
Vício Frenético é como o choro final de Harvey Keitel: seco; duro; sufocado; doído. Desde o primeiro momento, Abel não mede gestos e nem faz concessões, de forma semelhante ao que realiza em todo grande filme seu [e que filme de Ferrara não é grande, eu perguntaria]. É um cinema de extremos, onde as portas para o céu e para o inferno ficam frente a frente no corredor do purgatório. E o que parece impressionante em um momento, como a cena de abertura, quando, depois de deixar seus filhos na porta da escola, com o carro ainda parado em fila dupla, o Tenente viciado e desamparado puxa um papelote de coca pra cheirar, acaba se tornando uma imagem corriqueira depois que outra, e mais outra, e mais outra tão ou mais intensas vêm pra enterrar os conceitos de limites que construímos para o próprio filme.
Ao mesmo passo que fotografa uma verdadeira descida ao inferno, onde o mal é combatido com o mal e o bem fica muito mais como uma grande ilusão intelectual, Ferrara transforma este Vício Frenético em um filme de dupla personalidade – mas sem distingui-las jamais. E tudo não passa de um reflexo da própria condição do protagonista, que em sua doença esconde todo o penar que lhe castiga, mas que permanece sufocando e matando por dentro – e é uma tremenda sacanagem que a exteriorização disso tudo seja feita justamente quando consegue liberar seus demônios, tanto na cena da igreja, onde imagina Jesus Cristo e implora-lhe perdão, quanto na própria ação de libertar das conseqüências aqueles jovens criminosos que estupram a freira – num misto de boa e má ação, o que não poderia ser mais fiel à dualidade de sentimentos que fazem dele um dos anti-heróis mais complexos do cinema.
E essa grande ilusão entre o castigo e a redenção – que em muitos momentos é tratada como tal, principalmente na construção de toda a atmosfera onírica evocada por um ou outro elemento de cena, quase sempre a iluminação – é registrada com uma frieza assustadora, como se o próprio personagem impusesse à câmera os limites para a dissecação de sua dor e de seu mergulho predestinado ao afogamento. E ainda assim o filme consegue ser de uma intensidade dominadora, e talvez seja por isso que o final, totalmente traiçoeiro, deixe uma sensação tão desconfortável, ainda que seja sabido que a própria ação nada mais é do que uma concretização daquilo que o homem havia tentado fazer consigo o filme todo, só que não conseguia por a ação vir de dentro, de um ponto que já não acompanhava mais aquela caminhada desorientada e, portanto, não respondia.
Pode-se dizer com facilidade que Vício Frenético resume em prática grande parte do cinema de Ferrara – embora não seja sua maior obra-prima, posto que é seguro a New Rose Hotel, a maior extremidade do experimentalismo com a tenuidade da imagem e um filme tão transgressor quanto fundamentador de conceitos, todos estes ainda inaplicáveis ao cinema contemporâneo – e que deverão sofrer com isso por mais uns 30 anos, pelo menos. Mas acho que nem mesmo todo o conjunto consegue ser tão expressivo e melancólico quanto o monólogo que a amiga viciada de Keitel profere em sua última participação no filme, um discurso que praticamente define em duas dúzias de palavras o que muitos realizadores tentaram transmitir com uma carreira inteira – e até mesmo Ferrara provavelmente nunca havia sido tão claro.
Isso, junto do momento em que o diretor questiona a culpa e o perdão católicos, naquele encontro traumático entre a freira e o protagonista na igreja, estão certamente entre as coisas mais marcantes que eu já vi em um filme. “Jesus transformou a água em vinho. Eu deveria ter transformado esperma amargo em esperma fértil, ódio em amor, e talvez ter salvado a alma deles. Eles não me amaram mas eu deveria tê-los amado”. Sufoca apenas reproduzir isso aqui pro computador. Imagina só, então, a cabeça de quem escreveu uma coisa dessas.
4/4
Daniel Dalpizzolo
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