


Arraste-me Para o Inferno é um embuste, mas um embuste tão divertido que se torna impossível tomar uma posição de contrariedade. A precisão de Raimi e o cuidado com detalhes, desde os mais ínfimios àqueles que fazem toda a diferença, são fantásticas (Raimi me parece ser um diretor que saberia utilizar a mais picotada das edições como ponto favorável de um filme, principalmente por saber posicionar uma câmera de forma a captar o movimento mais importante da ação e ao mesmo tempo jogar com inteligência com a mudança de ponto de vista da imagem – as seqüências de embate físico entre a velha e a moça são um primor nesse sentido). E no final das contas, por estes motivos e outros tantos, o filme acaba sendo mais do que uma emulação, mas uma peça que realmente parece ter sido desencaixada do movimento terrir dos anos 80 e descoberta duas décadas mais tarde (também remete bastante a Tourneur e sua obra-prima A Noite do Demônio, pela bela construção atmosférica, através de sombras, do vento e da própria fundamentação da mitologia e da história em si). E tem uma composição de quadro impecável, que no final das contas é o que faz toda a diferença em relação ao cinema de horror contemporâneo. Algumas ironias pinceladas por Raimi são impagáveis, como quando a protagonista come o primeiro pote de sorvete, em que maços de dinheiro vão fazendo escadinha no quadro até conduzir o olhar ao objeto. E caramba, adoro quando o filme descabela totalmente, naquela seqüência da dança do espírito. É um carnaval de bizarrices que somente poderia terminar em gargalhadas. E nem preciso comentar o final, que é genial e etc (desde a seqüência do cemitério, um primor visual).
Seria um filme comum nos anos 80. Não tem a mesma força e qualidade e inventividade de um A Morte do Demônio, por exemplo. Mas Raimi acaba comprovando que o feijão com arroz daquela época é superior à média atual. Década perdida é o caralho.
3/4
Daniel Dalpizzolo
2 Responses to Arraste-me Para o Inferno (Drag Me to Hell – Sam Raimi, 2009)