


Nunca negamos que isso aqui é casa de louco (o último texto do Luis bem comprova isso, hehe), então vou começar a falar de Desperate pelo final. Uma porque o texto é meu e eu começo com o que eu quiser, e outra pelo simples fato de que aqueles 20 minutos são das melhores coisas filmadas por Mann, o que também significa que estamos diante de um cinema de apuro visual, narrativo e, ahn, sensorial (na falta de um termo melhor porque enfim, estou escrevendo isso tudo com o notebook no colo em um ônibus quicando numa estrada cheia de panela – e o motorista quase atropelou uma velha em cima duma faixa de segurança o que talvez possa ser um sinal) limítrofes, que impressionam como poucos e ao mesmo tempo dão uma vontade imensa e quase incontrolável de pegar um bastão de baseball e arrebentar o televisor de raiva por saber que jamais seria capaz de fazer uma coisa tão foda assim.
Em qualquer uma de suas fases Mann foi um grande precursor, e se percebe vendo sua carreira como um todo que ele realmente explorou das melhores formas as possibilidades de se extrair tensão e profundidade das cenas que filmava (o texto é tão bom e confiável que eu falei que começaria falando sobre a seqüência final e nem mencionei ela ainda). Mas enfim, a seqüência final, ou as duas seqüências finais (final-final mesmo é apenas uma, mas enfim[2]), é uma coisa absurda, capaz de resultar nesse descontrole todo que vocês tão presenciando (se é que alguém ainda tá lendo isso). Leone pra filmar Três Homens em Conflito deve ter visto Desperate de trás pra frente umas cinco vezes por dia durante seis semanas, ou se filmou sem olhar deve ter sido alertado mais tarde, olhado e depois batido na mesa e gritado “merda! Alguém conseguiu antes de mim”. Tarantino, como bom e aplicado cinéfilo que é, certamente também deu uma olhadinha pra cá ao filmar a seqüência inicial de Bastardos Inglórios ao redor de mesas e envolvendo conflitos com diálogos na defensiva e copos de leite.
A dilatação do tempo nessa tal seqüência em que mocinho e bandido estão frente a frente em uma mesa e separados por um relógio (daqueles barulhentos e chatos pra porra que contam os segundos) é de fazer vibrar, apertar o travesseiro, roer as unhas (não vejam com gente ao lado, pode acontecer alguma tragédia). O jogo de campo e contra campo, com cortes secos passando de rosto em rosto, o tique do relógio que vai tomando conta do ambiente e praticamente engole a ação até restar nada mais que closes em rostos suados e olhos apreensivos emoldurados pela fumaça do cigarro que empunha um dos personagens e que vão cercando o espectador e projetando aquela sensação de que a imagem vai resgar em duas é coisa do nível daquele duelo do Leone ao final de Três Homens ou da inquisição do caçador de judeus, e não é brincadeira. E se fosse vocês só saberiam vendo, então vejam, e constatem também como Mann é um gênio em transgredir regras de gênero e faz de Desperate um estado de confluência entre céu e inferno, acertos e erros, onde a mais romântica das ações é seguida de uma perseguição ou assassinato e tudo acontece com a maior das naturalidades como se fizessem parte de um mesmo pólo. E não fazem? Os filmes b da velha Hollywood sintetizavam a vida, diz que não.
4/4
10 Responses to Desesperado (Desperate – Anthony Mann, 1947)