
A série Indiana Jones sempre foi elogiada por recuperar e trazer o espírito libertador dos antigos filmes de aventura, das sessões de matinê nos anos 40. Os temas não deixam de combinar, seja às vezes na mistura de histórias e lendas bíblicas com contextos do nazismo (tema do primeiro e do terceiro filme), entre outras.
“O Templo da Perdição”, para alguns, aparece como patinho feio da saga. Talvez por não ter nazistas como vilões, talvez por Indy não salvar o mundo de algo perto de um cataclisma tão intenso quanto nas outras edições – a questão que talvez seja é que, basicamente, “Os Caçadores da Arca Perdida” e “A Última Cruzada” tenham mais a ver entre si do que com “O Templo”.
O consenso, sem mais nem menos, é que “O Templo” é o mais descompromissado, divertido e escapista (o que, para a maioria, leva ao raciocínio de que é vazio). Talvez por isso é que tem característiscas que o levam a vê-lo como o mais Indiana Jones de todos. Pense em como Spielberg vai conduzindo tal narrativa, em como Indy vai descobrindo a trama e os perigos, em como acaba conhecendo a mulher deste filme, ou no pequeno garoto oriental colocado como alívio cômico (bobo, para muitos). Em contraponto, alguns relacionam momentos de “O Templo” como os mais punks da série – é só lembrar dos momentos com a tribo vilã e do ritual que beira o gore.
É de se pensar: colocar nazistas como vilões é uma alternativa fácil para qualquer narrativa, é quase politicamente correto. Não que “Os Caçadores” e “A Cruzada” padeçam de tal mal; mas a comparação politicamente correta a ser feita é que a segunda edição acaba ficando com o infeliz rótulo de despropositado e sem sentido lógico com o mundo real. Prato cheio para os que adoram procurar uma razão em tudo, um vício em ver as velhas lições de moral em tudo o que procura.
Talvez nunca seja inútil repetir aquela conversa que para alguns já virou ladainha, que não só filmes, como qualquer obra de arte, quando são sentidos atingem bem mais e são bem mais completos e efetivos, por assim dizer, do que quando pensados.
Afinal, se você reduzir a trilogia (agora quadrilogia em 2008) a um único propósito, é difícil encontrar e se encantar com alguma coisa. No caso d'”O Templo”, as cenas nos lagos, no templo, nos carrilhões, nos corações arrancados, no bar, o Indy escondido, os eternos bichos asquerosos no meio do caminho atrapalhando, tudo na produção e condução que merecem, cenas que falam por si só. “O Templo da Perdição” é o que eleva o conceito da série ao mais alto, é o que mais exagera, na diversão, no humor, na tensão, no ritmo. Alguns não gostam de exageros, mas a partir do momento em que você embarca na aventura, junto com Indy e Spielberg, é que você percebe e sente o máximo que a saga podia transmitir. Está tudo lá sintetizado: tem a tensão de uma aventura super-produção, os contrastes entre o alívio cômico e uma trama pseudomacabra, cenas de quase comédia romântica com outras de quase terror, tudo feito na maior naturalidade, tamanha a relação entre a expressão de Harrison Ford quando vê um montão de sangue e quando conversa com o garoto ou com Kate Capshaw. Uma aventura de matinê nostálgica, uma sensação gostosa em ir num espírito de um bom tempo atrás. Alguns diriam “só isso?” quando é “tudo isso”.
4/4
Pedro Kerr
4 Responses to Indiana Jones e o Templo da Perdição (Steven Spielberg, 1984)