
Dassin na frente de um espelho “hm, a cena do roubo deve ser especial… que trilha será que eu uso? Que diálogos, meu Deus?… Como farei pra criar o clima de tensão necess… OPA! Mas que caralho eu tô pensando? O que pode ser mais tenso do que fazer do espectador um dos membros do grupo, enclausurando-o no silêncio e no processo exato da ação? Ah, seu gênio filho da mãe…” e daí que a meia hora do assalto à joalheria merece uma cadeira de 4 créditos em qualquer faculdade de cinema. Nada poderia tornar a cena mais sufocante do que deixá-la virgem, bruta, utilizando do mínimo de elementos fílmicos possível para preservar a tensão natural que, de todo modo, o ato de um roubo arriscado provoca.
Mas Rififi é bem mais que o assalto, que na verdade fecha na primeira metade do filme. É um noir de um charme europeu incomparável, um amargo tratado sobre a decadência, da memória morrente daquele homem deslocado do seu tempo. Mais que o dinheiro, Stéphanois precisa provar-se útil e convencer a si mesmo de que pode vencer o homem que ficou com sua mulher enquanto ele esteve na prisão. Não são as jóias, não é a criança. É a necessidade incondicional que faz da morte de Grutter praticamente uma cura para este câncer que corrói o orgulho de um homem numa época em que a palavra “honra” ainda não havia tido seu significado anestesiado.
E mesmo que o assalto seja espetacular e tudo mais, os últimos cinco minutos são os meus favoritos. E o final é das coisas mais tristes do mundo, e inevitável, como ele bem sabia o tempo inteiro.
4/4
Luis Henrique Boaventura
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