Um Cão Andaluz (Luis Buñuel, 1929)

25 anos da morte de Luis Buñuel

É quase inacreditável que mesmo após oito décadas a obra de Buñuel e Salvador Dalí continue desafiando os mesmos parâmetros insistentemente sustentados pelo público, seja como espectador/leitor/consumidor de qualquer forma de arte. E no cinema a coisa é mais evidente. Para tudo parece haver uma estranha obsessão pelo sentido. Força-se uma significação, pega-se o abstrato e tenta-se encaixá-lo numa formatação sólida onde se confeccionam referências, simbolismos, metáforas e todo tipo de artifício bacanudo de interpretação intelectualóide.

Um Cão Andaluz é a partida de uma grande cruzada rumo à liberdade absoluta. Foda-se a narrativa, foda-se um roteiro, foda-se o modo correto de se fazer as coisas. Melhor: foda-se o modo, nenhuma transgressão seguiu regras já fincadas. Isto não significa que toda a obra deva defenestrar até a última gota de lógica, não se deve nada. Buñuel nos mostra que ‘dever’ não existe, tal como ele não se preocupou nenhum pouco em fazer sentido, em saltar livremente pelo tempo, fazer verterem formigas de uma mão ou simplesmente realizar um filme cujo único vínculo com o espectador (como se precisasse de mais algum) é o sensorial.

A navalha no olho é um convite a uma nova forma de fazer cinema: a da ausência de forma. Seguimos (tentamos) o fluxo de um pesadelo através de som e imagem como únicos pilares de um filme que na verdade sempre esteve suspenso no ar. O melhor de tudo nessa viagem é que em 15 minutos experimentamos uma intensidade de sensações não encontrada ou equiparada talvez por filmografias inteiras. E não há qualquer receio quanto à efetivação dessa experiência, levada às últimas conseqüências na segurança inabalável de Buñuel sobre estar fundando um outro cinema ao ousar romper com um método de narração já cristalizado nesta arte recém-nascida (e se ainda faz sentido falar assim, imagine há 80 anos).

Não é exagero nenhum afirmar que Buñuel estabeleceu uma fuga, um sopro de liberdade na criação cinematográfica com seu surrealismo (mais discreto e elegante na evolução da carreira, o que não significa comparação alguma com este início eclosivo) e que alivia/inspira/respalda cineastas até hoje. Descobriu-se enfim que não se sacrifica idéia nenhuma em favor de manter uma linha narrativa retilínea, que não se aborta uma bela tomada por incoerência com a realidade ou a lógica quando afinal vemos filmes muito para flertar com o ilógico, para nos deixarmos guiar por uma ilusão encenada, interpretada, iluminada e disposta numa seqüência de 24 quadros. Um Cão Andaluz é manifesto vivo à liberdade criativa.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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