minha vaca sobretudo porque ela é magra”. Dentre tudo aquilo que já li e ouvi sobre imagem e cinema, essa é sem dúvida uma das declarações mais enternecedoras.

[i] Há várias referências ao verso de Gertrude Stein em filmes e entrevistas de Akerman.

[ii] Chantal Akerman: The Pajama Interview (2011), por Nicole Brenez, disponível em http://www.lolajournal.com/2/pajama.html.

[iii] Ivone Margulies, Nothing happens: Chantal Akerman’s Hyperrealist Everyday. Duke University Press: Durham and London, 1996.

Pai e Filhos (Wang Bing, 2015)

Por Marcus Martins

Pai e Filhos parte de um dispositivo e premissas tão rígidas que assume o risco de alienar o expectador durante a quase totalidade de sua duração. Pai, dois filhos e três cachorros habitam um minúsculo cômodo com uma única cama e uma infinidade de objetos espalhados por todo canto e uma televisão que está sempre ligada. Confinados em um único e dilapidado cômodo junto na maior parte do tempo vemos  um único personagem, um dos filhos, que passa as suas horas hipnotizado por um aparelho de telefone celular, tornando aquele isolamento também o de quem assiste. A passagem do tempo e o isolamento imposto estão gravados também no comportamento dos cães, os mais velhos, completamente resignados parecem entregues ao torpor enquanto o filhote ainda tenta em vão encontrar algum seu lugar.

Percebemos que os personagens pouco interagem. O pai trabalha à noite enquanto os filhos dormem na única cama, enquanto os filhos vão provavelmente à escola enquanto aquele dorme.

Curiosamente um dos filmes mais curtos de Wang Bing com apenas cerca de 90 minutos e ainda assim ele consegue imprimir a passagem do tempo em sua imobilidade. Nenhuma informação é concedida ao expectador, além de breve plano externo que sugere o motivo do isolamento e a condição dos personagens. Toda a informação, a vida mesmo, está fora do campo. Seja o que está fora do alcance das lentes e o que se faz fora daquele cômodo, seja o que lhe consome as horas na tela da televisão e do celular.

Apenas ao final da projeção um breve texto expõe aquilo que nos fora sonegado. O evento que determinou o destino do filme também termina por ser a melhor indicação de como vivem aquelas pessoas.

A pior acusação ao filme pode também ser a sua melhor explicação, um filme abortado e inconcluso, mas que se constrói justamente a partir de tal evento, vez que diante de ameaças do patrão do operário que não gostou de descobrir as filmagens não autorizadas, Wang Bing não teve como concluir o que quer que tivesse projetado e fez disso o artifício que sustenta o filme. Para quem construiu sua carreira à margem da anuência estatal, tocando em temas delicados e indesejados, mas sem em momento algum assumir a faceta de um cineasta político, isso é muito sintomático das circunstancias em que está inserido e de por que adota seus procedimentos.

Filme visto no Indie Festival

Tangerina (Sean Baker, 2015)

Por Marcus Martins

Tangerina é a última incursão de Sean Baker nas histórias de amizades em meio a universos e situações pouco usuais. Depois do emigrante chinês trabalhando em delivery de Take Out, o vendedor de muamba na Broadway que tem sua vida desestabilizada por uma chegada inesperada em Prince of Broadway e do encontro inusitado entre uma atriz de filmes pornográficos e uma idosa solitária em Uma Estranha Amizade chegamos às perambulações de transexuais negras que se prostituem nas ruas de Tinseltown. O filme acompanha uma delas que acabou de sair de um período na prisão no dia de Natal e sua amiga que lhe ajuda na procura de seu cafetão/namorado e de uma possível rival que teria tomado seu lugar.

Os filmes de Baker são o epíteto do filme indie descompromissado, filmados em digital com poucos recursos e condições técnicas, roteiros construídos muitas vezes em colaboração com os atores e abordagem semi-documental. Tangerina ganha ainda o chamativo de ter sido filmado com câmeras de telefones móveis. Apesar disso o filme tem especial apuro técnico e foram utilizados todo tipo de suporte para estabilizar a imagem.

O título do filme deve-se provavelmente à cor alaranjada que ganha destaque em especial nas cenas externas durante o fim de tarde. O uso de celulares se justifica pelo ponto de vista documental do filme, que se pretende como registro das situações que muitas vezes parecem transcender a encenação e pleitear o status de flagrante. Dentro de toda a limitação e exaustão da tola fronteira entre o ficcional e o documental, Baker consegue transmitir dignidade e respeito a seus personagens.

tangerine

Mesmo que seja bem sucedido o uso dos celulares e que o artifício encontre alguma justificativa no que se representa, o interesse e trunfo de Tangerina é saber usar o documental como forma de dar espaço aos personagens.

As transexuais possuem uma das mais assimiladas formas de auto-ficção do mundo contemporâneo dentro de sua própria identidade, pois não apenas constroem sua identidade de gênero como no jogo das ruas encarnam suas personagens como se nada mais houvesse. Isso termina por não apenas gerar cenas cômicas e em aparentes improvisos de grande vigor como na cena culminante do filme quando do bate-boca dentro da loja de donuts, mas especialmente na cena da lavanderia. As questões de amizade nos três filmes anteriores de Baker giravam em demonstrações de amizade onde não eram esperadas e dos efeitos muitas vezes libertadores disso. Aqui ele parece seguir nesse mesmo sentido quando uma guinada inesperada traz novas possibilidades para as histórias de amizade e a mudança de tom do epílogo do filme faz imaginar que podemos esperar bastante dos próximos filmes dele.

Se Tangerina não alcança a mesma força narrativa de Uma Estranha Amizade, as atuações de Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor como verdadeiras co-autoras do filme eleva o filme ao emprestar vida a suas personagens com uma riqueza que nenhum roteiro poderia. Não é apenas o fato de dar voz a personagens transexuais, mas a não lhe negar dignidade e um rosto. O que pode parecer pouco em termos de ficção, mas que seria impossível alcançar esse nível de naturalidade documental com atores profissionais encenando transexuais.

Cemitério de Esplendor (Apichatpong Weerasethakul, 2015)

Por Marcus Martins

Soldados com uma misteriosa doença do sono, um hospital improvisado em uma escola que foi construída sobre um antigo cemitério, mas que logo deve ser derrubada por uma nova construção. Uma jovem que se comunica com os mortos tenta ajudar as famílias dos soldados a se comunicar com seus entes, uma voluntária com dismetria nas pernas, deuses, médicos, representantes do exército, galinhas e árvores.

Cemitério do Esplendor parece ser o filme mais leve de Apichatpong Weerasethakul desde Eternamente Sua. Os diálogos contêm uma comicidade que termina por anular qualquer barreira entre banal e profundo. Assim como os seres vivos (humanos ou animais), os lugares têm suas diversas encarnações e carregam sua bagagem espiritual – o conceito de reencarnação ali é amplo e irrestrito e o fato de reencarnar não impede que as mais diversas iterações convivam de forma orgânica, não são apenas sucessivas, mas essencialmente concomitantes. Assim o fato de que em breve a escola-hospital será derrubada para dar lugar a outra construção não é visto com mais surpresa que a médium que conversa com os espíritos.

cmieterio

A possível sinopse de soldados que dormem misteriosamente em uma escola transformada em hospital que se encontra sobre um cemitério de reis guerreiros consegue apenas conter uma fração do que aparece na tela. A facilidade de Apichatpong em contar histórias e dar voz às narrativas de seus personagens, aliada à quase completa ausência de lógica narrativa deve ser o maior motivo de confusão para quem assiste o filme esperando entender por que os soldados dormem ou se a comunicação com os espíritos é verídica.

Parece existir uma grande dificuldade em assimilar esse tratamento direto onde a abolição da alteridade e do conflito se instala e a presença dos espíritos e do divino é tão natural quanto inexorável. Apenas isso é muito diferente de afirmar que o filme  afasta a sensação de morte e seria mesmo tolo afirmar que ela está ausente do filme quando todo o filme é tanto sobre morte como vida e se a abordagem não satisfaz a noção cristão-ocidental de dualidade ou se adequa ao estereótipo da tragicidade grego-romana.

A mise-en-scène reflete a ausência de transição entre o natural e o religioso, a experiência espiritual que se cria através da sabedoria do relato, a sensualidade da natureza e a fantasmagoria das máquinas. Quando as deusas aparecem para a Jenjira, o espanto maior se deve ao privilégio recebido que pelo contato sobrenatural. E mesmo assim o acontecimento não recebem importância maior que filmar as aves passeando pela enfermaria ou o vento nas árvores.

tumblr_nsxy44Tlgw1qgg7gto3_1280

Tudo isso apenas aprofunda a dificuldade em escrever sobre um filme que não se explica, que não se define, muito menos se conclui. O filme não esconde seu sub-texto político, sem precisar fazer uso de alegorias, mas também não facilita a leitura para quem não conhece a história e o quadro político tailandês. A cena do cinema é das representações políticas mais elusivas e ainda assim forte de 2015. Logo após o vertiginoso trailer de Iron Coffin Killers, os espectadores têm que se levantar e em silêncio permanecem. O filme não nos conta que esse é o procedimento em sessões públicas quando se executa o hino real. A cena corta para o soldado sendo carregado enquanto dorme mais uma vez. Voltando à imagem do soldado, representante da força estatal que é posto a dormir. Da mesma forma o discurso de Jenjira enquanto passeia com a médium pelos habitados pelo soldado enquanto dorme não fogem à relação com o mundo dos soldados enquanto estiveram acordados, até mesmo por que tudo se insere em um mesmo processo. Toda essa sequência é magnifica por ser filmada como a encenação teatral de uma experiência religiosa sem em momento algum dar qualquer piscadela ao espectador. Sem qualquer efeito especial as personagens transitam por duas dimensões.

O filme retorna à dança, à aparente cura de Jenjira, ao desaparecimento do soldado, às crianças que jogam bola na terra revolvida da construção e à certeza de que nada acabou, apenas continua. É o cinema de fruição que não atende à codificação do bom cinema, com sua simplicidade sensual em meio à natureza e danças que reafirmam que junto ao tenebroso se encontra o júbilo, que morrer e viver seriam uma separação arbitrária e que tudo é fluxo, inclusive o cinema.

 Filme visto no Indie Festival

Cobertura – Festival de Brasília 2015 (Parte VI)

Por Virgílio Souza

O Festival de Cinema de Brasília encerrou na última terça-feira. No Multiplot, seguimos com a cobertura abordando filmes exibidos nos últimos dias do festival.

Confira os posts anteriores da cobertura: I, II, III, IV, V.

filme

O Sinaleiro (2015), de Daniel Augusto

O curta é um exercício de gênero que preza pelos seus aspectos formais acima de tudo. Os recursos que produzem suspense transitam entre o tradicional e o antiquado, e a abordagem sempre robusta, rígida, por vezes sugere que tudo não passa de um truque. Somam-se elementos que historicamente geram apreensão, como aranhas, vermes, luzes oscilantes, galhos a balançar, goteiras e água negra saindo pelos encanamentos, e o resultado se vale de uma repetição incessante que não busca a ressignificação, apenas a intensificação de um mistério sugerido desde o primeiro plano. O trabalho de som, marcado por um ruído que se estende mesmo durante os créditos finais, tem méritos técnicos, mas sua exploração exagerada acaba por desconstruir qualquer possibilidade de impacto.

19440208763_c0977c5870_z

O Corpo (2015), de Lucas Cassales

Incomoda um pouco a necessidade de extrair brutalidade de todo plano, sintoma (e talvez consequência direta) da referência à obra de cineastas como Michael Haneke. Trabalhar a desgraça humana e o horror do mundo a partir de pequenos grupos sociais, isolados no interior quase (ou pré?) selvagem, oferece possibilidades narrativas interessantes, mas também algumas restrições. Essa perversão laboratorial soa mais frutífera quando o filme observa a garota estranha, o corpo do título, como propulsora de sentimentos guardados, desse mal estar generalizado, mas Cassales parece se focar nesse aspecto somente no plano final, uma espécie de saída onírica que insinua o apocalipse, abandonando de vez o foco somente no que é específico daquela comunidade tão cruel.

19438424844_379d5b97f6_z
Prova de Coragem (2015), de Roberto Gervitz

O escritor mexicano Octavio Paz certa vez disse que todo autor deveria morrer após concluir sua obra para evitar falar bobagens sobre ela. A afirmação carrega consigo um exagero evidente, fruto mais de uma indisposição a especular sobre o próprio trabalho do que de qualquer outra coisa. A essência da frase, porém, ganha significados muito vivos no âmbito de eventos como o Festival de Brasília, em que os debates com equipe e elenco dos filmes selecionados são práticas correntes. Digo isso em função da postura de Roberto Gervitz, realizador do último longa da mostra competitiva, nas discussões sobre seu filme. Questionado por duas mulheres sobre um plano específico que causou estranhamento pelo olhar fetichista e absolutamente despropositado sobre o corpo de uma adolescente, o diretor-roteirista não hesitou em se revelar “chocado” frente às perguntas sobre a representação feminina. Ao decidir não reconhecer tais pontos, embasados em uma série de argumentos que esbarram em outros elementos do filme, acabou por atestar sua miopia sobre a questão, comum a dois profissionais (homens de mais de quarenta anos) que prontamente o defenderam — um deles sugeriu que existem vários outros filmes piores sob estes termos, citando Love, de Gaspar Noé, como se isso o isentasse de críticas dessa natureza.

Pode até ser que Gervitz tenha tido a melhor das intenções na construção da história. As duas personagens femininas são figuras fortes no papel e em parte de suas ações, têm iniciativa e vontade próprias e tomam decisões. No frigir dos ovos, porém, servem apenas como acessórios para que o protagonista conclua seu projeto de redenção e resolva seu conflito interno, ambos essencialmente masculinos e advindos de uma ideia antiquada de “homem fragilizado”. O questionamento, de origens estéticas (no caso do plano descrito acima) e narrativas (esses últimos elementos), pode ser problematizado ou não, a depender da leitura feita sobre o que está em tela e o que isso representa. Ainda assim, o espanto do realizador e a tentativa de contrariar a observação de duas espectadoras com base em um suposto feminismo do filme, muito pela presença forte de suas atrizes em cena, segue descabido.

Isso posto, é preciso afirmar que os deméritos de Prova de Coragem vão muito além. O drama do casal é filmado no piloto automático, sem que se manifeste sombra de encenação. Os personagens entrem em cena, recitam suas falas e saem, com uma mecânica travada que anula qualquer fluidez. Armando Babaioff e Mariana Ximenes parecem voltados para performances mais naturalistas, é verdade, mas que não funcionam porque a decupagem enfileira cenas sem erguer relações mais profundas entre elas ou criar um mínimo senso de consequência. Assim, no atropelo, o filme não respira, e os diálogos ríspidos, disparados a todo momento, sequer são absorvidos pelos próprios personagens. Gervitz também parece pouco inspirado ao articular rimas visuais e temáticas (acidente de bicicleta x redenção sobre uma bicicleta, falta de reação a uma agressão na infância x falta de reação a uma agressão na fase adulta, etc) e datado ao trabalhar elementos como a vertigem e as pequenas sequências de ação (novamente, a seleção e ordenamento dos planos deixam a desejar). O aspecto novelesco, aqui, é acidental e inescapável.

Cobertura – Festival de Brasília 2015 (Parte V)

Por Virgílio Souza

Uma das mais tradicionais mostras de cinema brasileiro, o Festival de Brasília, segue apresentando até esta terça-feira (22) curtas e longas que compõem um importante recorte da produção cinematográfica do país.

Acompanhe os posts anteriores sobre o festival: I, II, III, IV.

20061395075_f84e252d51_z

A Outra Margem (2015), de Nathália Tereza

Centrado em Jean, um agroboy que dirige sem destino pela noite engolindo garrafas de cerveja, o filme se ergue na oposição entre a melancolia de dentro do carro e a euforia de fora dele. O protagonista observa a diversão de outros jovens pela janela, e a câmera enfatiza o externo ao colocar a solidão e o silêncio do rapaz em contraste com as luzes e o movimento das ruas. No volante, as baladas apaixonadas do programa de rádio — Como um Anjo, de Zezé di Camargo e Luciano, por exemplo — o levam até uma garota, um caso antigo. É aí que sua apatia se transforma em rispidez, como se ele resistisse ao diálogo que ela e o filme tentam impôr. Econômico em falas e gestos como seu personagem principal, A Outra Margem aposta na contemplação, mas soa apenas desarticulado, e nem os rodopios da cena final, que finalmente aproximam a dupla, conseguem contornar sua falta de pulso.

20066619011_85d48d16b3_z
História de uma Pena (2015), de Leonardo Mouramateus

A atenção do cineasta para a criação de dinâmicas de poder e afeto dentro de espaços reduzidos se manifesta de maneira bastante clara na sala de aula, mas não somente nela. Os alunos não querem aprender poesia, o professor não parece muito entusiasmado em ensinar. Longe dali, dois estudantes fogem da aula em uma aventura adolescente e irresponsável. A câmera, que os enquadra de perto, em pares ou individualmente, é capaz de estabelecer relações instantâneas — há elementos solitários, casais apaixonados, amigos inseparáveis etc. Por isso, permite que o filme se concentre nos diálogos que partem dessa convivência, os quais tratam de questões aparentemente triviais, como beijos em baladas e romances passageiros, temas já explorados anteriormente por Mouramateus. O filme observa a escola, sai dela e depois retorna, e nesse movimento explora os interesses de uma juventude não muito interessante. O olhar, aqui, não é de julgamento, mas de simpatia, mesmo no sonoro “Foda-se” dito pelo professor para encerrar o curta.

19873055400_1d69b85424_z
Santoro – O Homem e sua Música (2015), de John Howard Szerman

O único grande mérito do documentário reside na relevância de seu objeto de estudo, Claudio Santoro, um dos maiores músicos eruditos da história do país. Trata-se de uma peça de homenagem e resgate de trajetória, que busca apresentar de maneira muito didática a vida e a obra do compositor e maestro. Por meio de depoimentos de especialistas, colegas e familiares, intercalados com imagens de arquivo e segmentos de concertos baseados em seus trabalhos, o longa se dedica a narrar sua biografia. Embora interessante em conteúdo, tudo acaba preso em elogios que parecem fáceis, ao menos quando dizem respeito a alguém tão fascinante. As frases feitas se repetem como se tentassem explicitar a necessidade de maior reconhecimento popular — o único que ainda falta, dada a ampla atenção crítica à versatilidade e maestria do personagem-título. Sobram citações de teor semelhante a “se ele fosse europeu, seria aclamado como os grandes”, falta cinema. Extremamente convencional e pouco entusiasmante em termos narrativos, O Homem e sua Música passa longe da vibração que, segundo o próprio filme, tornou Santoro tão grandioso.

Cobertura – Festival de Brasília 2015 (Parte IV)

Por Virgilio Souza

Uma das mais tradicionais mostras de cinema brasileiro, o Festival de Brasília, segue apresentando até esta terça-feira (22) curtas e longas que compõem um importante recorte da produção cinematográfica do país.

Leia também as partes I, II e III da cobertura.

20053356372_e647c7e165_z

Quintal (2015), de André Novais Oliveira

O expediente é simples: André Novais adiciona o fantástico ao costumeiro realismo. Não se trata de um processo de ruptura, mas de uma experiência nova que se desdobra sobre as bases já muito sólidas de seu trabalho na Filmes de Plástico. Mais uma vez, estão em cena seus pais, Maria José e Norberto, em cenários caseiros e sobre temáticas que refletem uma realidade outrora esquecida pelo cinema brasileiro. A atenção aos diálogos segue inspirada, com a lente da câmera trazendo para a tela interpretações confortáveis, que desta vez mais do que celebram a beleza da banalidade do cotidiano da periferia, a cercam de elementos singulares capazes de realçá-la. O portal interdimensional a que o homem tem acesso é encarado com uma forma diferente de estranheza (que ele trata naturalmente como “um barulho lá fora”), assim como a mulher parece não reagir, focando-se em seus assuntos particulares (marido fora de casa, ela não se importa e segue para a academia de ginástica, flertando com a possibilidade de um empreendimento pessoal). A um só tempo, é símbolo de escapismo e adequação, como revela o retorno dele à noite, rotineiramente abrindo a porta pela janela para, no plano seguinte, conquistar o impensável. A surpresa e o encantamento se estabelecem pelo ordinário.

19438501894_fb07885b49_z
Afonso é uma Brazza (2015), de Naji Sidki e James Gama

Dono de estrutura curiosa, entre o making-of de um longa e o documental de cabeças falantes, o curta mapeia algumas das ideias centrais de cinema de seu objeto, o cineasta-título. Quando se debruça sobre a rodagem de Tortura Selvagem – A Grade, finalizado no início dos anos 2000, o documentário captura um método de trabalho especial, não voltado para ensaios repetitivos e muito preocupado com a ação, em si. Sidki e Gama compreendem que tudo se organiza em torno dela e apresentam os elementos atrás das câmeras (a ideia de organização espacial, a receita de sangue falso, as orientações dadas a equipe e elenco) para, em seguida, reproduzirem sequências do filme original. Por outro lado, nos momentos em que o diretor é entrevistado, emergem percepções breves, mas cheias de sentimento, sobre sua personalidade. A paixão por Claudete Joubert, o encontro com a turma da Boca do Lixo e a relação com a película são os destaques. Sobram, aqui e ali, algumas questões pouco exploradas, cujos pontos de partida são oferecidos e logo abandonados, mas a junção decisiva entre riso e emoção, própria desse vínculo indissociável entre profissional e pessoal, levam o filme adiante como Brazza faria.

20066740411_83b4d65cf1_z
Big Jato (2015), de Cláudio Assis

Em meio às vaias ao diretor, que antecederam a exibição do filme, uma senhora ao meu lado parecia contrariada: “tem que separar a obra do artista”. Sua afirmação me parece adequada em princípio, mas equivocada quando trata de um cineasta que mergulha seu trabalho em discurso retrógrado disfarçado de poesia nua e crua, esse exibicionismo visceral e transgressor que no fim das contas é apenas conservadorismo estilizado. É verdade que o texto, baseado em livro de Xico Sá, não subscreve as posturas de seus principais personagens, cuja composição encontra méritos na performance de Matheus Nachtergaele, capaz de criar nuances em figuras um tanto rasas, mais prosa que conteúdo. Acontece, porém, que o escritor troca a habitual filoginia, assinatura de suas colunas de jornais, por um machismo puro e simples, que só faz rir de mulheres, homossexuais e prostitutas. Continua muito fácil fazer piada com o oprimido, sobretudo quando a investida é menos obtusa e gráfica e mais lúdica e infantil. Ainda, as demais ferramentas a serviço da reflexão central — do menino que quer ser poeta, mas é preso pelo pai e pelo mundo em um serviço mundano de limpar fossas — não vão muito além do pedestre. Big Jato concentra sua atenção nos pequenos rompantes poéticos de suas criaturas, mas não se mostra capaz de orientar a ação, direcionar a trama para um clímax ou simplesmente não direcioná-la, o que gera problemas graves de ritmo, principalmente nas longas cenas na boleia do caminhão que percorre estradas de terra batida. Os segmentos de maior meditação sobre os sonhos do garoto viram apenas prévias para uma reflexão que nunca ocorre plenamente. O olhar do filme sobre a poesia, de alguma maneira, é tão quadrado quanto todo o resto.

Cobertura – Festival de Brasilia 2015 (Parte III)

Por Virgilio Souza

Uma das mais tradicionais mostras de cinema brasileiro, o Festival de Brasília, segue apresentando até esta terça-feira (22) curtas e longas que compõem um importante recorte da produção cinematográfica do país.

Leia também a primeira e a segunda parte da nossa cobertura.

 

20061329355_804c1937c0_z

Cidade Nova (2015), de Diego Hoefel

A curtíssima duração, o caminhar apressado das coisas e o desfecho vazio parecem sinais da incompletude do filme, que mais lembra um teaser do que um produto concluído. A premissa é interessante, construída pelo diálogo inaugural em um longo plano, o único que parece manifestar mais ideias do que sensações. Contudo, estabelecida a questão central — o fato de a cidade natal do rapaz não existir mais, que o deixa sem lugar no mundo — há pouco o que extrair. Entre goles de cachaça, abordagens sexuais forçadas e banhos solitários, o protagonista cumpre sua jornada de desilusão e deslocamento em momentos nada autênticos, estilizados e insípidos em medidas semelhantes.

19873202248_45b49e8a37_z
Copyleft (2015), de Rodrigo Carneiro

O que se destaca como momento mais marcante do sábado no festival é o belo discurso a favor da diversidade proferido pelo diretor do curta antes da sessão. O problema é que sua manifestação, aplaudida de pé e digna de elogios posteriores, permanece apenas no extra-filme. Há alguns sinais positivos nos instantes iniciais de projeção, os quais transportam o protagonista da beleza da autodescoberta à frustração pela intolerância no Centro de Belo Horizonte, palco de seguidos crimes de homofobia e transfobia. O que se segue, porém, é a sensação de que Carneiro utiliza o cinema como mero receptáculo de ideias, não como meio e ferramenta que se retroalimenta delas, ou seja, como espaço capaz de engrandecer tais valores, não apenas reproduzi-los. Copyleft é profundamente discursivo, mas seu texto se perde em meio a uma narrativa errática e pouco esclarecedora, que reúne uma variedade de questões sem qualquer senso de organização estética ou ordenamento na montagem. Ainda, faz pouco sentido que o filme busque essa desordem a todo momento, mas se mantenha preso a uma trama mais convencional, que acaba sufocada pelo desarranjo geral.


20061095525_2434d1ae13_z
Para Minha Amada Morta (2015), de Aly Muritiba

O longa é eficiente ao construir suspense ao redor de seus dois personagens principais, Fernando e Salvador, o marido e o amante da moça morta do título. O primeiro, pela relação com o filho e a falecida esposa, marcada por hábitos nada saudáveis, mas que demonstram haver alguma sensibilidade por detrás do silêncio. O segundo, porque ele se torna o foco de atenção de todo o filme, alterando mesmo a percepção sobre o homem traído e fazendo pairar no ar a expectativa sobre como/quando um deles vai agir e qual será a medida da reação. A trama se desdobra como um misto de Villeneuve e Fincher: de um lado, com uma composição muito zelosa dos planos, que capturam vestígios e olhares à distância, e de outro, com uma câmera que se move sem deixar rastros, transbordando impessoalidade como se fosse mero registro de imagem. O filme segue pistas (os vídeos antigos, a convivência na igreja, as conversas atravessadas sobre o passado) que conduzem à ocupação de novos espaços (a casa dos fundos, o carro, a casa da frente). Ocorre, porém, que os recursos dramáticos escolhidos embrutecem a narrativa, engessam as coisas pela tentativa de imprimir tensão em cada cena. São os casos das insinuações de Fernando para a mulher e a filha de Salvador e do par de sequências em que os dois se confrontam de maneira mais direta. Muritiba constrói ameaças que se intensificam, ganham corpo na forma de objetos (a pá, o martelo, a faca), mas nunca explodem. É uma pena, pois seus melhores momentos surgem nas pequenas catarses, quando o olhar do diretor se volta para as reações horrorizadas dos personagens à morte (simbólica ou literal) da esposa: a de um deles, assistindo ao tal vídeo; a do outro, recebendo um envelope.

Cobertura – Festival de Brasília 2015 (Parte I)

Por Virgilio Souza

Uma das mais tradicionais mostras de cinema brasileiro, o Festival de Brasília, teve início no último dia 15 apresentando curtas e longas que representam um importante recorte da produção cinematográfica do país. Acompanhe nossa cobertura, que inicia com breves comentários sobre três dos filmes da programação e seguirá nos próximos dias.

1 (2)

Command Action (2015), de João Paulo Miranda Maria

É interessante como o curta sustenta seu microuniverso, uma feira no interior de São Paulo, em dois aspectos básicos: close-ups e um poderoso trabalho sonoro. Os planos fechados, somados a vozes, canções e ruídos de toda sorte, revelam detalhes tão particulares daquele contexto quanto as figuras em cena — os próprios feirantes, transeuntes, a gangue mirim etc. O garoto que centraliza a ação se insere nisso tudo, a princípio, pelo silêncio. Ele precisa fazer compras para a mãe e se distrai pelas coisas ao redor, mas fala pouco, usa duas ou três expressões e mantém a mão junto ao dinheiro contado no bolso. Por sua vez, o robô de brinquedo que o atrai e altera essa dinâmica, provocando uma mudança de rumo, chama a atenção justamente por não pertencer àquele espaço. É o objeto dos chinglings, tem som e aparência muito distintas. Os arredores importam para que a relação entre duas figuras alheias se estabeleça, e o filme reproduz essa ideia em sua estrutura: começa também absorto, coletando elementos do cenário aqui e ali, para somente aí se render à interação.

1 (1)

À Parte do Inferno (2015), de Raul Arthuso

O filme coloca dispositivos tradicionais do horror a serviço de uma narrativa tipicamente brasileira, que vê o interno e o externo em lados opostos, separados por uma barreira física bastante artificial. A mancha que aparece na parede do quarto do garoto é ponto de partida para um confronto inevitável entre os moradores de rua e essa família de classe média de São Paulo. Eles, alienígenas, querem ter acesso àquele portal que flerta com Poltergeist; a dona da casa, por sua vez, busca o isolamento sem perceber que a invasão já ocorreu por meio dos sons que atrapalham seu sono e das imagens da câmera de vigilância que a hipnotizam. Os elementos de fora que são aceitos (o rapaz com quem ela transa, o vizinho que vai até sua casa pedir ajuda) vivem a mesma realidade. Um plano, em especial, remete à sequência do pesadelo de O Som ao Redor, também mergulhada nesse imaginário classista de opressão e distanciamento. À sua maneira, Arthuso vai além e encerra seu curta aproximando a câmera do monitor de segurança, símbolo infernal de toda essa alienação, até que qualquer distinção se torne impossível.

1 (3)

           A Família Dionti (2015), de Alan Minas

O que resta desta fábula no imediato pós-sessão não vai muito além de um punhado de imagens que traduzem suas principais ideias. A premissa — um garotinho que aos poucos vira chuva quando se apaixona e seu irmão mais velho, que seca e chora areia após a partida da mãe — possui fundamento poético suficiente, mas o filme parece se dedicar mais a construir um sem-número de (outras) metáforas do que a aprofundar suas bases. Ao longo de 97 minutos, Minas trabalha contrastes óbvios (terra x água, sol x chuva, duradouro x passageiro) sem incorporar a poesia ao texto. Ditas em voz alta, as associações infantis não oferecem suporte à trama e acabam servindo como âncora, levando abaixo a questão central. São os casos, principalmente, das ligações feitas em sala de aula, que relacionam equações matemáticas a conflitos pessoais (“primeiro você resolve o que está dentro para depois resolver o que está fora”) e uma aula de ciências às paixões da puberdade (a metamorfose da borboleta é utilizada como paralelo ao amadurecimento do personagem principal). A proposta é muito doce e inofensiva, é verdade, mas não serve de escudo para certa fragilidade narrativa. Quando resolve investir no visual, porém, o filme se acerta, construindo símbolos definitivamente mais frutíferos, como o plano da garota tomando banho com o menino-nuvem.

Cobertura – Indie Festival 2015 (Parte I)

Por Virgilio Souza

O Indie Festival, que passou por Belo Horizonte e segue em São Paulo até o próximo dia 30, chega ao seu 15ª ano apresentando uma seleção de filmes de diversas nacionalidades. Esta é a primeira parte de nossa cobertura, na qual comentamos filmes da Mostra Mundial. A programação completa pode ser conferida no site oficial do evento.

3568178_2048_1152

Eu Sou Ingrid Bergman (Jag är Ingrid, 2015), de Stig Björkman

Faz todo sentido a tendência recente do Indie de programar filmes mais convencionais sobre figuras acessíveis em suas sessões de abertura — o escolhido do ano passado foi Nick Cave: 20.000 Dias na Terra. É uma forma de trazer o público para o festival, encher salas e oferecer um convite para outras descobertas. No caso deste documentário, incomoda que Björkman se valha de um acervo quase inesgotável de material, entre fotos, vídeos caseiros, cartas e depoimentos, para produzir um longa chapa-branca, dedicado mais a justificar questões controversas da vida da atriz do que a qualquer outra coisa. Permeando o panorama de sua carreira, há uma lógica muito clara de seguir cada polêmica com um aparar de arestas explícito, sustentado no mais inofensivo (e homenageativo) dos posicionamentos — ainda que muitos desses temas sejam datados, como as relações extra-conjugais e a forma de lidar com a imprensa, e suas defesas, tão desnecessárias quanto quadradas. Os melhores momentos derivam da relação entre a biografada e a câmera. Por que ela gostava tanto de filmar e ser filmada? Em que medida as lentes representavam sua aproximação com a família? De que forma seus registros visuais se relacionam com os relatos escritos enviados pelo correio, confirmando ou alterando a percepção sobre eles? Felizmente, essas dúvidas ocupam espaço considerável no filme e, em ampla medida, evitam que essa seja apenas mais uma obra de reverência absoluta, ainda que não necessariamente desmedida.

counting jen cohen

Contando (Counting, 2015), de Jem Cohen

O mais interessante sobre a relação entre Jem Cohen e Chris Marker, aqui, é notar que o primeiro, o diretor, investe muito mais na subversão da narrativa clássica do que o segundo, sua principal inspiração e referência formal. Espécie de diário de viagens do cineasta, Contando é uma colagem de imagens coletadas ao redor do mundo que permite as mais variadas aproximações, das quais duas me parecem mais interessantes: uma dimensão essencialmente política e outra memorial.

O filme passeia de cidade em cidade ao longo de 15 curtos segmentos, e o vínculo entre eles de imediato não parece muito evidente. Pontualmente, Cohen direciona o discurso se valendo de breves vozes e trechos literários. Há também elementos recorrentes que sugerem um fio narrativo de natureza temática. O componente político se faz perceber em trechos focados nos protestos contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos, nos movimentos contra o governo na Turquia, nos reflexos de nova-iorquinos que são gravados pela Agência Nacional de Segurança enquanto usam seus celulares, no olhar cômico sobre os sósias de líderes russos em Moscou, entre outros.

A sensação é de que, por um lado, há grande liberdade no que diz respeito às associações possíveis entre tais eventos e, por outro, a força dos registros cria uma espécie de prisão, como se qualquer impressão estivesse necessariamente ligada àquelas imagens, mais até do que ao contexto já conhecido. A forma imprecisa como a mediação dessas imagens ocorre parece fazer o filme perder potência em prol da abstração, evitando trabalhar suas reflexões críticas de modo mais direto — uma dinâmica que Marker controlava mais firmemente, dando maior ênfase à aproximação entre estético e político, como em Le fond de l’air est rouge e na série de documentários que retratava questões dessa natureza no Chile, Brasil, República Tcheca e França.

A diferença constatada não é necessariamente negativa. É possível imaginar que o filme evita a frontalidade por tratar de coisas ainda muito vivas e instáveis, hoje mais ligadas a uma identificação individual do que a uma percepção coletiva já consolidada. Ao adentrar os protestos de negros estadunidenses que repetiam o “I Can’t Breathe” de Eric Garner, por exemplo, Contando parece refletir sobre os novos movimentos de direitos civis com uma abordagem que mais se adequa a esse tempo e circunstância, quando a informação parte de todo lugar e vozes antes silenciadas agora questionam ordens há muito incontestáveis. Em ampla medida, o que Cohen faz é uma compilação de fragmentos, não um filme-ensaio, e a forma de encarar tais pontos é mais tangencial e difusa que a de Marker ao discutir colonialismo em filmes como As estátuas também morrem, no início de carreira, se aproximando mais de narrativas mais fluidas, como Sem Sol, o que torna mais evidente a importância do deslocamento temporal e geográfico.

A câmera está sempre em trânsito, por aviões e trens, idas e vindas. Há um senso de não-pertença permeando boa parte dos capítulos, mas os retornos seguidos a Nova York dão a entender que ainda existe um lar, e é nos momentos em que o realizador volta à cidade que o filme passa a desconstruir mais do que contemplar. As demolições de prédios antigos, que ocupam um dos quinze segmentos, sintetizam uma ideia de melancolia que se faz presente dentro e fora daquilo que resiste em ser chamado de casa, e a observação parece ser a única forma de construir algum senso de identificação e memória.

paradise_still

O Paraíso (Le Paradis, 2014), de Alain Cavalier

Em seu mais recente trabalho, um já envelhecido Alain Cavalier retorna à infância. O Paraíso é um diário/retrato que busca contar e recontar histórias e questionar coisas que causaram inquietação ao longo de toda uma vida. A esperança é de que as respostas, se é que elas existem, estejam em algum lugar do passado. Nas mãos de um realizador que já fez filmes sobre a morte dos pais (Le Filmeur) e a esposa falecida trinta anos antes (Irène), o resultado serve para estreitar ainda mais a fronteira entre ficção e documentário ou, como ele afirma, misturar a primeira e a terceira pessoas.

Cavalier, que se define como um filmador e não um diretor ou documentarista, trabalha somente com a própria câmera. O método solitário de registrar o cotidiano talvez o tenha condenado às margens do cinema francês, embora ele não pareça se importar muito — principalmente com rótulos (“A Nouvelle Vague foram dois filmes, nada além disso”) — e a atenção crítica tenha se mantido mais ou menos constante ao longo das últimas décadas. Nesse sentido, O Paraíso se põe a refletir também sobre o próprio cinema, “essas imagens loucas” que eternizam pessoas e momentos, não mais importando o passar do tempo fora da tela. De maneira curiosa, as grandes figuras se engrandecem porque reduzidas a simples indivíduos registrados em câmeras, como o resto de nós. É de se admirar uma postura que valoriza a intimidade e não idealiza atores ou personagens, partindo de alguém que trabalhou com vários dos principais nomes da indústria em seu país, como Catherine Deneuve, Alain Delon, Romy Schneider, Jean-Louis Trintignant e, recentemente, Vincent Lindon.

Também se mostra fundamental nesse processo de filmar o comum a universalização do digital, que assegurou a ele maior independência financeira e criativa. O retrato de um cotidiano deixado para trás e a busca de referências para entender a vida (e o cinema, parte dela há tanto), invariavelmente seguem em direção a aspectos absolutamente pessoais. O procedimento, então, é de reorganizar as ideias mais básicas e transmiti-las com semelhante simplicidade. Aqui, Cavalier se vale de dois elementos principais para recriar os aspectos fundadores de sua trajetória e personalidade: a utilização de objetos domésticos e a narração em off. Um robô, um pato de brinquedo e itens de cerâmica, entre outros, servem como base para que o filme narre histórias como a crucificação de Cristo — como uma criança curiosa o faria, usando o que estivesse à mão.

A voz que se ouve, por outro lado, é questionadora e muitas vezes incisiva, porém mantém certa consciência da própria ignorância. Conta sobre o primeiro contato com uma hóstia, por exemplo, mas não se limita à breve narrativa — coloca ao lado dela um lápis e, se dirigindo ao espectador, explica querer “mostrar o tamanho para aqueles que não conhecem”. Em momentos como este, quando se unem com propósito reflexivo som e imagem, documental e ficcional, íntimo e universal, primeira e terceira pessoas, O Paraíso parece inventar uma nova gramática.

sddefault

Poeta em Viagem de Negócios (Shi ren chu chai le, 2015), de Ju Anqi

É fascinante como Ju Anqi cria um road movie solitário em que a autodescoberta é mais consequência tangencial do que motivação original, em especial porque seu filme trabalha de modo muito consciente a subjetividade do protagonista, evitando cair em filosofismos. O deslocamento do rapaz pelo interior da China é matéria-prima para os dezesseis poemas que segmentam a trama. O escritor embarca em viagem de negócios não somente atrás de uma inspiração romântica e idealizada, como também em busca de experiências que, aqui, não precisam ser necessariamente emblemáticas ou significativas. A poesia por vezes deriva das vivências mais banais, segundo um entendimento de que a simplicidade também gera reflexão e beleza — “eu recebi uma joia / eu vi na joia uma luz”, nesse sentido, é um par de versos bastante impactante.

O aspecto central é que não se trata de uma narrativa de grandes eventos. Ao contrário, o que se vê é uma sequência de dias quase triviais, a despeito da distância de casa e das novas fronteiras a cruzar. Há mais atividades ordinárias do que ações propriamente ditas. O jovem poeta é registrado tomando banho, pegando carona, bebendo e contratando prostitutas, como se retornasse sempre a seus vícios e obrigações, mesmo inserido em uma jornada libertadora. A câmera o encara em espaços muito pequenos (o pequeno apartamento alugado, os bancos apertados dos ônibus, os banheiros na beira da estrada), e a janela reduzida, em 4×3, permite compreender o sentimento de confinamento do rapaz mesmo frente à vastidão daquela massa continental.

Finalmente, a nota negativa são os segmentos que sugerem alguma forma de encenação, quando a câmera é fixada e a montagem organiza espacialmente as cenas se valendo de cortes sequenciais. A dinâmica de espontaneidade parece funcionar melhor quando o olhar do cineasta mantém certo distanciamento do personagem, se aproximando somente quando o foco se volta para a poesia, seu objeto comum.

necktie

Necktie Youth (idem, 2015), de Sibs Shongwe-La Mer

Espécie de meditação juvenil sobre a geração pós-apartheid em Johannesburgo, o filme se constrói como um mosaico de impressões um tanto desconexas sobre passado, presente e futuro. É estranho que o autor busque forçar um vínculo entre seus personagens a partir de uma tragédia pessoal — um suicídio — quando o laço geracional comum é tão forte. O que transborda dos relatos com relação à cidade e a vida em uma sociedade ainda segmentada interessa mais do que os surtos agressivos e os momentos de absoluta passividade de jovens  ricos e alcoolizados, filhos de quem enriqueceu sob/a partir da mesma segregação ou mesmo antes dela, registrados em um farsesco tom documental. Nesse sentido, é possível extrair algumas ideias básicas: aos vinte e poucos anos, eles são capazes de enxergar aspectos positivos mais facilmente no distante passado imperial do que no fim do regime recente, porque “há duas décadas é tudo uma merda”. Existe uma nuvem de alienação encobrindo tudo isso, que só se dissipa nos raros trechos em que a vaidade e o cinismo, próprios desse olhar pós-adolescente, dão lugar a expressões mais naturais, com um rastro de otimismo sobre os tempos que virão.

Cobertura – Argentina Rebelde (Parte II)

Por Virgilio Souza

Segunda parte da cobertura dedicada à mostra Argentina Rebelde. Para ler os comentários publicados anteriormente, clique aqui.

tumblr_n4k6eotB411s5pacdo1_1280

A Hora dos Fornos – Parte 1: Neocolonialismo e Violência (La Hora de los Hornos – Parte 1: Neocolonialismo y Violencia, 1968), de Fernando Solanas e Octavio Getino

O exemplar que melhor incorpora a ideia de rebeldia política da seleção. O ordenamento de imagens pré-existentes revela as inúmeras contradições de um sistema falido, ignoradas quando vistas isoladamente. Esse horror é denunciado não apenas por meio de títulos em caixa alta que clamam por libertação, como também através de sequências em que nem mesmo a elegância da ópera dessa América branca e rica é capaz de sufocar o poder da imagem de uma criança mestiça desnutrida. O jogo de contrastes se faz muito claramente nesse choque que não oferece acessos nem dá margem a relativizações, mas que se coloca ainda a serviço de uma ideia de perpetuação bastante agressiva — o ontem e o hoje, lembrados em recorrência, revelam a continuação de uma miséria que não mais permite negociações. Trata-se do procedimento de montagem em sua essência, como se Vertov tivesse desembarcado em Buenos Aires e se deparado com um outro vocabulário para tratar de novos e velhos problemas. A mediação de Solanas e Getino, carregada de convicção e impressão de significados, não ameniza a violência do neocolonialismo e de seus braços — a fome, o não acesso à terra, a doença, a dominação cultural e política —, e o que tem início com uma nota que trata Cuba como “o primeiro território livre da América” desemboca em um dos momentos mais fortes da história do cinema no continente: um longo plano de Che, morto.

invasic3b3n-2

Invasão (Invasión, 1969), de Hugo Santiago

Diz a história que Jorge Luis Borges definiu o filme, cujo roteiro escreveu ao lado de Adolfo Bioy Casares, da seguinte maneira em uma folha de papel: “a lenda de uma cidade, imaginária ou real, sitiada por fortes inimigos e defendida por uns poucos homens, que tampouco são heróis; lutaram até o fim, sem suspeitar que sua batalha era infinita”. Não parece existir entendimento melhor do que é Invasão, em parte porque Santiago investe fortemente nessas mesmas ideias de ambiguidade e infinitude, muito embora tome partido no momento derradeiro. Os dois grupos que se opõe são compostos por homens já velhos, distantes de qualquer idealismo juvenil. Vestem-se com semelhante sobriedade, deslocados temporal e geograficamente, e lutam por causas desconhecidas em uma Aquileia fantasmagórica que é, a um só tempo, toda e nenhuma cidade. Por que atacam? De que se protegem? O que querem evitar? A sombra, fotografada com muita elegância por Ricardo Aranovich, engole partes da tela como se decidisse escondê-las, em uma lógica similar à do próprio texto. No limite, o surreal se torna muito palpável graças a menções mais claras à capital argentina, em especial quando confirma ter consciência plena de sua origem, fazendo tudo convergir para La Bombonera antes de retomar o ciclo sem fim daquela luta.

la-patagonia-rebelde

A Patagônia Rebelde (La Patagonia Rebelde, 1974), de Héctor Oliveira

A volta ao passado argentino, partindo do contexto entre ditaduras em direção às disputas rurais do início do século 20, permite que Olivera dedique maior atenção a questões usualmente marginalizadas em prol da ação ou idealizadas e simplificadas em favor do discurso. Falo, aqui, de discussões complexas sobre regimes políticos: a obra se debruça sobre análises nas esferas social, econômica e política, aponta inconsistências entre teoria e práxis e critica as divisões da própria organização sindical, mas se mostra extremamente respeitoso quando trata de suas lutas e ambições. A obsessão perversa do coronel Zavala, determinado a eliminar as sociedades obreras por meio de procedimentos não vistos “nem na guerra europeia”, parece tão real quanto a perseguição aos realizadores do filme na época de sua produção e lançamento, marcada por visitas nada cordiais do exército, censura e exílios forçados.

HERO - Dependiente-1

O Dependente (El Dependiente, 1969), de Leonardo Favio

Um filme sobre prisões. Fernández, o protagonista, é enclausurado a cada plano, pela proximidade da câmera que dedica longos períodos a encarar sua estranheza ou pela forma como Favio o enquadra seguidamente, usando os espaços limitados — as paredes, grades e árvores — como margens insuperáveis na tela. É também sufocante como todos os personagens são prisioneiros de determinações sociais. No pequeno povoado de poucos cenários — a loja de ferragens, a casa dos Plasini —, as convenções produzem graves desvios, que impedem uma de sair do próprio quintal, outro de viver uma vida digna. Há um olhar de espanto, materializado nos ataques da matriarca e nas aparições de seu gato, mas também de compaixão por figuras aprisionadas em uma rotina insuportável, de trabalho durante o dia e interações pessoais assustadoras à noite. É nos breves momentos de libertação, porém, que O Dependente encontra sua maior força. Ainda assim, a realidade é inescapável, e mesmo a morte é seguida por constrição social, de um povoado que se aglomera ali mesmo, na prisão onde tudo começou.

teddy1

Pude Ver Um Puma (Pude Ver Un Puma, 2011), de Eduardo Williams

Formalmente, o mais rebelde do grupo. Existe toda uma desconexão no campo da aparência, mas ela coexiste com um fiapo narrativo que liga as coisas, os personagens e suas histórias. Trata-se fundamentalmente de um curta-metragem de sensações, que aposta na fluidez e confia plenamente no poder de suas imagens, mesmo quando essas são apenas sugeridas — um garoto fora de campo fala sobre uma tatuagem que o espectador não chega a ver, um acidente ocorre sem que seja observado por completo, o próprio animal do título indica a selvageria constante e por aí vai. Williams torna cotidiano o que é estranho e faz de seu trabalho gigante em impacto pela forma como a câmera vagueia pelos espaços e pelo modo como o som engole tudo quando a tela escurece no momento derradeiro.

Um Amor a Cada Esquina (Peter Bogdanovich, 2015)

Por Virgilio Souza

Em mais de uma ocasião ao longo de suas cinco décadas de carreira, Peter Bogdanovich relatou com entusiasmo a atitude de John Cassavetes durante uma exibição prévia de Essa Pequena é uma Parada/Whats Up, Doc?, antes mesmo que o filme se tornasse o sucesso estrondoso que o levou ao terceiro posto na relação de mais assistidos de 1972 nos Estados Unidos, atrás apenas de O Poderoso Chefão e O Destino de Poseidon. Segundo ele, o público parecia resistir à comédia, apesar de algumas risadas no início da projeção, quando o colega cineasta se levantou e, se dirigindo à plateia, gritou “O que é isso? Eu não acredito que ele [Bogdanovich] está fazendo isso!”.

Naquele momento, Cassavetes reagia a um filme que, como a carreira de seu diretor, se voltava diretamente ao cinema dos anos 30 e 40 e às mais farsescas peças on e off-Broadway. Mais de quatro décadas depois, é possível apostar que seria similar sua reação a Shes Funny That Way — um novo exercício de retorno, um movimento que pode até ser visto com certa frequência, entre pouco inspiradas comédias de elenco hollywodianas e formulaicas produções francesas que figuram em festivais como o Varilux, mas não com equiparável domínio do que está em tela.

tumblr_nraw79nETS1tcxkqzo4_r2_540

É verdade que a carreira de Bogdanovich possui alguns exemplares aparente e felizmente deslocados no tempo — Amor, Eterno Amor, Muito Riso e Muita Alegria e No Mundo do Cinema, entre outros —, os quais dariam ares de verdade à anedota, mas não apenas a distância temporal me leva a crer que este filme, lançado em 2015, talvez seja o símbolo mais claro dessa tendência igualmente autoral e referencial. Parece concreta a crença do realizador na risada como maior recompensa possível ao público, uma lógica que, no bom teatro de farsa, tem origem na ideia de que o riso é o único recurso possível em tempos difíceis, um escape para uma realidade antes inescapável. Não surpreende, portanto, que o cineasta abra seu mais novo longa rejeitando ser um “cínico, ofendido pela mais leve insinuação de fantasia” e afirmando acreditar que “os fatos nunca devem atrapalhar uma boa história”.

Consciente de seu destino e de todo o arco a percorrer, o filme investe em dinâmicas interessantes para levar a trama adiante. Os personagens entram livremente nas vidas uns dos outros, tanto dentro quanto fora de quadro, tendo a peça a ser ensaiada como palco para que determinadas interações se desenvolvam. Os trechos no consultório psiquiátrico ocupado por Jennifer Aniston e frequentado por parte do elenco parecem ser os mais irregulares, ao lado da subtrama de perseguição à protagonista vivida por Imogen Poots. De todo modo, é preciso elogiar a capacidade que Shes Funny That Way possui de manter teatro e cinema como elementos constantes, como espelhos que refletem os eventos fora de cena — os exemplos mais claros disto sendo o teste que dá a vaga na produção à garota, antes acompanhante profissional, e a entrevista a uma repórter, quatro anos depois, que dita todo o relato dos acontecimentos.

tumblr_nraw79nETS1tcxkqzo7_r1_540

Precedida por uma série de referências, que culmina nas aparições de Quentin Tarantino e do próprio Bogdanovich, a sequência final — retirada de O Pecado de Cluny Brown, de Ernst Lubitsch — reafirma o proximidade do filme com um momento passado da história do cinema, a um só tempo uma nostalgia pelas obras memoráveis e um gesto de homenagem às coisas geralmente esquecidas. O mais importante, porém, é a habilidade do autor em fazer humor e reverência não apenas pela atmosfera construída ou por menções pontuais bem escancaradas (categoria em que Tarantino parece ter se especializado, diga-se). Há um enorme repertório a serviço da narrativa, que definitivamente incorpora marcas de gente como Keaton, Hawks e Sturges e alinha pequenos momentos de comédia visual, muito próprios do slapstick, a aspectos emprestados da comédia screwball, como a histeria coletiva e a excentricidade do texto.

Nesta conjunção de fatores que isola Shes Funny That Way de seus colegas de gênero recentes se encontra até mesmo a condição de Owen Wilson como principal figura masculina, que guarda reflexos na própria origem do ator como roteirista parceiro de Wes Anderson, com ênfase em gags verbais e jogos de palavras de toda sorte, conservando, porém, um traço de ingenuidade já explorado anteriormente por outros autores, Woody Allen o mais óbvio deles. Desde o início se reconhece que o personagem não é um tipo como Marlon Brando, Cary Grant ou James Dean, mas um sujeito mais próximo da imagem de John Ritter, outro símbolo da postura descontraída das comédias de Bogdanovich.

Seu romance com a protagonista também se desenvolve de modo nostálgico, doce, talvez até um pouco antiquado, mas sempre coerente com a proposta geral do filme de se inserir em um universo um tanto fantasioso. É natural que a garota se defina como musa, e não acompanhante. Nada mais adequado em uma Nova York que não existe precisamente como cartão-postal, mas como memória de um tempo do cinema em que de fato se filmava lá, sem autorização oficial e com Hepburns e Gazzaras se aventurando pelas ruas.

Cobertura – Argentina Rebelde (Parte I)

Por Virgílio Souza

A Caixa Cultural Rio de Janeiro apresenta, até dia 30 de agosto, a mostra Argentina Rebelde. São 17 filmes – longas, médias e curtas – que traçam um panorama do cinema argentino, com obras realizadas entre 1942 e 2013. Neste artigo, confira a primeira parte de nossas impressões sobre os filmes do festival.

1

Jogue uma moeda (Tire Dié, 1960) e Os Inundados (Los Inundados, 1962), de Fernando Birri

 É ao mesmo tempo inusitado e perfeitamente compreensível que os dois filmes tenham surgido em um espaço tão curto de tempo e pelas mãos do mesmo realizador. Há elementos constantes, boa parte deles muito particulares das ideias indissociáveis de cinema e política de Birri, como o reconhecimento da função revolucionária do documental, inclusive no segundo filme, que adota traços do gênero em prol de uma narrativa que se aproxima de uma espécie de neorrealismo argentino. No primeiro, o cineasta parte de um relato estatístico da província de Santa Fé, em um apanhado de números e dados oficiais que serve mais à manutenção da desigualdade do que a qualquer outra coisa. A câmera de Jogue uma moeda inicialmente observa de cima, com o olhar de elites e colonizadores, a comunidade pobre que margeia uma linha de trem para, em seguida, descer ao chão e narrar as histórias das crianças que pedem dinheiro aos passageiros e de suas famílias, que lutam pela subsistência. Trata-se de um movimento de humanização genuíno e, para aqueles sujeitos, inédito, sobretudo quando o filme retorna às casas miseráveis após uma breve incursão nos vagões, como se revelasse a postura abominável dos privilegiados — ouve-se algo como “Eles vivem assim porque não trabalham” — e dela quisesse fugir. Parece fácil encontrar pontos em comum com um Brasil hoje ainda desigual, mais pelo retrato de quem anda de trem do que dos que seguem à margem dele. No segundo filme, a lógica se repete, e as figuras do título se deslocam do campo para a cidade e de volta ao campo buscando sobreviver, à mercê da própria sorte e esquecidas pela política. A abordagem é cômica, mas não perde a postura crítica e socialmente consciente e abre margem para questionamentos sobre quem carrega a responsabilidade por aquela situação. “A culpa é nossa, do destino?”, pergunta uma personagem. “Não, do governo”, responde outro. Em comum, as obras possuem ainda a habilidade de Birri para preencher quadros, os quais frequentemente desnudam uma realidade desoladora, apresentando lado a lado estes humanos desafortunados e os mais variados animais.

2

A Casa do Anjo (La Casa del Ángel, 1957), de Leopoldo Torre Nilsson

A associação mais imediata relaciona o filme de Torre Nilsson a Orson Welles, pela forma de posicionar a câmera, a construção arrojada em torno de um imenso flashback que amarra abertura e desfecho e outras tantas coincidências e não-coincidências. Contudo, há muito mais a encontrar aqui, leituras várias que partem principalmente da condição de precursor de uma geração tão importante do cinema argentino, da qual ele próprio fez parte, na década seguinte. A variedade temática abordada e a frontalidade com que trata aspectos tão controversos da vida social e política surpreendem ainda hoje. Não fariam o sentido que fazem, porém, se fossem gratuitas, desvinculadas de uma compreensão bastante particular daquele contexto. Felizmente, o filme se ergue sobre uma noção muito bem determinada da família como repositório moral, que só no desenrolar, diálogo a diálogo, confronto a confronto, acaba desconstruída. A mãe religiosa de Ana, a jovem protagonista, ganha contrapontos em todas as frentes — o chofer que fala em aborto, as filhas que se descobrem sexualmente e questionam os ensinamentos bíblicos e mesmo o marido que, mais retrógrado que progressista, insiste em práticas pouco condizentes com essa moral cristã. É essencialmente familiar também o debate entre os congressistas, que sai do seio político, burguês e aristocrático, das questões públicas e partidárias, em direção a acusações pessoais que, no limite, atingem a honra. Em todos os casos, a descoberta de novos rumos se dá através do caminhar — as andanças da personagem central pelos bairros afastados, os vinte passos contados de seu par num duelo fatal — e se manifesta por olhares expressivos, filmados de perto. O legado do filme para latino-americanos se nota em retrospectiva de maneira mais evidente, mas são de imediato aparentes suas virtudes no que tange a questões substancialmente argentinas. É cinema com pátria, sem sombra de dúvida.

3

Tempo de Vingança (Tiempo de Revancha, 1981), de Adolfo Aristarain

O cineasta traça um paralelo inteligente e bem arquitetado entre o inusitado plano de Pedro Bengoa de fingir-se de mudo para conseguir uma indenização e seu passado como militante. Disposto a arriscar a própria vida para conservar uma fraude, anos após abandonar suas atividades como sindicalista, ele encontra uma realidade semelhante à da resistência aos horrores da ditadura. Manter o silêncio e aguentar toda forma de pressão, aspectos outrora fundamentais para sua sobrevivência, tornam a ser base de sua existência. O thriller possui sequências emblemáticas, como aquela em que o rapaz segura o grito de dor ao queimar o próprio braço com um cigarro, envoltas em um esquema bastante próprio do gênero. No limite, o protagonista se torna prisioneiro quase literal da própria convicção, e momentos como sua explosão de alívio debaixo do chuveiro não passam de um enganoso senso de libertação, o que talvez justifique até mesmo o sucesso do filme ao se esquivar da censura.

4

A Terra dos Patriarcas (Tierra de los Padres, 2011), de Nicolás Prividera

É curioso como o filme — uma série de leituras de textos sobre a história argentina, tendo o Cemitério da Recoleta como personagem e cenário — nasce e quase se perde na montagem. Nasce porque as ideias se concatenam de maneira um tanto clara. São séculos de acontecimentos narrados por figuras que se portam como fantasmas do passado de opressão e violência que ainda assombram, vagam por aí mesmo que seus corpos sejam trancados noite após noite. A ideia funciona melhor nos trechos em que Prividera explicita que aquilo ainda é real, como na sequência de abertura, por meio de menções às perseguições da ditadura, conflitos raciais, embates civis e enfrentamentos militares — uma espectadora sentada a algumas cadeiras de mim exclamava baixinho “Minha nossa senhora!” a cada citação, sorrindo apenas quando um grupo de idosos em tela cantava em frente ao túmulo de Perón, em homenagem ao líder. Não soa exatamente como um resgate histórico, posto que os argentinos lidam com a formação de seu país cotidianamente, a mencionada sequência sobre o peronismo sendo sintoma disto. A derrocada do filme, porém, se dá na mesma ilha de edição que o construiu. O ritmo lento, excessivamente pausado, um pouco entediante, que insere aqui e ali planos diversos da arquitetura do cemitério, não parece ser algo voltado para a reflexão entre memórias, mas um sinal de falsas polidez e formalidade. A sensação acaba contornada, ainda assim, pelo momento em que se cita Joaquín Ianuzzi: “Eu sou pela usura e tenho tempo”. Havendo disposição, os trechos sobre militarismo de El Crimen de la Guerra e as lembranças de Evita e Aramburu, por razões distintas, valem como recompensa.