SEGUNDO DIA
TARABATARA (Júlia Zakia)
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2/4
Sempre tenho a impressão de que a opção por se realizar um documentário seja fruto de uma proximidade com o assunto tratado na obra pelo realizador, uma inquietude que te faz querer lançar um olhar sobre o “documento” e assinar um tipo de manifesto a respeito do assunto que lhe é caro. A funcionalidade deste registro pode ser variada demais, mas o objeto a ser documentado merece ser o foco contínuo da realização. Tarabatara, de Júlia Zakia, é um registro sobre a vida de ciganos alojados no interior de Alagoas, mas que parece ser tão sem base firme quanto seus documentados. Se a vida daquelas pessoas é percorrer o mundo, a obra cinematográfica de Júlia é indefinida em sua proposta. A observação por si só parece não bastar como razão para a realização do filme, a denúncia é inexistente, os costumes são pouco observados; como disse o produtor do filme, em um dos debates do festival, muitas vezes parecia que não havia o que se filmar. Portanto, seria este um documentário sobre filmar para se filmar? A preocupação estética existe na produção, é evidente, mas as opções pelo uso eventual do super 8, por exemplo, nada mais parecem ser que exercícios de experimentação fotográfica, sem grandes possibilidades de interpretação que se espera quando a estética de um filme é modificada em casos assim. Fica, no fundo, a sensação de que a câmera de Júlia vê aquelas pessoas com certa curiosidade, mas que está mais preocupada em montar um belo plano desta observação que observar mais de perto.
ÍCARUS (Victor-Hugo Borges)
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3/4
O cinema animado por Victor-Hugo Borges é um cinema para adultos, como ele mesmo diz, ainda que disfarçado pelo ar do universo infantil. Ícarus é um filme sobre um ser habitante deste universo, que se compreende como criança, mas que acaba desenvolvendo um nível de observação do mundo ao seu redor muito mais aguçado que o dos próprios adultos. A falta de tempo para a família, a não-presença de um pai e como isso pode afetar a personalidade de uma criança, todas essas coisas são trabalhadas por Victor-Hugo no filme, de visual que remete a Tim Burton mas com alma de expressionismo alemão, no absurdo dos cenários, nas expressões dos personagens e na dureza da realidade hiper-saturada. Ao menos resta no final uma sensação de esperança no que é lúdico dentro de um sonho, ainda que finito.
DÉCIMO SEGUNDO (Leonardo Lacca)
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4/4
Na posição de espectadores de cinema nos é proposto normalmente algum tipo de imersão dentro de uma estória narrada pelo diretor, acessorado pelo fotógrafo, o diretor de arte, seus atores e assim por diante. Essa imersão eventualmente nos exige um nível de comprometimento com a trama maior que o de costume, ás vezes uma exigência grande demais e nossa primeira vontade acaba sendo a de cessar a ligação com aquela narrativa. Em Décimo Segundo é exatamente o que acontece, quando nos vemos na posição de observadores próximos demais de uma situação embaraçosa ao extremo.
Um homem chama pelo interfone uma mulher e faz uma citação a Estrada Perdida, de David Lynch, filme que possivelmente era querido por eles dois em algum tempo passado, mas que ele tenta trazer de volta ao presente. Na incompreensão dela com relação à frase citada é notado o primeiro sinal de desconforto, a idéia de que o tal passado realmente ficou perdido naquele tempo e que as modificações empregadas pela passagem deste são, possivelmente, imutáveis. Em apenas 10 segundos de filme já temos a completa dimensão do que viria, mas os próximos 20 minutos, captados em praticamente tempo real (o filme tem apenas 4 planos, sendo que o último dura mais de 15 minutos), servirão para constatar a terrível condição da mudança das relações.
O homem entra no prédio e coloca as malas no elevador, aperta vários botões de andares aleatórios e vai correndo pela escada, numa competição inútil, uma luta perdida contra a passagem do tempo. A brincadeira é correspondida pela mulher que pega a bagagem dele e o aguarda no tal décimo segundo andar. Ela parece ter lembranças daquele ato, esconde as malas dentro de casa enquanto o espera e quando ele finalmente chega, finge não saber de nada. Na demora do homem em perceber que ela estava brincando, mais uma evidência da quebra que existiu entre aqueles dois. E aí reside a maior das qualidades do filme de Leonardo Lacca, a não constatação das coisas, o jogo com a platéia. Não sabemos ao certo o que aconteceu entre eles, se foram casados ou se viveram juntos por muito tempo, há quanto tempo estão separados, o que aconteceu. Mas temos a evidência do novo homem na vida daquela mulher, nos chinelos repousados na área de serviço do apartamento, a observação da mudança no outro, pelos olhares constrangidos e pelas falas hesitantes e desse modo vamos construindo, nós mesmos, as bases fundamentais daquela relação e seus possíveis motivos de ruptura. É um tipo de cinema orgânico, que eleva o espectador a condição de participante do desenvolvimento narrativo, mas ainda mais por exigir um comprometimento emocional grande demais. Estamos diante destas duas pessoas e queremos não passar por este constrangimento, é sufocante demais. O tempo e o som reiteram as sensações de impossibilidade diante do que está fechado e tudo acaba sendo ainda mais conturbado quando finalmente se está só. A esperança vai por terra, ou por água, como simbolicamente é mostrado no filme, e qualquer chance de resposta é negada pelo corte seco ao final. Melhor assim, alívio nosso.
UM RAMO (Marco Dutra e Juliana Rojas)

3/4
No debate que seguiu a exibição de Um Ramo no festival perguntaram a Juliana Rojas se ela acreditava que o filme mais recente de M. Night Shyamalan, Fim dos Tempos, tinha algum tipo de inspiração em seu curta, ganhador do prêmio especial de melhor curta-metragem na Semana Internacional da Crítica do Festival de Cannes de 2007. A pergunta foi como uma piada e nem mesmo Rojas havia assistido ao filme de Shyamalan, mas é inegável a semelhança entre as obras. Em Um Ramo, Clarisse começa a perceber que estão nascendo nela pequenos ramos de uma planta, sem nenhuma explicação. O teor fantástico da narrativa firme de Dutra e Rojas reside no fato do acontecimento extraordinário não vir acompanhado de algum tipo de explicação lógica, assim como no filme de Shyamalan. Mas as intenções da dupla de diretores é compreender a lógica dessa personagem diante do tal “acontecimento”.
Clarisse é uma mulher comum, professora, casada, mãe de um filho, que segue uma vida rotineira habitual até descobrir, um dia após o banho, esse pequeno ramo no braço direito. Ela arranca a folha, assim como fará com todos os outros focos de nascimento que irão se alastrar pelo seu corpo. Clarisse procura um médico mas é incapaz de dizer para qualquer pessoa o que está acontecendo, nem mesmo para o marido, com quem parece ter um casamento estável. Levando em conta que a folha foi notada depois de já ter crescido um pouco, o processo de brotar dela tal ramo parece natural e indolor e as feridas que virão da atitude de Clarisse em arrancar os ramos – ou cortá-los com a navalha do marido – são a parte brutal da situação, como se fosse ela querer agir contra o que é natural. Mas obviamente não é natural para ela a situação de, aos poucos, parecer virar uma planta, então essa negação da natureza, ao mesmo tempo que Clarisse se aproxima dela, tentando substituir o peixinho do filho que havia morrido para que ele não percebesse quando voltasse de férias, a sensibilização com a notícia da baleia encalhada na costa, o ato de tirar um pássaro preso dentro de seu apartamento. Clarisse parece querer que as coisas voltem ao normal e age como se tudo estivesse em sua plena ordem, mas com um distanciamento que nega tal regime. Quando o filho retorna, ela parece distante e fria. Esse processo de distanciamento da personagem de sua condição é o que caracteriza a observação da câmera de Dutra e Rojas, nunca julgando suas atitudes, mas tentando entendê-las. E como é de praxe no trato com a individualidade dos seres humanos, quem seria capaz de dar essas respostas?
Thiago Macêdo Correia