O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky – Bernardo Bertolucci, 1990)

Quanto mais se conhece a obra de Bernardo Bertolucci mais se confirma que a maioria absoluta de seus poucos grandes filmes pertencem aos anos sessenta (ou até o começo da década seguinte, quando muito). Esse O Céu Que Nos Protege é mais uma decepção dentre os que ele fez nos últimos vinte anos. É quase tão fetichista quanto o (relativamente) recente Os Sonhadores (se for para defini-lo em duas linhas, dá para dizer que é Os Sonhadores de meia-idade passado no deserto do Saara), ao mesmo tempo em que, repetindo a fórmula de O Último Imperador, aproveita-se de uma cultura estrangeira para garantir o interesso do público pelo lado exótico da obra. É triste constatar que há décadas Bertolucci raramente oferece algo de novo, dedicando-se a contar histórias pretensamente profundas para garantir o interesse do espectador que se julga inteligente, mas diluindo tudo para agradar ao maior número possível de platéias. O melhor de O Céu Que Nos Protege são algumas das cenas que exploram a beleza do deserto e de suas cidades (foi filmado na Argélia, Marrocos e Nigéria), o que é mais mérito da câmera de Vittorio Storaro (que, aliás, salvou muitas das obras do diretor do fracasso absoluto). E quem for assistir ou rever o filme, pode notar que do elenco talentoso (mas que aqui pouco tem a fazer), o melhor que se pode dizer é que Debra Winger está com uma indisfarçável cara de Silvia Krystel (por sinal, se o filme tivesse um pouco mais de nudez e de sexo, poderia passar tranquilamente por um episódio de Emanuelle em crise existencial no norte da África).

1/4

Vlademir Lazo Corrêa

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9 Responses to O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky – Bernardo Bertolucci, 1990)

  1. Eu gosto.
    Mas concordo com tudo q disseram sobre o Bertola.

  2. Maicon

    Desde que Bertolucci entregou a maravilhosa cena onde Eva Green se despe em “os sonhadores”, num dos momentos mais sublimes (visualmente falando) do cinema nos anos 2000, tenho convicção de que qualquer filme dele merece ser visto.

  3. Daniel Dalpizzolo

    O sexo amanteigado é a coisa mais legal que o Bertolucci já fez. O resto sei lá (alguém já viu filme mais chato que O Último Imperador? – não vale citar Senhor dos Anéis).

  4. Acho esse filme muito bom. Muito mesmo. Sei que muita gente não gosta do Bertolucci das últimas décadas e até entendo os motivos, mas não consigo evitar minha extrema simpatia por seu cinema.

  5. djonata

    eu concordo com o Dan sobre Last Tango, o único filme do Berto que eu realmente acho foda.

  6. Coisa mais legal que o Bertolucci já fez, foi ajudar Leone a escrever Era uma vez no Oeste.

    Acho o Ultimo Tango… meio fraquinho. Bons são O Conformista e La Luna.

  7. Luiza Folle

    se tratando de cinema, Bertolucci consegue tocar bem no fundo da escuridão que nos é inerente, o difícil é aceitar bem, esse lado negro. Sou fascinada pelo modo como ele direciona seus personagens, exaltando sempre suas fraquezas, com uma pitada generosa de apelo sexual(quem não gosta de um “espetáculo” de fetiches?)….Bertolucci consegue ser perverso e ao mesmo tempo sublime.

  8. Há algumas perdições no filme, como a cena em que Port vê que está sendo roubado e, ao recuperar sua carteira, faz questão de mostrá-la ao bandido. É interessante lembrar-se do vazio interior dos personagens porque é justamente de lá que vem toda a síntese das interpretações – tanto de Malkovich quanto de Winger, esta também abertamente confortável como Kit. É menos um filme de performances exageradas que buscam centralizar a atenção para si e mais da leveza destes paradoxos visuais entre os grandes cenários e a pequenez dos personagens que neles habitam.

  9. Há algumas perdições no filme, como a cena em que Port vê que está sendo roubado e, ao recuperar sua carteira, faz questão de mostrá-la ao bandido. É interessante lembrar-se do vazio interior dos personagens porque é justamente de lá que vem toda a síntese das interpretações – tanto de Malkovich quanto de Winger, esta também abertamente confortável como Kit. É menos um filme de performances exageradas que buscam centralizar a atenção para si e mais da leveza destes paradoxos visuais entre os grandes cenários e a pequenez dos personagens que neles habitam.