Aldrich passou a maior parte da carreira dirigindo filmes de gênero para estúdios de Hollywood e enquanto isso, já que não tinha toda liberdade do mundo pra falar na lata aquilo que pensava, trabalhou de diferentes formas os arquétipos de gênero procurando pontuar esses trabalhos com algumas observações mais incisivas sobre a sociedade, a violência, a paranóia das relações humanas em tempos de pós-guerra – e vá lá, em todos os tempos – e as situações limites em que muitas vezes o homem se encontra e que podem despertar nele reações extremas e perigosas. Com o sucesso de Os Doze Condenados, feito para a MGM no final da década de 1960, Aldrich ganhou muito dinheiro, e como era doido de pedra – não daquela pedra, pelo menos até onde sei – torrou toda grana abrindo uma produtora própria pra fazer os filmes que queria do jeito que desse na telha e sem dever nada a ninguém.
Ele é um cara fodão em praticamente todas as fases de sua filmografia, mas ver um filme de Aldrich pós-68 é uma sensação tão intensa quanto transar sem camisinha com prostitutas gostosas e cleptomaníacas num beco de um bairro barra-pesada de Nova York. Você está de cara com algumas questões-chave para a degradação social tão trabalhada pelo cinema americano da década de 1970, e como Aldrich está muito distante de ser um cineasta cínico – como um Haneke, por exemplo – existe em seus filmes uma áurea impassível de indignação e revolta com toda essa merda que acontece diariamente, um posicionamento de alguém realmente puto com a realidade que não se omite nem faz de conta que mora num castelo nos Alpes e observa tudo como se estivesse acima de todas as coisas.
Nesse sentido, e pra acabar de vez com a enrolação, Crime e Paixão é um filme de síntese tão extremo quanto funcional. Aldrich assim como seu protagonista, um detetive que precisa resolver o caso do assassinato de uma atriz adolescente de filmes pornôs, passa o filme inteiro tentando fugir de sua “missão” – contar a história de uma investigação, que na verdade só começa no final – e nos convida a percorrer as ruas de uma metrópole para observar e eventualmente confrontar os mais variados tipos de corrupção moral e social – assassinato, estelionato, drogadição, prostituição, aliciamento de menores, assaltos, estupros, vingança, seqüelas de guerra, enfim, o protagonista está no front contra a delinqüência e as merdas do mundo e quanto mais tenta se afastar delas mais parece ser engolido por este redemoinho aparentemente insolucionável de instabilidade social.
O personagem de Burt Reynolds é visivelmente a representação carnal da própria indignação de Aldrich, a materialização de um momento em que ele resolveu chutar o tal do balde e mandar tudo pra puta que pariu. Quanto mais tenta se esconder da sujeira e da escória (parafraseando Travis Bickle pra ficar bonito) mais ela o procura – e visto que é apaixonado por uma prostituta, ainda assim, parece realmente estar disposto a deixar certas coisas de lado com a expectativa de que tudo um dia possa ser diferente. Mas Aldrich é um pessimista, e com esse filme sujo, feio – esteticamente inclusive, o que para quem conhece Aldrich é perceptivelmente um afronte do diretor – e cheio de amoralidades não nega que aqueles valores que busca resgatar estão ameaçados, mas que eles existem. Era este o dilema de Aldrich, um homem que saudava os novos tempos com uma raiva tremenda, mas que sabia que esta raiva que sentia não representava necessariamente a maldade intrínseca do homem, mas apenas sua indignação com o fato de que as coisas não eram do jeito que queria que fossem – a cena de violência/amor bruto dele com a prostituta é genial nesse sentido. As ações estão ligadas com temperamento e emotividade, e não são fruto de uma equação matemática – te educaram dum jeito, vai ser daquele jeito a vida toda, etc. Sim, eu tinha que cutucar A Fita Branca, mas foda-se, o que eu queria dizer mesmo é que Aldrich é foda!!!!!!!!! [/piada interna mode off].
4/4
Daniel Dalpizzolo



18 Responses to Crime e Paixão (Hustle – Robert Aldrich, 1975)