É inegável que essa arte que tanto amamos criou inúmeras (merecidas) celebridades ao longo dos seus mais de 100 anos. Entretanto, com a mesma velocidade que ela alça ilustres desconhecidos em estrelas da mais alta grandeza, também põe abaixo inúmeras carreiras e filmes. Muitos deles são reconhecidos com o passar dos anos (nada como a análise fria do tempo para dar crédito ao que merece), contudo, em muitos casos, fica sempre a sensação de injustiça, com algumas carreiras terminando prematuramente.
Um exemplo claro disso que estou falando é The Night of the Hunter (mal traduzido aqui como “O Mensageiro do Diabo”). Esse foi o único filme do diretor Charles Laughton, um renomado ator dos anos 30 e 40. Isso se deveu ao grande fracasso comercial e a incompreensão da crítica especializada. O desastre foi tão grande que Laughton decidiu nunca mais realizar um filme. Vendo-o, só posso concluir duas coisas: esse foi o típico caso de um filme muito a frente do seu tempo e que, por causa disso, perdemos um grande diretor, quem, caso seguisse a sua carreira, poderia figurar entre os maiores do cinema.
The Night of the Hunter é uma obra única, que se utiliza, dentre outras coisas, dos “ensinamentos” do expressionismo alemão para criar um clima totalmente soturno e, por que não dizer, macabro para a figura maléfica personalizada por Harry Powell, um suposto pastor que, na verdade, é um aproveitador e assassino de viúvas indefesas, e em sua última empreitada, precisa enfrentar duas destemidas crianças (as filhas da última viúva que ele matou).
Charles Laughton se mostra um diretor excepcional, que soube aproveitar como poucos o trabalho de fotografia em p&b para compor esse conto macabro pelo ponto de vista das duas crianças. Se percebe a influência do noir clássico, mas também há várias pinceladas de outras inflências (especialmente no que diz respeito a vários elementos teatrais), criando um estilo quase que único.
Mais do que isso: o filme consegue provocar uma sensação quase que ininterrupta de medo no telespectador. Medo. Muito medo. Medo de um simples cântico religioso entoado em vários momentos por Powell, em cada momento em que a sua sombra aponta no horizonte, medo do que pode acontecer com aquelas crianças, medo em relação com o que ele irá fazer com a mãe dessas crianças. Resumindo: Laughton consegue transpor o telespectador para áquele mundo. A partir desse momento, enxergamos o filme sob a óptica daquelas crianças.
Boa pare do crédito a esse fato se deve também à interpretação soberba de Robert Mitchum. Ele consegue construir um personagem cínico, obscuro, irônico e, o mais importante, assustador. Suas pregações, o olhar profundo e ameaçador, o modo como cerra e prensa as mão uma contra a outra, mostrando o embate entre o amor e o ódio (evidenciado pelas as palavras “HATE” e “LOVE” tatuadas nos seus dedos)… todas essas nuances fazem com que tenhamos medo dessa figura. Mais do que isso: apesar do medo, faz com que ficamos fascinados pela sua persona contraditória, que se vê como um “defensor da moral e dos bons costumes” (na falta de uma definição melhor) e que, por conta disso, precisa limpar à sua maneira toda a sujeira que a luxúria insiste em espalhar.
O filme é também uma crítica mordaz ao fanatismo religioso, representado principalmente pelos habitantes daquele local, que se mostram bastante receptíveis àquela suposta distinta figura de falas tão encantadoras e venenosas, que, por conta disso, se aproveita da situação. Além disso, quando finalmente Powell é desmascarado, esse fanatismo se mostra ainda mais latente, diante a reação inquisitora da população, disposta a “ver derramar o sangue do infiel”. Mais do que a força física, a força da palavra é mostrada com todas as suaas garras. Apesar da história da fita se passar nos anos 30, esse aspecto ainda se mostra atualíssimo.
Ainda nessa análise sob o ponto de vista religioso, percebemos a figura da pureza e da inocência (as crianças) triunfando contra os malefícios de toda uma sociedade. Elas são empurradas para um um mundo caótico, repleto de questões morais, lutando para encontrar um caminho por entre dificuldades espirituais, emocionais e físicas, de forma a cumprir a promessa que fez a seu pai. No final, cansado de levar esse fardo, ele abdica da promessa, abandonando esse peso injusto ao qual foi obrigado a carregar e, com isso, recuperando a sua pureza e inocência.
Por essas e muitas outras coisas (que não serão citadas nessa resenha sob pena dela se transformar num extenso e chato tratado), The Night of The Hunter é um dos filmes mais impressionantes já feitos. Além de mostrar o quanto o mundo pode ser injusto: enquanto vemos uma carreira de diretor que poderia ser promissora, mas que acabou por conta do julgamento mordaz do público e da crítica, abortos da natureza como Michael Bay e Uwe Boll continuam a fazer o que eles têm a audácia de chamar de filmes. Pelo menos todos nós sabemos quais irão permanecer incólumes com o tempo…
4/4
Adney Silva

4 Responses to O Mensageiro do Diabo (Charles Laughton, 1955)