Os Viciosos (Abel Ferrara, 1995)

A genialidade de Ferrara não se instala simplesmente no fato de apresentar uma estória de vampirismo de forma absolutamente diferente de tudo o que já foi filmado, sem citar uma única vez qualquer termo que remeta à maneira óbvia de se ver o problema – o sobrenaturalismo – e multifacetando a condição metaforicamente para apresentar sua visão sobre uma Nova York – representando o mundo – tomada por vícios, mas sim na maneira como consegue construir um grande e desparametrizado universo ficcional sem tirar o pé do real, desenvolvendo, assim, um verdadeiro tratado filosófico sobre a natureza humana, de deixar qualquer teoria nietzschiana no chinelo.

 

E sua iconoclastia toma aqui proporções desesperadoras, sufocando a degradação da protagonista, estupendamente carnificada por Lili Taylor, em um percurso de extremos, inserido em um governo ruidoso e conduzido por aquele velho lado traiçoeiro da moeda mais antiga, o maior inimigo da humanidade, o mal. Mas o que Abel faz é simplesmente subverter os papéis. Para ele, é o mal o grande vício do ser humano; um estado de renovação; a heroína injetada na veia; a forma mais precisa de se esconder da realidade. Um vício que vem de dentro, que é a essência, é o espírito. E tudo o que precisamos fazer é alimentá-lo. Com sangue; com carne; com vida.

 

Acredito que poucas intervenções de personagens passageiros em meio ao trajeto de um protagonista sejam tão importantes quanto os poucos dez minutos em que Christopher Walken participa de Os Viciosos – tanto é que seu nome aparece por segundo nos créditos de abertura. Walken é o microcosmo dessa visão de Ferrara dentro da instituição social, dono de toda a consciência que existe sobre a problematização – e o corte entre as duas seqüências que participa, na rua, onde o espaço que ocupava na tela é preenchido por um forte, estourado e reluzente feixe de luz, praticamente resume todo o filme em apenas um segundo.

 

E nada é mais certeiro do que pontuar esse universo com recortes de imagens icônicas de guerras, já que a jornada, em sua perspectiva, nada mais promove do que a gradativa compreensão da protagonista sobre os princípios básicos sobre os quais é estruturada a humanidade – e as seqüências em que ela finalmente começa a clarear sua visão em torno da maldade que rege as ações humanas formam um conjunto de imagens preto-e-brancas atmosfericamente impressionantes – e o curioso é que, mesmo com toda essa perversidade, Ferrara ainda reserva espaço para um plano final que deixa a sensação de que uma solução pra essa condição é verdadeiramente possível. 

 

Afinal, o vício é uma escolha.

 

4/4

 

Daniel Dalpizzolo

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3 Responses to Os Viciosos (Abel Ferrara, 1995)

  1. Gostei do site e dos artigos.
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    Sucesso para o teu sitio na net.
    Parabens pelos posts

  2. Luca Dourado

    Olha, até acho esse filme ótimo, mas acho que o final avacalha de vez. Essa história de redenção e superação no final foi ridícula pra mim, pois destoa do resto do filme, e faz Ferrara parecer meio covarde em fazer um filme realmente frio, aí dá aquele final ameno.
    E discordo da frase final, não, o vício muitas vezes não é uma escolha.

  3. Daniel Dalpizzolo

    É escolha.