Minority Report (Steven Spielberg, 2002)

Sempre preguei que se Spielberg não é um de meus cinco ou dez diretores preferidos, pelo menos conserva uma privilegiada posição entre os melhores contadores de estórias, lançando mão de quaisquer artifícios fílmicos para alcançar seus objetivos. Do período jurássico até a época em que humanos terão suas necessidades preenchidas por robôs, ele tratou suas fábulas com tanta proficuidade e carinho que estas vêm se renovando a cada revisão com vigor suficiente para catapultá-lo ao Olimpo dos completos conhecedores e grandes manejadores dos dispositivos que o cinema tem a oferecer.

É embriagado do storytelling spielberguiano que venho celebrar a melhor de suas abordagens mais recentes, Minority Report, adaptação de refinada aparência noir para um famoso conto de Philip K. Dick, que vem ganhando status em determinadas ilhas de pensamento, embora ainda esteja um pouco afastada do devido reconhecimento resguardado a essas obras que partem do esfacelamento da bonomia para então se justificar na supressão de uma doutrina maquiavélica cada vez mais atemporal.

A normatividade social do futuro localizado em 2054 surge do caos e se escora num programa de cunho pré-cognitivo e resoluções facilmente dubitáveis, no qual a ação fatal de uma cadeia de eventos é revelada minutos antes que, de fato, aconteça, e que viu seu desenvolvimento e aplicação serem efetivados graças às portas abertas por uma insustentabilidade social ocasionada por uma epidemia de homicídios. Num exímio processo de montagem, logo no início, absorvemos o processo e suas conseqüências de ordem moral – a penalização de um intento não materializado, só para ficarmos na superfície -, mas eficiente no que se propõe: estagnar o impulso assassínio pulsante no ser humano.

Ao invés de esgotar o substrato filosófico que dá base a todo o filme, Spielberg centraliza tudo próximo do que poderíamos apelidar de figura hitchcockiana: o inocente. Só que miscigenado com os arranhões causados pelo desmanche familiar. Agora, sob a navalha de um sistema mecanizado e subjugador maior que ele próprio, entenderá os efeitos da manutenção de um controle rígido, e começará a correr em busca da paz — principalmente a de caráter subjetivo —, mesmo que ela se esconda nos cantos mais remotos da mente, onde a felicidade só passeia por meio dos sonhos.

Às vezes penso que a grande trama não passa de desculpa para uma fértil criação de um universo tão arruinado e sujo quanto as ambientações ideológicas de um futuro onde seus olhos te denunciam em qualquer lugar público, atividades — prosaicas em maior ou menor grau — são interrompidas como se destituídas de qualquer valor individual, e, na falta de algo concreto, os prazeres se tornam fugazes e meramente virtuais. Revelado esse prisma, acredito que Minority Report apresente umas 3 camadas generosamente rechonchudas de boa compreensão.

3/4

Vinícius Laurindo

2 Comments

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2 Responses to Minority Report (Steven Spielberg, 2002)

  1. fernando americo

    Minority Report é um filmaço, e merece 5/4!

  2. Há que se destacar o valor da obra do Philip K. Dick, uma idéia inspiradíssima, bem desenvolvida e, como disse o Vinícius, cheia de significado.

    E a adaptação caiu nas mãos certas, pois o Spilba expreme a premissa e cria um filmaço.