
Por mais que boa parte da casta cinéfila não concorde que essa nova safra não se constitua dos mais representativos trabalhos da carreira do canadense mais visceral de que se tem notícia, acredito ser inegável o quanto ela evidencia seu grande amadurecimento artístico, já que ficam cada vez mais claros os objetivos e intenções de Cronenberg do ponto de vista de realizador, sempre seguro e confiante em onde espalhar e explorar suas manias e obsessões a cada novo filme.
O senhor do quanto-mais-bizarro-melhor já havia esboçado um pequeno flerte com os filmes de máfia em Marcas da Violência, mas nesse Senhores do Crime resolveu levar um pouco mais a sério a brincadeira com as peças de gênero e costurou um duro conto policial retratando um tormento na esfera dramatúrgica e psicológica mais mordente que toda a brutalidade física que desfila pelo filme, onde o corpo humano, o objeto cronenberguiano de estudo por excelência, representa a violência, a esperança, o sacrifício e a redenção.
A proficiência com que Cronenberg se utiliza de recursos estilísticos para se aprofundar no material que tem em mãos é admirável: primeiramente conferindo um visual requintado à aterradora Londres dominada pela máfia russa, o diretor termina por se debruçar de maneira especulativa sobre os arquétipos inseridos na trama, desconstruindo de modo quase lacônico a noção de gênero por meio da transgressão que os personagens sofrem, tanto física quanto moralmente.
3/4
Vinícius Laurindo
ou: Senhores do Crime (David Cronenberg, 2007) – Daniel Dalpizzolo – 4/4
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