


Não costumo gostar de ensaios de fatos históricos – e menos ainda quando a resolução destes fatos são peças importantes dentro da narrativa – porque são sempre simplesmente tratados como fatos, o que é mau para o cinema. Como Operação Valquíria, do talentoso Bryan Singer. Toda vez que algo assim acontece, eu torço – mesmo sabendo que é inútil – pro cara pirar o cabeção, e uma vez em um milhão de vezes tudo que eu queria e que achava impossível acontecer na tela, acontece. Se Tarantino tivesse dirigido A Paixão de Cristo, Pedro pularia na frente da cruz com granadas e uma AK-47 dizendo “say hello to my little friend”, ou algo assim.
O Christoph Waltz é a personificação da mola propulsora de todos os grandes momentos do filme, mesmo quando ele não está lá (como na cena da taverna). O texto, os gestos, os olhares e os movimentos da câmera, todos escritos para dizerem o oposto do que estão dizendo (o que talvez seja a principal característica do film noir), e que faz de cada momento um momento a menos antes que tudo vá pelos ares, uma iminência dosada de modo genial, a raiz de toda a tensão propagada em Bastardos Inglórios (o cap. 1 já te deixa sem nervos pra continuar). Waltz hipnotiza, é simplesmente bom ficar olhando enquanto ele fala. Pitt tá fantástico também (e de novo. a essa altura acho que ninguém questiona que o cara é um dos grandes dos últimos anos)
Das referências, é sem dúvida o principal filme do Tarantino, e eu tô pouco me fodendo se o cara é arrogante e prepotente enquanto continuar combinando o talento a esses adjetivos. Porque é muito bom que haja lá fora alguém com prestígio e habilidade que esteja fazendo o que, no fundo, todos nós que curtimos cinema adoraríamos fazer. Parece uma criança brincando de ser ora Leone, ora John Ford, Godard, Ferrara ou De Palma. Como brincávamos de ser o Romário ou o Ronaldo (eu era o Paulo Nunes, sempre), assim como quase dá pra visualizá-lo rindo e apontando o dedo todo empolgado sempre que ouve alguém dizer “Antonio Margheriti”, ou vê alguém polindo (ó que fofo) as letras do nome de Henri-Georges Clouzot.
Não concordo que seja a obra-prima, ao menos hoje não. Ainda acho Kill Bill um ponto de equilíbrio perfeito dentro da filmografia do Tarantino. Mas é isso, alguns vários excelentes momentos costurados pelo amor sempre tateável ao cinema na forma de um texto perfeito (quem disse que não era importante?…), de travellings deslumbrantes (dentro da sala de cinema, principalmente), de decisões criativas que eu aplaudo de pé e, acima de tudo, do domínio absoluto sobre todos os objetos – seja a câmera, a luz, a cor, o ritmo, os atores – que gravitam submissos ao redor dele. Master of his domain. (referências o/)
4/4
Luis Henrique Boaventura
Screenshots!
A mise-en-scène vive. Aqui um belo exemplo do que se pode fazer dando um blow up num mesmo quadro. Os espelhos e a iluminação que traça contornos fosforescentes do primeiro, a harmonia perfeita do círculo e do balanço de vermelhos no segundo, o reflexo se sobrepondo ao cartaz do lado de fora no terceiro, e as várias meias-luas do último num crescendo sutil em direção à belíssima Mélanie Laurent.




ou: Bastardos Inglórios (Quention Tarantino, 2009) – Marcelo Dillenburg – 4/4
ou: Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009) – Vinícius Laurindo – 4/4
11 Responses to Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds – Quentin Tarantino, 2009)