Os Caçadores da Arca Perdida (Steven Spielberg, 1981)

Bem ao modelo de James Bond, Steven Spielberg dá início à sua primeira aventura em torno das inesquecíveis jornadas do arqueólogo Henry Jones Jr. com um prólogo que praticamente resume toda a atmosfera da série: o nosso herói, depois de saquear – com nobres intenções de preservação – certo objeto histórico em uma caverna do sul da América, precisa fugir dos mecanismos de defesa daquele lugar místico, que com o tempo passam de meras armadilhas, teias de aranha e buracos a nativos selvagens, parceiros traidores e até mesmo uma pedra gigante que rola em sua direção.

Spielberg talvez não soubesse, mas com esta homenagem às matinês aventurescas que freqüentava quando criança estava redefinindo os rumos que tanto o cinema pipoca quanto o gênero ‘pega-pega’ trilhariam a partir de seu lançamento, bem ao início da década de 1980 – provocando nitidamente um reflexo direto em toda a produção hollywoodiana desse período e gerando milhares de releituras/homenagens/cópias vagabundas que pretendiam fazer uso do mesmo misto entre ação e comédia, mas sem jamais conseguirem um resultado tão brilhante -, de quebra ainda construindo sua obra-prima, à frente de outros grandes filmes como Encurralado, Jurassic Park e, mais recentemente, Minority Report.

Mais do que um ponto de encontro entre o velho modelo de aventura e a nova geração cinematográfica, pode-se dizer que Os Caçadores da Arca Perdida seja um dos maiores exemplos de iconicidade – tanto de personagens quanto de situações – cinematográfica e de como se conduz uma aventura dentro dos padrões atuais de ritmo e de montagem. Aliás, indo um pouco mais além, pode-se dizer que Spielberg fundamentava com este filme o verdadeiro oposto ao cinema tradicionalista do maior contador de estórias da velha Hollywood, Howard Hawks, desregulando o ritmo paradoxal de seu mestre, que atingia um grau inexplicável de cadência sempre fluente – mas sem trocar de marcha nem mesmo no clímax -, a fim de produzir uma nova visão de passeio completamente oposta, onde a fluência se dá justamente por tornar a freneticidade linear – algo que o próprio Hawks já havia feito em filmes como Jejum de Amor e À Beira do Abismo, mas ainda à moda antiga.

É uma condução exemplar, que dá forma à verdadeira essência da capacidade de Spielberg em mergulhar o espectador na mais improvável das estórias e transformar tudo em um mundo mais crível do que o de qualquer filme-denúncia dinamarquês. Seu ritmo é ininterrupto, suado, e deixa caminho sempre aberto para que a impressionante capacidade de renovação em termos de trama possa surpreender o espectador com uma sucessão extasiante de momentos divertidos, engraçados e tensos, dosados numa mesma medida – e talvez a imagem mais curiosa disso tudo seja o embate entre Indy e um espadachim árabe, que fica girando a espada incessantemente como forma de provocar e amedrontar seu opositor. O que Indy faz? Simplesmente saca uma arma e mata o cara com um tiro. Um gesto rápido e certeiro, assim como a montagem entre as seqüências, em geral cheias de correria, porém sempre enxutas. É ‘pá’ e ‘vamos pra próxima’.

Mas isso tudo talvez não fosse tão marcante se a aventura de constantes vai-e-vens entre o arqueólogo aventureiro e seus carrascos nazistas, que têm interesse pelo mesmo artefato que promove a jornada de Indy através do deserto – a busca pela tal Arca Perdida do título; na realidade, um dos exemplos mais consistentes de McGuffin do cinema -, não tivesse embalo da música espetacular de John Williams, mais evocativa e marcante do que qualquer outra composta pelo habitual maestro de Spielberg. É um casamento tão indispensável, esse entre a imagem e a trilha de Indiana Jones, que pode-se atribuir metade da iconicidade do filme à própria música. A outra metade, além da parcela de Spielberg, fica por conta de Harrison Ford e seu chicote, uma figura de elementos indissolúveis até hoje estagnada na elite da consciência cinematográfica popular.

4/4

Daniel Dalpizzolo

5 Comments

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5 Responses to Os Caçadores da Arca Perdida (Steven Spielberg, 1981)

  1. Melhor filme do gênero em todos os tempos, melhor filme de Spielberg e um clássico moderno que ainda deve crescer de conceito à medida que passar o tempo.
    Spielberg e Lucas não tinham certeza se criariam uma série a partir do primeiro filme. Por isso mesmo, a criação do filme se deu mais em termos de um filme isolado. Por isso, apesar do humor, “Raiders…” é mais sério, o personagem é menos bonachão e mais misterioso. O final é simplesmente perfeito, todo o tratamento dado ao roteiro pelo Kasdan e à fotografia pelo Slocombe são, digamos, mais sérios. A partir do momento que se tornou sucesso, Indy tornou-se um produto. Suas histórias tornaram-se aventuras divertidas e excitantes, mas mais cartunescas, apesar de ainda irresistíveis. Esse aqui é clássico absoluto, diferente dos outros, superior em todos os sentidos.

  2. Daniel Dalpizzolo

    Falou e disse.

    Superior em todos os sentidos mesmo – tanto aos outros da série quanto aos outros do Spielberg.

  3. Luis Henrique Boaventura

    Caçadores está, quase que indiscutivelmente, MUITO acima dos outros dois exemplares da série – que, sendo sincero, não me cativa com a mesma força que aos outros membros do Multiplot! -, bastante pela finitude deste primeiro filme em si mesmo, bastando-se sozinho com o peso muito bem suportado de ter inventado e reinventado toda uma mitologia e aquele que certamente é o ícone definitivo de herói cinematográfico. Fora que, ao lado das duas primeiras partes da Trilogia De Volta Para o Futuro, é dos filmes mais alucinadamente rápidos que existem.

  4. Concordo com vocês, Os Caçadores da Arca Perdida é O exemplar do cinema de aventura, e deverá figurar entre os grandes clássicos do cinema. Adoro todos os quatro filmes da série, mas não há comparação possível entre os outros e este aqui, em que técnica e sentimento se unem para criar um dos maiores marcos da minha geração.

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