A Vila (M. Night Shyamalan, 2004)

Muito se disse sobre A Vila, sexto filme de M. Night Shyamalan, ser uma metáfora sobre a cultura do medo instaurada nos Estados Unidos depois dos atentados de 11 de setembro, ou uma constatação sobre a impossibilidade de acabar com a violência, ou uma história sobre as verdades e mentiras dentro de uma família, ou uma junção dos três temas e mais alguns. Mas, antes de — e mais importante que — ser tudo isso, A Vila é uma espécie de revisão, ou ainda desconstrução, que Shyamalan faz do seu próprio cinema (ao menos pós-O Sexto Sentido).

Nessa revisão, o que norteia o diretor é exatamente a noção de acreditar (em algo, sejam fantasmas, superpoderes ou milagres), que já era importante nos filmes anteriores; no entanto, o que diferencia A Vila de seus predecessores é que aqui, pela primeira vez, Shyamalan coloca o espectador no centro da brincadeira. Antes, crer em alguma coisa era reservado apenas aos personagens; agora, quem assiste também é chamado a tomar parte nisso, e o que o filme faz é levar a questão até o limite, culminando na sua principal cena, em que a protagonista é perseguida por uma criatura que, minutos antes, tínhamos descoberto que não existe. Tudo o mais, o enredo, os personagens, os subtextos (supostos ou não) não são mais que mero McGuffin para se chegar àquele momento na floresta.

E isso torna A Vila não só um jogo com o estilo de Shyamalan, mas, além disso, com as bases — que também passam pela questão da crença — do cinema fantástico: o espectador vai ver disposto a admitir o que quer que seja como possível, compra a idéia das criaturas, para logo descobrir que não passam de uma farsa, e então vem o confronto: a aceitação inicial da existência dos monstros contra a informação dada pelo filme de que eles não existem. Óbvio que a cena não funciona com muita gente — seja pelo tal confronto simplesmente não se concretizar (“já falaram que não tem criatura nenhuma, que bosta é essa?”), por não envolver, ou por milhares de outras razões —, mas deu certo comigo, e não só comigo. E só pela coragem, ou arrogância, que seja, de ser pôr à prova de tal maneira, tentando criar uma cena de suspense baseada num elemento descartado por ele próprio, e que fatalmente iria fracassar com parte do público, Shyamalan já mereceria elogios.

A revelação da farsa, além de servir ao jogo que é o centro do filme, também é outra semi-piada que Shyamalan faz com o rótulo que meio que lhe colaram, e ele meio que atraiu de ser o-diretor-dos-filmes-com-finais-surpresa — dessa vez a reviravolta vem com quarenta minutos ainda pela frente. Mas lá vem outra surpresa depois, opa, tem mais uma reviravolta, essa sim no final, o que demonstra a habilidade de Shyamalan em mexer com as expectativas da platéia, e aqui de maneira ainda mais genial por se aproveitar da imagem que as pessoas criaram dos filmes dele, e por usar a desconstrução do próprio estilo, antecipando a grande revelação, para reconstruí-lo depois, entregando outra.

Também é natural que, dentro da proposta de revisão, A Vila seja o filme do diretor em que mais se destaca a parte visual (fotografia genial de Roger Deakins), incluindo o talento na manipulação da câmera (as constantes tomadas através de portas, janelas etc., a aparição das criaturas na vila, o esfaqueamento, toda a parte na floresta), e em que o suspense criado por Shyamalan mais mostre a influência hitchcockiana, com direito até troca brusca de protagonista, como em Psicose.

No começo, disse que, mais importante do que ser ou não um filme sobre todos os temas que atribuíram a ele, era A Vila ser um filme em que o diretor revia o próprio estilo, zoava um pouco com ele, demolia e remontava em questão de minutos. No entanto, mais importante do que ser uma revisão ou coisa do gênero, é A Vila ser um belo exemplar do hoje meio em baixa cinema fantástico. É feito às antigas, com confiança total na disposição do espectador de se deixar levar por uma história fora da realidade, sem medo de mandar as regras que regem o lado de cá da tela ao escambau. E por isso é tão bom: é como ler um conto do século XIX numa daquelas velhas coletâneas, grossas, com as páginas amareladas e cheias de poeira, num dia de chuva.

4/4

Robson Galluci

9 Comments

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9 Responses to A Vila (M. Night Shyamalan, 2004)

  1. Luis Henrique Boaventura

    Perfeito, Robson. É exatamente o que eu penso: uma grande brincadeira do Shy com seu espectador e seu próprio cinema. E assim como em Psicose, perceba como o curso aparentemente natural das coisas é subitamente cortado por um dado acontecimento. Como se o filme de monstros ameaçadores em torno de um lugar isolado (o que daria algo como um Sinais II) fosse interrompido para que uma odisséia catártica propulsada pelo amor fosse iniciada. A cena da perseguição na floresta é um pedido de licença de Shyamalan para que o espectador compreenda que, naquele momento, o filme gira em torno de Bryce Dallas-Howard. É nos seus medos (encubados, fortes demais para serem dissolvidos numa revelação de segundos) que Shy se concentra. É uma declaração de carinho à personagem de Bryce, pedindo ao espectador que não preste atenção aos monstros e aos perigos da floresta, mas sim, à Ivy. A tudo que ela aprendeu a temer e tudo contra o que ela tem que superar para salvar a pessoa que ama. Por isso a revelação antes e a cena depois. Por isso o “erro de montagem” (como parte da crítica chegou a chamar). É o Shy dizendo “à merda com os montros. Olhem isso aqui… não é lindo?”

  2. Muito boa a crítica do Robson, um ponto de vista interessante. Entretanto, pra mim, não funcionou. E não, não foi por causa da tal revelação, nem da outra revelação que vem depois, nem da que viria depois se o filme tivesse mais 5 minutos. Shyamalan simplesmente não conseguiu comunicar para mim isso tudo que ele passou pro Robson. Não que eu não seja capaz de entender isso pensando sobre o filme, mas não senti isso assistindo-o. E, sinceramente, de que adianta mil qualidades na arte, se no fim das contas ela não encanta?

  3. Amílcar Figueiredo

    A única coisa que funciona comigo nesse filme é a fotografia, que é do Deakins. Todo o resto me desagrada, do roteiro ao elenco, mas o que mais me incomoda mesmo é o sacrifício a que é submetido o espectador apenas para o Shyamalan provar, ou tentar provar, que há um cineasta por trás do cara-que-faz-filmes-com-finais-surpresa. Qual seja a tônica – cultura do medo, perpetuação da mentira, pouco importa – é muito circo e muito ego pra pouca substância.

    O texto do Robson, no entanto, está ótimo! Muito melhor que o filme, aliás.

  4. Curioso é que o texto do Robson diz praticamente o que eu penso enquanto considero A Vila uma das piores coisas já filmadas, heh.

  5. mrscofield

    E não é só você, Dan, até eu concordo. O Alexei falou tudo, acho esse filme fraquíssimo, especialmente com relação à tônica. Quanto mais vejo belos comentários mais percebo o quanto ele se afasta da intenção da proposta e o filme curiosamente fica pior. Melhor dar a idéia pro Robson, pro Dook ou pro Foras fazer.

  6. Daniel Dalpizzolo

    Nossa, aí sim a coisa fode de vez :B

  7. alexandre casemiro

    É o melhor filme que eu já vi, e tenho 39 anos!!!!!!

  8. A Vila é um filme que assusta e ao mesmo tempo encanta. Envolvente, belo, com ótimas atuações, tenso e emocionante. Não entendo as críticas que recebeu, parece que a maioria das pessoas resolveram odiar o mestre shyamalan.

  9. Viviane

    Para mim esse filme, muito mais que farsa, cenas, parte visual, é uma metáfora, não só da cultura do medo, ou uma constatação sobre a impossibilidade de acabar com a violência, mas uma metáfora clara sobre religião. Na Vila, há os líderes, que são informados e sabem muito mais da vida do que é revelado aos outros (alienação, proibição de acesso a determinadas informações, lembram de “O nome da rosa?”), existem dogmas (segredos colocados em caixas em que não se mexem e que não se questionam), a dominação é feita pela culpa (a cor ruim), o medo (os monstros – há até oferendas!), por deturpar a verdade (a cidade é ruim), por castigos (eles violaram nossas fronteiras porque eu saí dos limites), e em troca se oferece “conforto”, “proteção” e tem-se pessoas controladas, obedientes, acomodadas, que não questionam, facilmente dominadas.