Indiana Jones e o Templo da Perdição (Steven Spielberg, 1984)

A série Indiana Jones sempre foi elogiada por recuperar e trazer o espírito libertador dos antigos filmes de aventura, das sessões de matinê nos anos 40. Os temas não deixam de combinar, seja às vezes na mistura de histórias e lendas bíblicas com contextos do nazismo (tema do primeiro e do terceiro filme), entre outras.

“O Templo da Perdição”, para alguns, aparece como patinho feio da saga. Talvez por não ter nazistas como vilões, talvez por Indy não salvar o mundo de algo perto de um cataclisma tão intenso quanto nas outras edições – a questão que talvez seja é que, basicamente, “Os Caçadores da Arca Perdida” e “A Última Cruzada” tenham mais a ver entre si do que com “O Templo”.

O consenso, sem mais nem menos, é que “O Templo” é o mais descompromissado, divertido e escapista (o que, para a maioria, leva ao raciocínio de que é vazio). Talvez por isso é que tem característiscas que o levam a vê-lo como o mais Indiana Jones de todos. Pense em como Spielberg vai conduzindo tal narrativa, em como Indy vai descobrindo a trama e os perigos, em como acaba conhecendo a mulher deste filme, ou no pequeno garoto oriental colocado como alívio cômico (bobo, para muitos). Em contraponto, alguns relacionam momentos de “O Templo” como os mais punks da série – é só lembrar dos momentos com a tribo vilã e do ritual que beira o gore.

É de se pensar: colocar nazistas como vilões é uma alternativa fácil para qualquer narrativa, é quase politicamente correto. Não que “Os Caçadores” e “A Cruzada” padeçam de tal mal; mas a comparação politicamente correta a ser feita é que a segunda edição acaba ficando com o infeliz rótulo de despropositado e sem sentido lógico com o mundo real. Prato cheio para os que adoram procurar uma razão em tudo, um vício em ver as velhas lições de moral em tudo o que procura.

Talvez nunca seja inútil repetir aquela conversa que para alguns já virou ladainha, que não só filmes, como qualquer obra de arte, quando são sentidos atingem bem mais e são bem mais completos e efetivos, por assim dizer, do que quando pensados.

Afinal, se você reduzir a trilogia (agora quadrilogia em 2008) a um único propósito, é difícil encontrar e se encantar com alguma coisa. No caso d’”O Templo”, as cenas nos lagos, no templo, nos carrilhões, nos corações arrancados, no bar, o Indy escondido, os eternos bichos asquerosos no meio do caminho atrapalhando, tudo na produção e condução que merecem, cenas que falam por si só. “O Templo da Perdição” é o que eleva o conceito da série ao mais alto, é o que mais exagera, na diversão, no humor, na tensão, no ritmo. Alguns não gostam de exageros, mas a partir do momento em que você embarca na aventura, junto com Indy e Spielberg, é que você percebe e sente o máximo que a saga podia transmitir. Está tudo lá sintetizado: tem a tensão de uma aventura super-produção, os contrastes entre o alívio cômico e uma trama pseudomacabra, cenas de quase comédia romântica com outras de quase terror, tudo feito na maior naturalidade, tamanha a relação entre a expressão de Harrison Ford quando vê um montão de sangue e quando conversa com o garoto ou com Kate Capshaw. Uma aventura de matinê nostálgica, uma sensação gostosa em ir num espírito de um bom tempo atrás. Alguns diriam “só isso?” quando é “tudo isso”.

4/4

Pedro Kerr

4 Comments

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4 Responses to Indiana Jones e o Templo da Perdição (Steven Spielberg, 1984)

  1. Luis Henrique Boaventura

    Aa claras inclinações B do Templo da Perdição nunca me incomodaram, o que enche o saco e transforma uma experiência de diversão numa série delineada de frustração e tortura é o fato de a mulher e o moleque não serem despedaçados pela tribo enfeitiçada, não caírem no torvelinho de lava ou não serem feitos de guisado pelo moedor de pedras. As seqüências terminam numa sucessão bem incômoda de decepção sobre decepção. E até que o Spielba deve ter percebido isso, porque o tapa na cara do pirralho chato é quase redentor.

  2. Enxak

    Discordo, Foras. A loira chata e o pirralho eram protegidos e companheiros na aventura de Indy, o herói. Se eles fossem castigados assim, a imagem mítica de Indy se esfacelaria.

  3. Luis Henrique Boaventura

    Você quer dizer que seria ‘incoerente’ com o tom do Indiana?

  4. Curiosamente, esse é o filme do Indy que eu vi mais vezes. Eu o considero um pouco inferior, no geral, a Caçadores e Cruzada, mas ele possui um bocado de cenas marcantes. Particularmente, fiquei muito impressionado quando pequeno com o tal ritual na caverna. A cena da ponte é outra que ficou pra sempre na memória. Enfim, é um grande filme, que sempre vale a pena rever.