
- 1970 – 1993
“… vi um filme tantas vezes pra desvendar os olhos teus”
É algo meio inexplicável o fascínio que River Jude Phoenix exercia através, simplesmente, de um olhar, lançado como um feitiço sobre o público. Fascínio este que lhe rendeu, além, claro, de fama, dinheiro e uns gritinhos histéricos, uma carreira em ascensão, reações quase que encantadas tanto de pessoas comuns, rapidamente convertidas em fãs, quanto de grandes personalidades (já, já conto a história de Milton Nascimento, a quem pertencem as palavras entre aspas) e, como que por obra de algo ou alguém, uma morte trágica e precoce, passaporte direto para a eternidade, a invenção de uma fábula. E sua história parecia mesmo não poder terminar de outra forma.
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River era “consciente”, engajado em movimentos de preservação ambiental, vegetariano e membro do PETA (órgão voltado aos direitos dos animais), influências da criação de pais hippies. Tinha três irmãs, Rain, Summer e Liberty, e um irmão, Leaf Phoenix (que depois mudaria o nome para Joaquin). Depois de quase dez anos perambulando pela América Latina com o culto cristão Filhos de Deus (há inclusive boatos de pedofilia, conforme uma declaração de 91 posteriormente desmentida de que, segundo River, ele teria perdido a virgindade aos 4 anos durante um dos cultos), os Phoenix (nome aderido exatamente após a saída do movimento) retornam aos Estados Unidos, em 1977, dispostos a recomeçar, e o teatro é o caminho que Arlyn e John Lee escolhem para seus filhos.
Apesar de uma participação no obscuro Explorers, em 1985 (oficialmente seu primeiro papel no cinema), River alcança a fama logo em 86 com o clássico vespertino Conta Comigo. No mesmo ano trabalharia ao lado de Harrison Ford em A Costa do Mosquito (que aliás era sua atuação favorita), mas só seria realmente notado, provando ser algo além de um dos inúmeros atores mirins oitentistas que cairiam no ostracismo, em 1988, com O Peso de um Passado, de Sidney Lumet, filme que lhe renderia uma indicação ao Oscar (perdido para Kevin Kline por Um Peixe Chamado Wanda). Ainda assim, Phoenix permanecia sem desafios na carreira, história que mudaria em 1991. Garotos de Programa (My Own Private Idaho, Gus Van Sant) foi o grande responsável por realmente alçar Phoenix àquele plantel de atores cujo talento é incontestável, no papel de um prostituto narcoléptico e bissexual.
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Muito de Garotos de Programa (que, já antecipando, eu não gosto) parece retratar um River Phoenix naquele nível turvo e onírico da estrada no deserto. Sem começo e sem fim, e com um constante anseio de voltar, voltar, voltar não se sabe pra onde, voltar para um carinho materno que existe apenas nos sonhos mais incertos, onde memória e imaginação se confundem. E River segue adormecido no caminho de um asfalto rumo ao infinito ao pegar essa carona do final de Idaho exatamente na porta da Viper Room, numa madrugada de Helloween, da Califórnia pra eternidade.
River morreu de uma overdose de speedball (um coquetel de heroína e cocaína), e embora o óbito tenha sido declarado oficialmente cerca de 50 minutos depois do início das convulsões, acredita-se que ele tenha morrido mesmo na calçada da Viper Room (boate de Johnny Depp), nos braços da namorada Samantha Mathis, enquanto seu irmão mais novo Joaquin Phoenix (que é um puta ator aliás) ligava para o 911. Johnny Depp fechou a boate todos os dias 31 de outubro enquanto foi dono, de 93 a 2004.
E como não podia deixar de acontecer, foi sendo construída toda uma mitologia em torno de River e de sua morte. Desde as circunstâncias, do fato de ser um dos atores mais promissores de sua geração, da eleição da Viper Room como seu eterno santuário e das inevitáveis lendas contadas a seu respeito. Há quem diga por exemplo que de certa forma Phoenix já previa a própria morte (e de todo modo a overdose é uma forma de suicídio indireto), além de haverem certas coincidências proféticas em seus filmes. O ator estava escalado para participar de Entrevista Com o Vampiro (primeiro no papel de Lestat – que ficou com Tom Cruise – e depois como o entrevistador, que terminou com Christian Slater). Pouco tempo antes de morrer, ele declarou a SET: “Não me vejo fazendo parte de Entrevista Com o Vampiro”.
Tinha Hollywood a seus pés. Era bonito, talentoso e possuía uma imagem pública imaculada pelo seu lado engajado e ativista (e de qualquer forma a overdose não deixa de ser também uma ironia). Sua morte foi citada em 16º entre os eventos mais chocantes da história da mídia pela E! Television. Além de Entrevista Com o Vampiro, estava escalado para Eclipse de uma Paixão (papel que ficou com Leonardo di Caprio) e, por muito pouco, não se aproxima ainda mais de James Dean e Heath Ledger com um filme estreando posteriormente a sua morte. Ocorre que Dark Blood, 90% filmado, teve de ser simplesmente cancelado pela falta de algumas cenas fundamentais com Phoenix. E, seja pra engrossar o mito ou não, dizem muito que ele estava transcendental no filme.
River Phoenix morreu muito, mas muito cedo, e ao contrário de Dean e de Ledger, não teve a chance de pegar um personagem que o emoldurasse para sempre nos murais da história. River nunca será um rosto definitivo como Jim Stark ou Ennis Del Mar, ou o Coringa. Ele, estranhamente, será apenas River Phoenix, sem parecer no entanto precisar ser qualquer coisa além disso, porque de algum modo seus olhos sempre foram os mesmos, em todos os filmes, dando a entender que ele fez e refez a si mesmo durante seus 7 anos de carreira. E é esse mesmo misto de segredo e tristeza nos seus olhos que lançava um efeito inexplicável sobre as pessoas. Como aconteceu com Milton Nascimento.
Carta a um Jovem Ator
Essa é uma daquelas histórias que de certa forma reconforta os pessimistas e funde a cabeça dos céticos. Da minha parte, sou absolutamente cético quanto às possibilidades de uma coincidência dessas acontecer, daí que não me restam muitas opções.
Consta na biografia oficial do cantor, “Travessia: a Vida de Milton Nascimento”, de 2006, escrita por Maria Dolores. Em 1988, depois de finalizar uma turnê pelos Estados Unidos, Milton Nascimento resolveu tirar uma folga em Nova Iorque e ficou hospedado num hotel chamado Mayflower, perto de um ap onde estavam Xuxa e Simone. Milton ia visitá-las constantemente para ouvir música e ver filmes e tal. Numa dessas vezes, viram ser anunciado para mais tarde um filme chamado Conta Comigo, de Rob Reiner, e resolveram assistir, mas acabaram esquecendo. Quando Milton voltou pro seu quarto de hotel, o filme já havia começado.
Quando Milton viu River Phoenix na tela, sentiu algo, uma ligação, uma sensação que não conseguia explicar. Milton cita muito os olhos, sempre os olhos de Phoenix como catalisadores de um sentimento original, qualquer coisa arrebatadora à qual ninguém ainda havia dado um nome. Ficou atento aos créditos e depois de ver “River Phoenix” se acender na tela, sentiu não ter dúvida de que aquele era o nome do garoto que o encantara. Milton procurou a programação da TV, localizou os horários em que Conta Comigo seria reprisado, e passou a ver e rever o filme todas as vezes que podia. Acabou escrevendo uma música.
Já de volta ao Brasil, Milton queria que a música para Phoenix abrisse o lado A do seu disco “Miltons” (1989), e resolveu batizá-la com o nome do ator. No entanto, precisava da autorização de River. Seu agente conseguiu o telefone da mãe do ator, Arlyn “Heart” Phoenix (que era quem cuidava da sua carreira), e Milton ligou contando o que havia ocorrido. Arlyn, que nunca ouvira falar dele, achou que era mais um fã doido e desligou. Quando River soube o que havia acontecido, correu ligar de volta para Milton, dizendo que, recentemente, quando estava hospedado no hotel Mayflower em Nova Iorque, resolveu entrar numa loja de discos na mesma rua e, sem saber por que, comprou um disco de Milton Nascimento, cantor brasileiro de quem ele nunca havia ouvido falar. Quando ouviu o disco, se apaixonou perdidamente.
River Phoenix veio ao Brasil, a convite de Milton, e ficou hospedado na sua casa. Os dois permaneceram grandes amigos até a morte do ator.
Conta Comigo (Rob Reiner, 1986)

Não existe tema mais difícil de ser trabalhado que a nostalgia. Isso porque ela não permite apelos, não aceita sofisticação, rejeita hermetismos, despreza artifícios e ferramentas com as quais um autor pode moldar e adornar sua história. Um filme sobre nostalgia dá certo à base de algo que, exatamente pela simplicidade, acaba se tornando extremamente complexo: identificação. E não é necessário, no caso, ter vivido os anos 50, porque a ligação do espectador com seu filme ocorre num nível inexplorado e desconhecido: o sensorial. Vai, portanto, da habilidade do diretor em unir elementos e conduzir sua história para que este determinado efeito tão raro e incompreensível de repente passe por você, durante os créditos, ao som de Ben E. King, como o cheiro de algo estranhamente remoto e familiar que surja por uns instantes e desapareça rapidamente.
É claro que não existe nada tão subjetivo quanto se identificar com um filme, ainda mais pelas vias da saudade (compostas sempre de lembranças e sensações que são suas e de mais ninguém), mas Conta Comigo é todo forjado pela lâmina de um espelho. Há uma variedade de personalidades entre os moleques palatável ao coração de cada um, embora pessoalmente eu não me veja dependendo de um deles, porque os quatro formam a unidade de uma única instituição: a infância.
É pela evocação quase tributária da infância que Conta Comigo pega seus espectadores pela mão e os leva a uma viagem de volta. Voltar, voltar, voltar… sempre esse caminho de tentativa e de falha pela impossibilidade frustrante de recuperar um pouco daquela atmosfera encantada da infância, algo que, por poucos instantes, pode acontecer em Conta Comigo.
Na óbvia impossibilidade de se fazer um filme com os sonhos e a memória de cada um como matéria-prima, Rob Reiner (ou Stephen King, já que o conto original é dele) enxerta-nos uma história (com elementos que pertencem ao senso comum), nos faz vivê-la com aqueles quatro garotos para, então, nos golpear duramente no final. Narrar secamente a passagem nociva do tempo, a perda das coisas, a dissolução das amizades, e então nos fazer ter saudade de algo que ocorreu há poucos minutos, mas que colocado num estágio desconhecido de sentimento, torna-se indefinido e atemporal, como se não apenas tivesse acontecido, mas também já era trazido conosco de um tempo do qual não sobram recordações físicas ou visuais. Não possuem som, não possuem rosto, não possuem cheiro, apenas existem.
Conta Comigo é o mais próximo que se pode chegar de uma viagem de volta no tempo. É a recriação daquelas tardes compridas, com minutos que duravam horas e com horas que duravam dias. É o reencontro com um tempo em que qualquer ida mais longe de casa era uma aventura daquelas que nunca mais viveríamos, um tempo onde frutas das árvores e doces caseiros possuíam um sabor que jamais voltaria a ser igualado. Quando a amizade era a coisa mais importante do mundo e, principalmente, quando se tinha uma impressão tão doce quanto tola e inocente de que aquelas mesmas tardes não acabariam nunca.
Mas o tempo é a morte de todas as coisas. A infância precisa acabar, os amigos precisam ir embora e a vida precisa ficar madura e cinza. Ver River Phoenix literalmente desaparecendo no final de Conta Comigo é se dar conta de que talvez exista um acordo mudo na vida. De que talvez coisas boas demais simplesmente não possam ficar com a gente, de que talvez a infância e River Phoenix sejam habitantes naturais muito mais da memória e da imaginação que do mundo real, e que o tempo sempre passa e sempre leva algo consigo, seja no fim de um caminho de terra, seja na porta da Viper Room.
“The endless River runs”

Luis Henrique Boaventura
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