Sinais (Signs – M. Night Shyamalan, 2002)

A iminência de perigo sustentada pela casa envolta de um imenso milharal é mantida num nível que serve de base pra toda arquitetura visual de Shyamalan em Sinais. Nem em A Vila, mesmo num ambiente amplificado pela época em que o diretor situa o lugar, a sensação de isolamento e abandono é tão forte, tão depressiva e angustiante.

A mim pouco importa a sub trama da reconquista da fé e de uma unidade familiar anteriormente toda amputada e espalhada pelos cômodos de uma única casa. Porque Sinais é um filme em que todos os elementos são coadjuvantes uns dos outros, desfilando sob a égide escravizante de uma atmosfera de tensão que Shy resgata dos panos de fundo e traz a primeiro plano, exibindo seus personagens não sobrepostos a este lençol, mas detrás dele, por sua vez trespassado de uma mera sombra do que em tese precisaria ser o epicentro apenas iluminado pelos efeitos taquicárdicos da ambientação que M. Night Shyamalan consegue tecer. E apesar da historinha do padre ser bem boazinha e em algumas vezes até tocante, ela mesma serve de degrau para momentos de verdadeira claustrofobia cinematográfica.

Sinais tem algumas das melhores cenas de Shyamalan, halos de redemoinhos sensoriais aos que um espectador pode experimentar, limitadamente, em alguns poucos filmes organizáveis nos dedos. O modo absoluto com que o diretor compreende a sensação sufocante de alguém circundando a casa é o catalisador de todos os grandes momentos dessa obra-prima de essência do suspense. O local por si só já pressupõe uma vaga ameaça (o milharal dá ao mesmo tempo uma noção de amplitude e de lugar gradeado num contraste entre a imensidão do nada por vários quilômetros – reforçando a idéia de que não há ninguém por perto para ajudar – e a sensação terrível de não haver para onde fugir).

Se a silhueta no telhado é quase paralisante, o que se faz posteriormente provoca olhares para os lados em quem assiste, apenas no uso do som e da sugestão de que qualquer coisa está prestes a saltar sobre o personagem, que no caso, é você mesmo, já que aqui não apenas testemunhamos uma família numa casa, mas fazemos parte dela. Shy isola o espectador jogando-o na ilusão de um ser invisível sujeito a tudo quanto é possível neste universo fílmico, tornando todas as câmeras subjetivas, numa das mais eficientes imersões que eu já vi. Sinais me engoliu pra dentro dele nos seus cento e poucos minutos, e eu escapei nem sei como.

Tem umas coisas especialmente perturbadoras. Graham com a lanterna no milharal é a representação exata de um pesadelo no qual, por mais que se corra, você parece não sair do lugar. E o grande centro de gravidade de Sinais, a cena no porão, é apenas daquelas poucas indizíveis e inexplicáveis às quais temos o prazer de nos render. A melhor coisa que o indiano já fez na carreira, e uma das cenas mais opressivas e movediças já criadas (e preciso me lembrar disso pra um próximo top! do gênero), na precisão da coreografia, na simetria de cada micro composição enquadrada nos limites claustrofóbicos daquele porão, e na utilização incisiva de elementos de cena por interferência direta no arranjo da própria cena, como pode ser visto nas variações de luz planejadas por Shyamalan e que parecem transcorrer ao acaso, num processo orgânico que, repito, encarna e aprisiona o espectador num personagem impotente dentro do filme.

Na verdade, o terceiro terço todo de Sinais é inesquecível. O próprio trecho que precede a cena do porão é matéria bruta do ‘alguém rondando a casa’ citado anteriormente, e do som como lâmina do suspense, pelo qual Shy representa a progressão dos invasores entrando no lugar. É também no som que a simples presença do monitorador de bebês como indicador de proximidade de perigo traz boas lembranças de Silent Hill (o game) e aquele ruído aterrorizante do radinho. Aliás, o filme do Christopher Gans só não deu certo pela ausência do elemento.

Sou do bloco do eu sozinho que considera Sinais um dos maiores suspenses de todos os tempos. É um dos poucos filmes que conseguem me prender pelos ombros, me arrastar e me mergulhar completamente no seu universo, atingindo aquele efeito limite, o ponto mais alto até onde o cinema pode chegar, a justificativa mais sintética para a existência desta arte audiovisual teoricamente tão limitada no que tange à produção de sensações que fogem à superfície do contato sonoro ou visual: me fazer despencar para dentro de um outro mundo.

4/4

Luis Henrique Boaventura

ou: Sinais (M. Night Shyamalan, 2002) – Rodrigo Jordao – 4/4

4 Comments

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4 Responses to Sinais (Signs – M. Night Shyamalan, 2002)

  1. Amílcar Figueiredo

    O texto é muito sedutor e, embora eu não considere Sinais um dos melhores suspenses já feitos nem de longe, gosto do filme. Aliás, sou de opinião de que esse foi o último bom trabalho do diretor. Depois dele, “Shyamalan goes global”: a abertura da lente com a qual ele observava tão bem os personagens é muitiplicada por cem, o foco se perde, o ego se agiganta e a vaca vai pro brejo. De vez.

  2. Albergoni

    Sinais é excelente suspense, parabéns pelo texto coerente!

  3. Sinais é um ótimo filme de suspense/drama, sem sombra de dúvidas, mas não conseguiu me encantar como outras obras do diretor e de Hitchcock. Tecnicamente perfeito (tá certo que o visual do ET poderia ser mais realísta), tenso, emocionante, pertubador…um clássico!!!

  4. Loreta

    Gente, enxerguem além!!! Infelizmente, isto é para muito poucos! Se o ET é grotesco, irreal, ou sei lá o que mais, não importa. É justamente isto que o diretor quis passar: os ETs e seus sinais são pano de fundo,é balela, não é o que importa. O que ele quer mostrar é outra realidade: muitos SINAIS que não nos permitimos enxergar. Quem já passou por certas situações delicadas e difíceis na vida e tiver o mínimo de
    sensibilidade e inteligência para compreender o verdadeiro significado deste filme, pelo
    preço de um ingresso de cinema, curou-se com uma terapia completa!
    Não entendeu…Paciência…