


Lisa e il Diavolo é a alegoria substancial da perdição humana, entregue e rendida num pesadelo paralelo aos feitiços de um manipulador mais terrível, mais pervertido e articulado, cheio de um bom humor como manifestação quase sexual do seu talento: Mario Bava.
Se o senso comum nos traz os autores sempre como deuses onipotentes de seus mundos, Bava faz questão de ser o diabo, e na verdade é próprio desses italianos a exploração basicamente da mesma história de personagens jogados num labirinto de lâminas e de sangue sem outra saída possível que não seja o próprio inferno, e por isso que Lisa e o Diabo é tão impressionante, tão diferente. Banho de Sangue, Terror nas Trevas e até Tenebre são todos exercícios pulsantes de inventividade, documentos de apologia total à criatividade e à imaginação acima de todas as coisas, mas é em Lisa e o Diabo que Bava se volta totalmente para a própria obra, desvelando com um olhar interno sobre os mecanismos, artifícios e engrenagens deste discurso de absolutismo autoral.
É a partir deste princípio que Bava construiu aquela que provavelmente é a mais perfeita síntese da ação de um criador sobre suas criaturas, divertindo-se ilimitadamente, como antes e como outros, num universo próprio onde todos os personagens são marionetes à mercê da mais pura, da mais perfeita e mais nuclear definição que se pôde algum atribuir à liberdade. Queimem o que os poetas escreveram, Bava celebra o próprio poder em cada centímetro quadrado da sua obra-prima. São pouco mais de 90 minutos transcorrendo num universo onde o tempo inexiste. Uma atmosfera de cores e de luzes que se amplifica e se desconstrói pelas ordens do mestre. E é uma composição mais deslumbrante que a outra, um plano mais cuidadoso e obsessivo de quem se viu apaixonado pelo seu próprio cinema.
Lisa e o Diabo é uma ode, uma ópera de Mario Bava a si mesmo e à vazão ininterrupta da maldade que no plano da imaginação e do teatro é finalmente livre para fluir conforme o paladar carnívoro do demônio que uns preferem esconder, outros, celebrar sob os ritos sangüíneos de um verdadeiro estupro cinematográfico.
4/4
Luis Henrique Boaventura
8 Responses to Lisa e o Diabo (Lisa e il Diavolo / Lisa and the Devil – Mario Bava, 1973)